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Marisa recomenda “firmeza” ao governo e menos “escolhas ideológicas” a Bruxelas

Em entrevista à Antena 1, Marisa Matias falou do resultado das presidenciais e dos seus efeitos políticos e considerou “absolutamente inaceitável” que a Comissão Europeia mantenha o país sob vigilância mesmo que os critérios do défice sejam cumpridos.
Foto Paulete Matos

Entrevistada esta quinta-feira por Maria Flor Pedroso na Antena 1, a candidata que ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais pronunciou-se sobre a carta de Bruxelas ao governo a pedir mais explicações sobre o esboço de Orçamento de Estado português. "Essas cartas existem sempre, como existiram um sem número de cartas em relação ao Banif", recordou.

“Não creio que em nenhuma das propostas sobre o OE2016 exista um incumprimento particularmente sério das obrigações” do país, afirmou a candidata. “Se o défice estrutural se mantiver nos 3% ou abaixo disso, é absolutamente inaceitável que Bruxelas mantenha Portugal sob o procedimento de défice excessivo”, defendeu Marisa Matias, chamando a atenção para a arbitrariedade do cálculo do défice estrutural: “Se fizermos o levantamento para os 26 países, vamos encontrar 26 fórmulas de cálculo do défice estrutural, porque dependem de fatores subjetivos”, explicou Marisa, acrescentando que “há um tratamento duplo” por parte de Bruxelas. “O governo italiano e espanhol não conseguem cumprir o défice estrutural e não cai o Carmo e a Trindade”, rematou Marisa, dizendo acreditar que no caso português “o critério para saída do procedimento de défice excessivo será cumprido”.

“O uso de 2 mil milhões para salvar um banco não é contabilizado no défice, mas um investimento de 2 mil milhões para combater a pobreza e criar emprego, já era contabilizado no défice. Isso diz muito de qual é o centro da política em Bruxelas”

Outro exemplo da arbitrariedade dos critérios para definir os défices estruturais é que “o uso de 2 mil milhões para salvar um banco não é contabilizado no défice, mas um investimento de 2 mil milhões para combater a pobreza e criar emprego, já é contabilizado no défice. Isso diz muito de qual é o centro da política em Bruxelas”, prosseguiu Marisa Matias.

“A mesma Comissão Europeia que aceita o não cumprimento do défice nominal – e não o estrutural, que é subjetivo – de França, por causa do combate ao terrorismo, não tem a mesma complacência com a Grécia, que gastou 2 mil milhões de euros no auxílio aos refugiados”, referiu ainda a eurodeputada bloquista.

“Bruxelas não pode ter escolhas ideológicas”, aplicando diferentes critérios aos governos de que gosta mais ou menos, resumiu Marisa. E para responder ao “tratamento duplo” por parte da Comissão, “tem que haver firmeza da parte das autoridades portuguesa nas escolhas políticas que tem, e acho que é isso que está a acontecer”, sublinhou.

Como será Marcelo em Belém? “Toda a gente faz a mesma pergunta”

Na parte da entrevista sobre as eleições presidenciais, Marisa sublinhou ter conseguido trazer às urnas de voto muitos eleitores que não iriam votar noutros candidatos. Quanto ao futuro desempenho de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto chefe de Estado, Marisa não escondeu a dificuldade em encontrar uma resposta. “Todos os jornalistas e até eu própria nos pomos essa pergunta. Isso diz muito da campanha que foi feita [por Marcelo], foi ambígua e com disponibilidade para todas as posições e o seu contrário”.

Contrapondo aos analistas que olham para Rebelo de Sousa como um aliado da estabilidade da atual solução governativa, Marisa Matias ouviu no discurso de vitória de Marcelo alguma “ambiguidade quanto à necessidade de trazer a direita para corrigir certas questões ao nível orçamental”, na linha dos discursos de campanha em que o então candidato “foi dizendo que havia dois países que era preciso unir, quando para ele só havia um país antes de 4 de outubro”. Esse discurso dos “dois países” pode ser um sinal de que quer deixar a porta aberta à direita, prevê Marisa.

“O Bloco fará tudo o que puder para que esta solução funcione no quadro de uma legislatura”, uma vez que “somos persistentes na tentativa de obter o melhor possível para as condições de vida das pessoas”.

O desafio do Orçamento de Estado e a estabilidade do governo não passaram ao lado da entrevista, com Marisa Matias a afirmar que “o Bloco fará tudo o que puder para que esta solução funcione no quadro de uma legislatura”, uma vez que “somos persistentes na tentativa de obter o melhor possível para as condições de vida das pessoas”.  “O Bloco é um partido responsável que cumpre os seus compromissos”, resumiu Marisa Matias.

“Resposta europeia aos refugiados é o retrato da nossa vergonha”

Para a eurodeputada do Bloco, a crise dos refugiados e a incapacidade da Europa em acolher “as pessoas que fogem da guerra e do terror quotidiano" faz lembrar "tempos de má memória”. “Estou muito preocupada com a postura da União Europeia. Este caminho é muito perigoso, faz renascer o pior da história da Europa, o nacionalismo, o racismo e a xenofobia”, sublinhou.

“Na Dinamarca confiscam-se bens, no Reino Unido colocam-se pulseiras coloridas para distinguir, noutros países confisca-se 75% do salário, noutros países expulsam-se ou não cumprem a quota”, prosseguiu Marisa, dizendo que o que se está a passar hoje na Europa “é o retrato da nossa vergonha”.

“Não sei o que se passa na cabeça dos líderes europeus quando acham que a juntar a uma UE que está minada por desequilíbrios macroeconómicos insustentáveis se pode juntar uma crise identitária” Isto são tudo muitos más notícias. Estamos a entrar num caminho perigosíssimo que já começa a pôr em causa o processo europeu”, concluiu Marisa Matias.

Termos relacionados Orçamento do Estado 2016, Política
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