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Mário de Carvalho: “O novo ciclo político não pode ceder ao velho jogo da resignação”

Irónico e por vezes desconcertante, Mário de Carvalho afirma, em entrevista ao esquerda.net, que a função de quem escreve é criar um leitor criativo mais do que um consumidor passivo e estéril.
Para Mário de Carvalho " edita-se muito, há muito marketing e uma propensão para hipervalorizar os escritores anglo-saxónicos ".

Com uma vasta obra que abrange vários géneros, considera que o ensino do português sem a literatura é "pura charlatanice". Escrever em função daquilo que está na moda é um erro que conduz à mediocridade e um sinal de fuga ao confronto essencial com os grandes romancistas que escaparam ao transitório conquistando assim a contemporaneidade.

Publicou o seu primeiro livro em 1981 já com 37 anos e depois de muitas vicissitudes que o levaram à prisão e posteriormente ao exílio. Este facto ficou a dever-se a alguma hesitação em tornar-se escritor?

Não. Pode talvez dizer-se que foi fruto de várias circunstâncias embora nenhuma delas seja particularmente relevante. Sou advogado e acredite que não estive parado até ao dia em que o meu primeiro livro foi editado.

Acredito que sim, mas não podia ter começado a escrever mais cedo?

Com certeza. Mas durante muitos anos fui essencialmente um leitor. Diria até um leitor compulsivo. Aprendi a ler muito cedo, ensinado pela minha mãe e com a preciosa ajuda da Cartilha Maternal de João de Deus, além de outros onde se podem incluir muitas coleções de banda desenhada que, acredito hoje, foram essenciais no desenvolvimento da minha criatividade, de uma certa capacidade para ficcionar a realidade.

É oriundo de uma família de comerciantes abastados e o seu pai foi também escritor. Essa atmosfera que o rodeava acabou por ter influência na sua formação literária?

Somos sempre influenciados por aquilo que nos circunda. Na minha casa havia muito livros e passavam por lá alguns escritores. Por isso, essa influência existiu, tal como outras.

Está a referir-se à política, já que o seu pai foi um opositor ao regime fascista e por isso sofreu a prisão e a tortura?

A política entrou também muito cedo na minha vida porque antes do meu pai, os meus avós eram republicanos e tiveram por isso uma intensa actividade cívica durante a 1ª República. Mas a casa dos meus pais foi para mim no início um lugar estranho porque era frequentada por opositores ao regime de Salazar e alguns chegaram a estar lá escondidos por causa das perseguições levadas a cabo pelo regime.

"Somos sempre influenciados por aquilo que nos circunda. Na minha casa havia muito livros e passavam por lá alguns escritores. Por isso, essa influência existiu, tal como outras".

Lembra-se de alguns?

Sim, de Ruy Luis Gomes e de Virgínia de Moura, por exemplo.

A estranheza do miúdo deu mais tarde lugar à consciência do jovem que acaba por acompanhar o pai em algumas atividades políticas?

O meu pai era militante do PCP, um homem conhecido nos meios da oposição que participava em tertúlias nos cafés de Lisboa com muitos intelectuais pertencentes ao neorrealismo. Três dos seus livros já tinham sido apreendidos. Começou assim a ter a prisão no seu horizonte.

Mais concretamente, nas eleições de 1958 onde o general Humberto Delgado abanou os alicerces do regime.

O envolvimento do meu pai na candidatura do Arlindo Vicente e depois da desistência deste, em favor de Humberto Delgado, acabaram por lhe traçar esse caminho.

O seu pai é preso em 1959.

Independentemente das suas tentativas para escapar à privação de liberdade era como disse um homem conhecido e por isso estava já referenciado pela PIDE. E nesse ano, nesse terrível ano, acabou mesmo por ser detido. Uma catástrofe de que não é fácil falar.

É percetível alguma comoção na sua voz.

Eu tinha 15 anos...foi horrível. Além da revolta provocada pela arbitrariedade de uma prisão de natureza política, a vida passou a incluir as grades da prisão, a rotina das visitas, aquele espaço lúgubre do Aljube. Tudo isto acompanhado pela preocupação em sabermos como é que ele estava porque durante 15 dias dias não tivemos notícias.

Mas o Mário também foi preso nesse ano.

Antes da minha prisão pela polícia política, houve essa detenção mais ou menos rocambolesca num calabouço do Castelo de São Jorge porque uns legionários viram-me a falar inglês com uma amiga sem eu ser intérprete.

E isso não era permitido?

Não.

É também por isso que definiu Portugal como um país onde “tudo o que não era proibido era obrigatório”?

É importante não esquecer a mesquinhez de um regime asfixiante, que confinava as pessoas a uma espécie de cárcere onde o autoritarismo era a regra, que se expressava através de práticas de humilhação e imposição de uma conduta assente em pretensos valores onde a disciplina mais não era do que a submissão e a veneração a determinados valores ideológicos que não se podiam discutir nem contestar.

"É importante não esquecer a mesquinhez de um regime asfixiante, que confinava as pessoas a uma espécie de cárcere onde o autoritarismo era a regra".

Foi a partir da prisão do seu pai, que teve consciência do que era ser opositor de um regime autoritário?

Ainda muito jovem, quando via lá por casa determinadas pessoas que eram recebidas com algum formalismo e que apostavam no silêncio porque andavam clandestinas, comecei a ter consciência de que pertencia a uma família progressista ou, como se diria hoje, antifascista.

Esse facto e também as viagens até ao Alentejo onde tem raízes moldaram-lhe o carácter?

Não fiquei indiferente à pobreza, diria mesmo miséria em que aquelas pessoas viviam e não deixei também de enaltecer a sua coragem em reivindicar melhores condições de vida. Gente humilde, analfabeta mas rija e consciente das condições de exploração a que estava sujeita.

Após esse caminho e já estudante de Direito envolve-se na crise académica de 1962.

Antes disso e ainda no Liceu Camões tive alguma atividade de natureza política com outros jovens como o Eduardo Prado Coelho, Artur Faria Maurício, entre outros. Mas o que me fez impressão nessa altura foi ver do outro lado da barricada grupos de jovens nazis, que exibiam a cruz suástica nas reuniões que faziam. Impressionante.

Mas foi de facto na crise de 62 que eu me envolvi de uma forma muito intensa na lutas políticas estudantis.

E como é que começa esse envolvimento?

No dia 24 de Março, que agora é o dia do Dia do Estudante, recebi a informação que a cidade universitária estava ocupada pela polícia e fui de imediato para lá. A partir daí, entro nos movimentos de contestação e nas associações. Fiz greve aos exames, participei nas Juntas de Ação Patriótica que acabaram por não ter relevância e depois quando chegamos a 64/65 com o endurecimento do regime e a enorme vaga de prisões de estudantes, entro na luta pela sua libertação e também na secção cultural da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito.

E nunca mais parou.

Nesse período surge o (José) Luís Saldanha Sanches e eu acabo por entrar para o PCP com a tarefa de reorganizar o partido na universidade porque este tinha sido praticamente desfeito após esse confronto com o regime.

E conseguiram fazê-lo?

Eu diria que a não voltou a ter a mesma força mas conseguiu reerguer-se.

Chegamos a 1971, ano em que é preso.

Sabia que a PIDE já me tinha referenciado. Na minha ação usava diversos nomes mas houve um dia...

em que o foram buscar a casa.

Mais uma vez, uma prisão com alguns contornos muito peculiares porque eu estava a cumprir o serviço militar, tinha saído do quartel e estava em casa a preparar-me para ir ao cinema. Quando saí, vi um tipo estranho perto da casa e um táxi que era deles (da PIDE). O tipo estranho veio atrás de mim e obrigou-me a entrar dentro desse táxi. E lá fomos para a António Maria Cardoso, a sede da polícia política.

E o que é que lhe aconteceu?

Fui interrogado porque queriam saber se eu era o “Ricardo” um dos nomes que eu usava.

E confessou?

Não. Neguei sempre.

E por isso foi sujeito à tortura do sono.

Durante 11 dias, estive sujeito a esse interrogatório e não me deixaram dormir. Na sala estava sempre um polícia (havia um que até lia livros pornográficos) e eu tentava encostar-me ou sentar-me numa espécie de radiador para ver se conseguia descansar um pouco. Mas não me deixavam.

Até ao momento em que perde os sentidos.

Nesse momento até andaram comigo ao colo, para ver se eu acordava.

E o que é que sentia?

Eu não cheguei a ter alucinações extremas. Mas via baratas e uma escada enorme. E olhava para essa escada imaginária e pensava que tinha de me ir embora para regressar ao quartel.

Foi condenado?

Sim, a dois anos de prisão. Mas recorri, fiquei em liberdade provisória e aproveitei esse tempo para ir fazer o estágio de advocacia.

Mas acabou mesmo por ser preso?

O recurso foi indeferido eu fui primeiro para Caxias e depois para Peniche. Quando chegou o tempo (eu andava sempre com um Código Penal debaixo do braço) pedi a liberdade condicional e ela foi-me concedida mas depois desse período teria de voltar para a tropa no Estabelecimento Prisional de Penamacor.

E é nessa altura que começa a pensar sair do país?

Perante esta situação e com fortes probabilidades de ser mobilizado para África, acabei mesmo por fugir primeiro para França e depois para a Suécia onde tinha alguns familiares.

Foi-se embora um ano antes do 25 de Abril. Não acreditava numa mudança?

Sinceramente, não. Havia muitas derrotas, muitos fracassos e quando me fui embora pensei que seria por muito tempo.

Mas o regime já dava mostras de uma grande fragilidade.

O regime ensaiou uma abertura sem correspondência com a realidade. O marcelismo não abrandou a violência e eu estava muito cético.

E como é que foi o seu exílio?

Em França para onde fui a salto, sem documentos foi duro. Andei por casas de amigos até arranjar um passaporte falso, que era o do meu pai. Com uma fotografia minha e a alteração de dados, consegui chegar à Suécia.

E é aí que se encontra em 1974.

Lembro-me muito bem desse dia. Estava frio e pela manhã caiam uns flocos de neve. Nisto, há uma senhora casada com um português que me disse que estava a acontecer uma revolução em Portugal. Mas não conseguimos saber quem eram os protagonistas dessa revolução.

Foi difícil, mas depois lá encontrámos um rádio muito grande e ouvimos a Emissora Nacional. Quando reconheci a voz do Zé Afonso percebi que a revolução tinha que ser progressista, de esquerda.

Há alguma emoção na sua voz.

São situações que nunca se esquecem. E emocionam sempre.

Regressa a Portugal e uns anos depois liberta também o escritor.

Em 1981 saiu o livro Contos da Sétima Esfera. E partir daí passei a publicar regularmente.

Já tinha feito todos os exercícios necessários para ser mais do que um autor momentaneamente na moda?

Esse trabalho nunca está finalizado, mas tinha já consciência que não ia cair nos alçapões dos clichés literários. Só interessa a escrita que se situa acima dos lugares comuns porque o desafio de um escritor é deixar obra que resista ao tempo. E quando assim é, estamos sempre no presente.

Já fez então esse confronto com os grandes romancistas, como o Camilo, o Eça, o Aquilino.

É um desafio permanente que nos permite perceber porque é que eles ainda ocupam um espaço relevante na nossa vida.

Há algum escritor da nova geração de que goste particularmente?

O Gonçalo M. Tavares e o Afonso Cruz. Não sei o que leram que tipo de confrontos literários fizeram, mas são muito bom escritores.

Acha que ainda há muita gente a ler os grandes escritores?

Edita-se muito, há muito marketing e uma propensão para hipervalorizar os escritores anglo-saxónicos. Basta olhar para as páginas dos jornais. E há também responsabilidades no sistema escolar. Ensinar português sem a literatura é charlatanice. Um jovem estudante pode não gostar do Camões, do Eça, do Garrett ou do Herculano. É natural até porque são de leitura obrigatória. Mas mais tarde vai perceber o seu valor. Precisamente quando lhe aparecer a escrita cunhada com o sucesso do imediatismo que rapidamente desaparece sem deixar qualquer marca.

Temo o regresso do “Portugal agachadinho” que deu a vitória à coligação PSD/CDS, representante dos interesses instalados, das negociatas, dos novos-ricos, da finança, dos banqueiros, dos patos-bravos, da moscambilha que almoça em hotéis, compra carros de luxo e puxa o país para baixo.

Como é que olha para o país?

Com muita apreensão apesar das mudanças ocorrida após as últimas eleições legislativas que abriram espaço para o surgimento de um novo ciclo marcado por políticas progressistas. Para mim, é um princípio de esperança. Este novo ciclo não pode ceder ao velho jogo da resignação.

E onde é que situa as reticências?

Temo o regresso do “Portugal agachadinho” que deu a vitória à coligação PSD/CDS, representante dos interesses instalados, das negociatas, dos novos-ricos, da finança, dos banqueiros, dos patos-bravos, da moscambilha que almoça em hotéis, compra carros de luxo e puxa o país para baixo. Este é o “arco da governação” que nos impõe um país pobre constituindo-se, desta forma, como um grande obstáculo ao seu desenvolvimento.

Mas esse círculo foi agora quebrado.

Espero que tenhamos consciência cívica e memória histórica. Só assim poderá ressurgir uma cidadania forte e ativa que não se deixe condicionar pelos media em especial pelas televisões que utilizam a mediocridade para matar o espírito crítico da sociedade. E sem ele, resta apenas a resignação.

Entrevista de Pedro Ferreira

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