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Mário Dionísio, cem anos

Mário Dionísio teve a vida difícil de quem lutou sempre. E estou certo de que ele não concordaria, mas conseguiu quase tudo o que queria: escrever a sua palavra, pintar as suas cores, viver a sua família, partilhar com os amigos e camaradas que valiam, ver o mundo a mudar, mesmo sabendo-o tão pesado e pesaroso como ele é. Por Francisco Louçã
Mário Dionísio - Júlio Pomar (1950)
Mário Dionísio - Júlio Pomar (1950)

Mário Dionísio (1916-1993) comemoraria a 16 de julho cem anos. Já há muito que não está entre nós e os seus amigos vão lembrá-lo, numa homenagem emocionada com o lançamento da sua “Poesia Completa” – como ele gostaria de ser lembrado, sem salamaleques nem trivialidade.

Uma vez, num debate na universidade, um interveniente, atrapalhado por lhe faltar o termo exacto para descrever como Mário Dionísio se foi situando nos grandes debates sobre a cultura e a política, referiu a sua “pose” para classificar o campo em que delimitou as suas ideias. Creio que se arrependeu ainda não tinha acabado de dizer a palavra, pois nada mais contrário ao que ele representava. Mário Dionísio não tinha pose, tinha posição. Pensada e definida, reflectida como poucos, e por isso deixou uma obra tão consistente em domínios tão diferentes.

O Mário tinha vinte anos quando começou a guerra civil de Espanha. Já vem desse tempo o seu activismo social, a sua escrita, a sua política. Envolveu-se no Socorro Vermelho Internacional, escreveu para A Barricada, a sua revista, estudou. A sua tese de licenciatura, sobre Fernando Pessoa, foi talvez das primeiras descobertas do escritor – e foi recusada. Mais tarde, haveria uma polémica entre Mário Dionísio e Eduardo Lourenço sobre Pessoa.

Em 1945 adere ao PCP, que abandona em 1952, tendo então sido “expulso”. Nada que o demovesse da sua fidelidade absoluta à luta democrática e empenho no seu trabalho ímpar. Pela mão de António Sérgio, num caso, pelo reconhecimento da qualidade do seu trabalho, em todos os casos, escreveu no O Diabo, Sol Nascente, Liberdade, Vértice ou na Seara Nova, as revistas em que se expressavam os anti-fascistas, e depois no Diário de Lisboa e na Capital. Era uma das vozes mais reconhecidas do trabalho da crítica cultural (o retrato ao lado é de Júlio Pomar, 1950).

Mário Dionísio - Júlio Pomar (1950)

Quadro de Mário DIonísio - 1950

Foi contemporâneo, companheiro de percursos e amigo de Júlio Pomar, Fernando Lopes Graça, Joaquim Namorado, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, João José Cochofel, ou de Cardoso Pires, mais novo. Pintou com Cunhal e discutiu depois com ele, numa polémica que ficou célebre, o sentido do neorrealismo.

Traduziu Steinbeck, publicou poemas, contos e um romance. Mas a sua obra de referência talvez seja “A Paleta e o Mundo”, uma viagem exigente pela história da pintura e da cultura, como o leitor e a leitora não encontrarão outra. Essa obra é uma preciosidade, ensina-nos a gostar e a perceber o que temos à nossa frente.

Depois do 25 de Abril, ainda foi director de programas da RTP e prosseguiu a sua carreira de professor, até se retirar. Continuou a escrever e voltou à pintura, a que dedicou os seus últimos anos (a imagem ao lado é de um dos seus quadros, a colecção mais completa está acessível ao público no Centro Mário Dionísio, em Lisboa). Foi nesse tempo que o conheci, figura referencial, modesto e crítico, não se esquecia nem simplificava.

Mário Dionísio teve a vida difícil de quem lutou sempre. E estou certo de que ele não concordaria, mas conseguiu quase tudo o que queria: escrever a sua palavra, pintar as suas cores, viver a sua família, partilhar com os amigos e camaradas que valiam, ver o mundo a mudar, mesmo sabendo-o tão pesado e pesaroso como ele é.

Artigo publicado em blogues.publico.pt

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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