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Manolo Monereo: “Queremos ganhar ao PP”

Amigo pessoal de Pablo Iglesias, que o reconhece como “pai político”, concorrerá como candidato pela coligação Unidos Podemos na província de Córdoba. Um lugar não isento de simbolismo por ser a terra de Julio Anguita, pessoa que menciona várias vezes durante a entrevista e destaca como exemplo.
Alberto Garzón, dirigente da Esquerda Unida (IU) e Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos.

A coligação eleitoral entre o Podemos e a Esquerda Unida (IU) despertou a ilusão entre muitos políticos. Representa esse sentimento levado à sua máxima potência. Deixa-o transparecer tanto nas suas palavras como nos seus gestos. Manuel Monereo (Jaén, 1950) tinha a convergência na cabeça desde o nascimento do Podemos. Ou, até antes.

Este ex-dirigente da IU e do PCE, mas ainda filiado no partido, defendeu a unidade acima de tudo. Algo que, reconhece, lhe causou muito sofrimento durante os últimos tempos.

Amigo pessoal de Pablo Iglesias, que o reconhece como “pai político”, concorrerá como candidato pela coligação Unidos Podemos na província de Córdoba. Um lugar não isento de simbolismo por ser a terra de Julio Anguita, pessoa que menciona várias vezes durante a entrevista e destaca como exemplo.

O politólogo e colaborador do cuartopoder.es aceitou dar uma entrevista a este meio de comunicação social numa cafetaria central de Madrid para analisar as próximas eleições de 26 de junho (26-J) e as relações entre o Podemos e a IU na atualidade e no futuro. 

O que o levou a ser candidato? A proposta surgiu de Iglesias?

Não é de agora. É uma proposta velha por parte da direção do Podemos, não só do Pablo. Por muitas razões éticas, estéticas e políticas achei sempre que nunca me deveria apresentar numa lista contra a IU. Sendo um dos fundadores da IU, considero que o projeto fundamental da IU, pelo qual lutei, é o Podemos. Portanto, a partir desse ponto de vista, o único que me parecia lógico era lutar pela unidade. Ser construtor de pontes num país de dinamitadores. Em muitas noites, durante as quais construíamos as pontes, existia sempre alguém que pela manhã as dinamitava.

Foi uma luta em vários lados entre construtores de pontes e dinamitadores. Felizmente ganharam os bons e fomos capazes de construir uma alternativa para as pessoas. Democrática, séria e popular. Capaz de se sintonizar com a maioria social. Isso era o importante e isso é para mim o central do anguitismo. Portanto, desse ponto de vista sinto-me muito satisfeito. Por um lado, porque o projeto avança e, por outro, porque posso contribuir para ele a partir da minha terra.

O que mudou para que esta unidade tenha sido possível agora e não o tenha sido antes do 20-D [eleições gerais de 20 de dezembro]?

As duas forças políticas mudaram. No seu seio, a sua hegemonia interna. Sobretudo os relatos internos que tinha foram mudando. Há um facto fundamental que, na minha opinião, tornou visível a necessidade da mudança. Foram estes últimos quatro meses, de negociação dura e ataques duríssimos contra o Podemos e a IU por parte do complexo mediático que apoiava o acordo PSOE-C’s.

Todos percebemos que, por um lado, os poderosos não nos podiam dividir. Por outro, que tínhamos muita identidade programática comum e que por último não podíamos ir a novas eleições e competir entre nós mas contra o adversário comum que as políticas neoliberais representam. Estes meses mudaram-nos a todos, a nossa forma de ver as coisas. Mas também de maneira positiva porque se demonstrou uma coisa muito importante, que este país já não é o que era. Estes quatro meses não destroçaram o Podemos e a IU. Hoje, já existe uma massa crítica que não aceita, por debaixo de nenhum conceito, este tipo de ataques e agressões contra forças democráticas, populares e de profundas raízes sociais.

Numa entrevista que lhe fizemos no ano passado assinalava que o Podemos devia fazer esforços para se entender com a IU e vice-versa. Já se entendem mutuamente?

Sim. Sobretudo porque apareceu um elemento que nunca se tem em conta. O geracional entre Pablo e Alberto Garzón, e posso dizer também entre Íñigo Errejón e Clara Alonso ou entre Juan Carlos Monedero e Antonio Maíllo. Há um conjunto de pessoas da mesma geração que provêm de tradições políticas diferentes e se deram conta com muita inteligência de que o país precisava de uma inovação radical. Isto vai para além das velhas esquerdas e do alinhamento esquerda-direita.

É muito importante para interpretar esta sociedade. O elemento geracional desta gente que entende a sintaxe dos movimentos, que se deu conta que as velhas fórmulas caducaram, acabou por se impor. À parte da sensatez, inteligência e de os inimigos ajudarem muito à união. Tudo isto tem que ver com debates que muitas vezes se interpretam mal entre a minha posição política e a de Errejón, por exemplo. São simplesmente manipulações dos meios de comunicação social do Grupo Prisa e que pretendem aprofundar diferenças que na verdade não existem. Podem existir outras, mas justamente as que existem não são as que lhes interessam.

Num recente artigo assinalava que o objetivo de alguns poderes mediáticos era demolir Iglesias assinalando as suas diferenças em relação a Errejón. Não existem então? O primeiro não é mais proclive à confluência com a IU do que o segundo?

A primeira coisa que impressiona quando se fala do Podemos é que não existem diferenças. Julgar o Podemos como uma força política não é sério e é destorcedor. O Podemos é um movimento complexo onde pessoas com diferentes tradições confluem. O Podemos é já uma confluência em si mesmo, é a sua vez de se juntar com outras forças políticas. E, conforme avançam, vão-se convertendo num gene mutante porque em cada eleição são um mundo diferente do anterior. Não é por não terem princípios nem ideias, mas simplesmente por serem o reflexo de um movimento social que busca uma identidade. Sobre o assunto das diferenças entre Pablo e Iñigo o que me preocupa é que não existam mais.

O Pablo e o Iñigo são dois biótipos políticos diferentes, na essência, como pessoas. Iñigo é um intelectual político. Pablo é um político intelectual. O primeiro é um homem de grandes intuições, de um discurso da política muito complexo e sofisticado. É um luxo para uma formação tê-lo porque vai para além do dia-a-dia. Pablo não, tem que fazer uma coisa muito difícil em política que é tomar decisões. Tem que as tomar como pode e nas condições em que pode. No Podemos há uma síntese entre diferentes experiências, linhas de investigação, inovação, etc. Mas é um luxo que tenha a pluralidade ou estilos diferentes de ver as coisas. Porque o que está claro é que o futuro não será gerido com centralismo autoritário como o que se pratica no PSOE até agora.

Manuel Monereo será cabeça de lista da coligação Unidos Podemos em Córdoba

Assinalou anteriormente que a proposta de ser candidato foi feita por toda a direção. Isto é, não lhe constou que tenham existido divergências nesta decisão?

Uma das primeiras pessoas que me felicitou foi o meu velho amigo Íñigo Errejón. É um velho amigo meu e que aprecio infinitamente. Nem sempre estou de acordo com o que diz mas para mim é um luxo estar com ele na mesma formação política. A mim incomoda-me muito esta loucura de ter que escolher entre o papá e a mamã. Podes estar completamente de acordo com o Pablo o que não significa ter que ser inimigo do Iñigo. Estou convencido de que entre ambos existem mais pontos de convergência do que divergência. Mas, não é só isso, o que também me apaixona é um mundo onde está Xosé Manuel Beiras, Yolanda Díaz, Mónica Oltra, Ada Colau, Xavi Domenech, Gerardo Pisarrello, Jaime Pastor, Teresa Rodríguez, etc. Este mundo é tão fantástico e emocionante que a única coisa que se nos pode pedir é que discutamos a sério, que sejamos democráticos e que tenhamos unidade na ação. O que aí vem é algo que vivo com paixão. Estar num sítio com tanta pluralidade, tantas cabeças interessantes.

Individualmente não somos nada mas todos juntos somos uma nova direção política no país. Isso é o que se está a preparar neste país. Eu venho de Anguita, é a minha tradição e da que me sinto orgulhoso. Mas venho também da de integrar todos os demais para fazer um caminho comum. É quase uma aventura sentimental o que estamos a fazer.

Na entrevista que Iglesias lhe fez no “La Tuerka” ele assinalou que tinha sido sempre muito leal com a IU e que muita gente tem outra visão. Como explica isto?

Porque estávamos juntos na IU para mudar a IU de Gaspar Llamazares por outra alternativa. Estas coisas parecem que são conspirações mas não o são. Estive sempre muito ligado a Enrique Santiago, que me parece um companheiro fantástico. Também a Alberto Garzón desde que chegou. E a Pablo desde que chegou e começou a trabalhar connosco. Todos dissemos após o 15M que, ou refundávamos a IU, ou ela se sumiria na história porque a sociedade tinha mudado e precisava de uma alternativa.

O Pablo esteve sempre presente nesses trabalhos para mudar a IU. Esteve muita gente que integrava projetos diversos que ele desmontou porque pensava que sem a IU não tinha possibilidades de fazer nada.

No entanto, no dia em que se apercebeu que a IU, num momento de renovação, dava um passo atrás e se repartiam os cargos públicos pensou que não havia nada a fazer e foi-se embora. Deixou-me de coração partido como pessoa e amigo. Mas a vida demonstrou que ele é que tinha razão nesse momento e não eu.

Sobretudo no ano passado existiu muita tensão verbal entre o Podemos e a IU. Isso ficou no passado? Existe militância que não sente especial simpatia por um ou outro partido?

Isso está aí. Pode dizer-se que criou feridas. Mas acho que vamos superá-las nestas eleições. Por isso é que é tão importante a figura de Anguita, porque nos reconcilia com a política. Pode-se olhá-lo como comunista ou militante de esquerda, mas sobretudo o Anguita que os jovens apreciam é o moralmente intransigente.

Ele fez o que denomino tecnicamente de uma insubordinação epistémica. O que conhecemos não é aquele tipo do Braveheart pelo qual o faziam passar em alguns programas de televisão onde aparecia como o último numantino ou comunista.

Esse Anguita existiu porque é uma pessoa que não se rende nunca quando o atacam, mas o Anguita que eu conheço é o que disse um dia: “Companheiros, venho para governar e não sou muleta de ninguém”. Essa é a insubordinação epistémica, isto é, romper com uma cultura política, a da Transição. Isto foi o que também me surpreendeu no Pablo.

Várias vezes apontou-lhes características comuns como a audácia e a personalidade forte.

Não se trata de reproduzir a história dos dois velhos comunistas que se reencontram. Não porque deixem de ser comunistas, em nada. Mas o Anguita de verdade é um inovador político. Existia um companheiro, Antonio Romero, que na sua época dizia que a IU era tecnologia de ponta.

A IU de Anguita foi assim, com inovação, mudança e transformação. Foi um senhor que em frente a tantos outros que acabariam na Nova Esquerda e depois no PSOE disse que sairíamos a ganhar e a governar. E com programa, programa, programa. O Pablo herda isto. O que digo é que o discípulo de Anguita não é o Pablo do Braveheart. É o que é igual ao Anguita que, nos anos 80, teve a capacidade de dizer que saía a ganhar e conquistar o Governo para mudar o país. Por isso é que Anguita se entende tão maravilhosamente com ele desde o primeiro dia.

E que opinião tem de Garzón? Na quarta-feira, quando se soube da sua candidatura de Córdoba, disse-me que estava entre os mundos de Iglesias, Anguita e Clara Alonso, mas não o mencionou.

Para mim é a demonstração de alguns dos meus erros. Quero-o reconhecer publicamente. Isto é, Alberto demonstrou, e o que me custa dizê-lo, que conhecia a IU melhor do que eu. E que a sua política de curta passagem mas contínua deu mais resultado do que o que eu dizia. Por tanto, tiro-lhe o chapéu. É um valor incalculável. Ter um marxista convicto e confesso ao lado, que por sua vez é também um grande economista, é uma bênção para o que estamos a viver.

A Clara Alonso é minha amiga desde sempre e nas condições mais difíceis. Não falei nunca bem dela para não a prejudicar. Não lhe dediquei artigos, por exemplo. Mas fez um trabalho tão extraordinário. Foi uma das mulheres mais capazes, inteligentes e com maior capacidade de consenso que conheci. Em todos estes meses que a imprensa da IU estava chateada comigo e a outra também, sempre manteve a nossa relação. Dizíamos que Córdoba nos ia salvar. O que eu não podia imaginar é que o meu destino ia estar também unido ao dela nessa cidade. Foi a guardiã de Alberto mas com uma característica finque num político que é dizer a verdade ao chefe.

Diz que a imprensa da IU o odeia e a outra também. As acusações de “traidor” ou “podemista”, que você mesmo já mencionou, afetaram-no pessoal ou politicamente?

Afetaram-me muito. Numa obra maravilhosa que se chama Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar conta que o pecado que em política nunca se perdoa é o de estar certo antes do tempo. Portanto, é um pecado inapagável sobre o qual não direi nada. Direi que lutei pela unidade e pela convergência. Que me causou muitos danos? Infinitos. Têm-me denegrido e dito de tudo, vindo de gente que não deveria vir.

O que sinto agora é uma enorme satisfação por poder corresponder aos homens e mulheres da IU em esforços conjuntos. Porque sou produto da IU. Reivindico-me da IU grande, da de Anguita que nos fez a todos sonhar. Agora o que me faz sonhar é Podemos-IU, Unidos para a Mudança, Unidos Podemos… A única coisa que posso dizer é que o que é passado fica no passado e que acertar antes do tempo é sempre um problema. Mas não importa, a vida continua e seremos felizes quando formos a primeira força política deste país.

Qual é o futuro de ambos os partidos após as eleições de 26 de junho? Continua a ser possível um partido orgânico que tantas vezes propôs?

Na minha opinião, deve-se caminhar em direção à convergência político-programática, à unidade na ação, ao trabalho comum e a procurar fórmulas de unidade mais profundas. Mas com o tempo que precisamos. Como dizia o meu velho maestro italiano Pietro Ingrao, que falava do arquipélago da esquerda. Há que ter em conta que o quer que seja que construamos deve ser federalizado. É como a ilha num arquipélago, temos que nos unir, criar pontes entre as ilhas. O que mais gostaria é que o partido orgânico se convertesse num partido institucional. Isso não aconteceu quase nunca. Há que trabalhar a pensar na maioria social, nas pessoas que querem a mudança e não nos partidarismos estreitos de cada um de nós.

Isso implica uma transformação total da IU ou do PCE? Uma mudança, uma dissolução?

Eu defendo a convergência total a partir da diversidade. Aqui ninguém deve ser impedido de mudar, independentemente da tradição de que venha. Muito pelo contrário. O que se nos deve pedir é que nos unamos a partir do que somos. Senão, a unidade não é nada. Mas, por sua vez, temos que ser autocríticos com o que somos porque a partir daí vamos praticar a mestiçagem.

A identidade tem que ser uma forma de ver a unidade. Sou partidário da mestiçagem e nisto coincido muito com Íñigo. Um intelectual político quase nunca é entendido, também me acontece algumas vezes. Isto de ter que praticar uma verdadeira insubordinação teórica une-me a esta ideia: que a identidade que construamos deve ser algo mais que a soma do que somos. É na direção em que vamos, uma grande força política, seguramente uma federação de organizações, seguramente com diferentes correntes e formas, mas unidos programaticamente e capazes de nos propor-nos a sério para governar o país.

É você o teórico do termo sorpasso [ultrapassagem], que tem sido muito utilizado ultimamente. Significa o mesmo que na época de Aguita? É transponível? 

O sorpasso é um termo polissémico. Em política tudo é polissémico. Sempre foi um meio, nunca foi um fim. Ou desbloqueávamos o bipartidarismo ou não existia alternativa de esquerda em Espanha. Isso foi o anguitismo. Uma alternativa de esquerda não pode acontecer enquanto tiver uma direita que é de direita e uma esquerda que não o é.

Em todas as eleições pediam-te o voto útil e conseguiam-no. Hoje, a sociedade mudou. As pessoas sabem que o PP, PSOE e C’s são o poder. Na Andaluzia todas as pessoas sabem que o PSOE é o regime. Outra coisa é que votem ou não e que pensem que mais vale o mal conhecido que o bem por conhecer. Hoje, a nossa ideia já não é superar o bipartidarismo. Esse sorpasso já passou, é velho. É o que escandaliza Susana Díaz. Agora vamos ganhar à direita do PP, queremos fazer um sorpasso diferente. Para isso o PSOE faz falta.

Mas o PSOE não parece com vontade de mudar para se aproximar do Podemos. O que precisa de mudar?

Que tenham condições para se regenerar. O meu amigo José Antonio Pérez Tapias é quem melhor o entende. Não existirá alternativa em Espanha sem uma regeneração socialista. Sem os socialistas não há mudança em Espanha, mas, para isso, Pedro Sánchez e Susana Díaz têm que ser derrotados.

Para o que é que poderá contribuir como mais que provável deputado no Congresso?

A primeira coisa é algo mais do que é ego, é voltar à minha terra. Sou um andaluz de Jaén mas vivi muitos anos em Granada e muitos em Sevilha. E vivo em Madrid com um imenso amor à cidade e ao Real Madrid, de verdade. Mas há algo fundamental que é voltar à minha terra, reencontrar-me com os meus. De facto irei viver para Córdoba, vou registar-me lá.

Tenho uma coisa fundamental porque vivi Córdoba nos olhos de Anguita. Fui um dos privilegiados deste mundo que conhece a cidade ensinada por ele. O que pretendo fazer é com que o partido institucional se pareça a cada vez mais com o partido orgânico. Quero a unidade, o Governo e sobretudo uma organização política que reflita a cidadania, os que não têm voz e que precisam de nós. Esse é o meu ego, o meu imenso ego, estar à altura da dignidade dos que sofrem, das vítimas da história, dos que são mortos. Como vês, tenho um propósito cristão na minha vida, sou ateu, cristão e comunista. Não está mau.

Tradução de Fabian Figueiredo para esquerda.net

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