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Maria Velho da Costa por Catarina Martins

No dia do último adeus à escritora, publicamos o artigo de homenagem que a coordenadora do Bloco escreveu aquando do seu falecimento. As palavras de Maria Velho da Costa em 1976 são o mote para olhar para a condição feminina num tempo de “pandemia e de medo”.
Maria Velho da Costa. Foto publicada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.
Maria Velho da Costa. Foto publicada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

«Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume.»

Começa assim o Cravo de Maria Velho da Costa, publicado em 1976. Escrevo este texto no dia seguinte à sua morte e é nele que encontro as palavras certas sobre as mulheres nestes tempos: «Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas da lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.»

Neste maio de 2020, maio de pandemia e de medo, elas lá estão. Elas estão na caixa do supermercado, elas estão nas cozinhas das cantinas, elas estão a limpar as cidades e os transportes e os hospitais, elas estão na cabeceira dos doentes, elas estão nos lares. Nos dias de emergência e em todos os outros dias, na linha da frente do risco, do cuidado, do país que não pára, elas lá estão.

Elas saíram das lojas nos shoppings a exigir que fechasse o que não podia estar aberto, quando para os patrões só valia o lucro. Elas fizeram greve para exigir equipamentos de proteção para limpar o metro, quando lhes coube velar pela segurança dos outros e se esqueceram da delas. Elas ficaram sem ver os filhos, fechadas com os utentes dos lares. Elas desdobraram-se em turnos sucessivos no hospital. Elas ganham o salário mínimo. Elas são precárias e sabem o que é perder o chão e o teto num instante.

Agora que o tempo é o do desconfinamento, agora que tudo tem de ser reconstruído, agora que todas as instâncias nos garantem que nada pode ser como antes, será agora que reconheceremos quem nos segura? Ouço a Capicua, na Mulher do Cacilheiro, «Enquanto a cidade acorda / Já elas estão na batalha há muito tempo».


Artigo publicado originalmente na Agenda de Maio do Chapitô, dedicada às Mulheres, a 24 de maio de 2020.

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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