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"Manifestação foi passo gigante na luta pelos direitos dos imigrantes"

Cerca de duas mil pessoas manifestaram-se este domingo em Lisboa para exigir alterações legislativas que permitam regularizar a sua situação em Portugal. Deputado José Manuel Pureza salientou que “o ódio xenófobo combate-se não cedendo em nenhum momento, combatendo-o pela raiz”.
Manifestação de imigrantes em Lisboa, 13 de novembro de 2016 - Foto de António Cotrim/Lusa

Em declarações ao esquerda.net, o Presidente da Associação Solidariedade Imigrante (ASI), Timóteo Macedo, manifestou a sua satisfação pelo elevado número de imigrantes e organizações que marcaram presença neste protesto tendo sublinhado que este facto é um “sinal de que estamos no bom caminho e a saber trabalhar com as pessoas”.

Aquele responsável qualificou como “ excecional” a solidariedade manifestada por várias associações que estão ao lado dos imigrantes na sua luta pela justiça que lhes é devida.

“A luta pela dignidade não tem fronteiras e por isso estão aqui hoje [domingo] homens e mulheres de diversas nacionalidades e oriundos de diversos pontos do país, nomeadamente do Algarve e Alentejo onde residem e trabalham porque foram ganhando consciência que independentemente do apoio que podem ter de outros quadrantes não podem ficar à espera que os seus problemas se resolvam por si", afirmou.

“Se não forem aqueles que são as primeiras vítimas da exploração e da exclusão social a exigir serem tratados com respeito, ninguém fará nada”, sublinhou o Presidente da ASI que faz ainda um balanço muito positivo quer das concentrações realizadas junto ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras(SEF), em Lisboa, quer da manifestação em frente à Assembleia da República que qualificou como “ histórica” uma vez que foi a primeira vez que centenas de imigrantes foram à sede do poder legislativo português exigir alterações à lei de imigração.

Para Timóteo Macedo a manifestação deste domingo foi um passo gigante na luta empreendida pelos emigrantes que não vão desistir nem baixar os braços enquanto lhe continuarem a negar direitos essenciais de cidadania.

Pureza: “ Europa tem de acordar para o ódio xenófobo que há dentro dela”

Presente na manifestação, o deputado José Manuel Pureza do Bloco de Esquerda declarou:

“Numa semana que ficou marcada pela eleição de Donald Trump, a Europa tem de acordar para o ódio xenófobo que há dentro dela. O ódio xenófobo combate-se não cedendo em nenhum momento, combatendo-o pela raiz.”

O deputado sublinhou que a manifestação de imigrantes representa esse combate, “a pretensão de que os direitos humanos das pessoas que procuram Portugal sejam plenamente respeitados, que não haja vidas hipotecadas pela decisão da administração que arbitrariamente não é concedida”.

Pureza lembrou que as pessoas esperam há um ano ou mais por um documento que lhes permita ter “uma vida legal em Portugal”. “Isso é absolutamente inaceitável num país que tantos discursos bonitos faz sobre os direitos humanos”, realçou.

“O Bloco apresentou uma proposta para alterar a lei e ela vai fazer caminho na Assembleia da República para que não mais situações como estas, de vidas suspensas e ilegais durante mais de um ano, se continuem a perpetrar em Portugal”, concluiu o deputado bloquista.

O futuro da nação”

Centenas de imigrantes manifestaram-se este domingo em Lisboa. Foto Solidareidade Imigrante
Centenas de imigrantes manifestaram-se este domingo em Lisboa. Foto Solidareidade Imigrante

O domingo corre tranquilo na cidade de Lisboa. O sol e a temperatura agradável convidam a um passeio pelas ruas quase desertas da capital do país que gasta as horas de um fim de semana que se encaminha para o seu final.

À porta do Centro Comercial da Mouraria o barulho mistura-se com centenas de pessoas que ensaiam as primeiras palavras de ordem e organizam-se para o desfile que há-de terminar no Ateneu Comercial de Lisboa onde decorreu a 10º edição do Festival Imigrarte.

Ajeitam-se as faixas onde se rejeita o trabalho escravo e se pedem direitos iguais para todos.

No meio da multidão não é difícil reparar numa criança de sorriso rasgado e um megafone entre as mãos por onde vai entoando as primeiras palavras de ordem que hão-de marcar todo o percurso da manifestação. Do pescoço pende-lhe um cartaz onde se pode ler: “O futuro da nação”.

Agita-se quando lhe perguntamos onde é que nasceu. Sem os receios naturais das crianças diz simplesmente que nasceu em Portugal, tal como os pais.

O Vasco, chama-se assim um dos protagonistas da iniciativa tem apenas oito anos e um sentido de solidariedade maior que o seu corpo franzino. Ao longo do percurso será dele a voz que muitas vezes se ouvirá na exigência de justiça e direitos para todos aqueles que residem e trabalham em Portugal. A solidariedade também se aprende e não tem idade para ganhar expressão pública.

A temperatura vai aquecendo e os passos daqueles que contornam agora o Martim Moniz são mais vigorosos tal como as exigências de onde nunca desaparece a palavra direitos.

Alguns vão mais longe porque sentem necessidade de dizer que são seres humanos e que afinal o nosso planeta é uma nação onde todos devem caber.

Sei o que isto é”

Ravel está na berma do passeio. Veio há cinco anos do Bangladesh e tem a sua situação regularizada. Espera trazer a família para Lisboa no próximo ano.

Apesar de já ter o seu problema resolvido, este cidadão não deixou de marcar presença porque tem ali amigos e conterrâneos e sabe o que é andar perdido nas malhas da burocracia.

“É muito difícil e não faz sentido aquilo que está a acontecer com os imigrantes”, afirma, acrescentando: “estou hoje aqui e estarei sempre que me for possível porque aquilo que se está a passar não faz sentido".

“Quero trazer a família”

A manifestação vai prosseguindo e na frente da mesma está Humayn Kabir que reside há seis anos em Portugal e ainda não tem documentos porque o SEF não lhe resolve a situação.

“Nós cumprimos tudo o que eles pedem e os documentos ficam para análise. É sempre essa a resposta que nos dão”, sublinha.

Kabir quer trazer a família para Portugal mas não o pode fazer e assim continua sozinho em Portugal. Tem um ar calmo mas diz sentir revolta porque tal como outros vive uma situação que não faz sentido.

Mais contundente, Rony, de 30 anos, afirma que os imigrantes não estão em Portugal para viver à custa de subsídios da Segurança Social mas para trabalhar.

E com voz nervosa faz um desafio: “ Não estamos cá para fazer mal a ninguém, vá às esquadras da polícia para saber quantos de nós é que andam a cometer crimes”, sugere este cidadão do Bangladesh.

À conversa no eléctrico

Chegados à Praça da Figueira, não cessam os gritos que clamam por justiça nem os telemóveis que se agitam freneticamente nas mãos daqueles que querem registar este momento como parte de um processo que acreditam os levará a serem considerados cidadãos de corpo inteiro.

Na emblemática praça de Lisboa, há quem se surpreenda com a manifestação e fique a olhar sem nada dizer.

Não é o caso de Maria das Dores, guarda-freio de um elétrico que está parado e fora de serviço. Lá dentro esta trabalhadora da Carris conversa animadamente com duas amigas sobre a vida.

“Somos vizinhas e quando podemos gastamos algum tempo a conversar”, afirma antes de baixar o tom de voz para perguntar o que se passa com tanta gente a gritar.

Após uma breve explicação adianta-se ao silêncio das amigas que se limitam a abanar a cabeça em sinal de concordância para exclamar: ”Ai este mundo onde há tanta desgraça. Esta é gente de trabalho, meu senhor, eu moro perto daqui e vejo-os sempre a trabalhar".

“Agora não os querem cá, é isso?”, pergunta para exclamar depois que “ o governo ou lá o que é devia olhar por isto. É gente simples, honesta e trabalhadora. Eu não percebo nada de política mas estou com eles. Escreva aí”.

As amigas de conversa de fim de tarde do elétrico concordam em silêncio mas Maria das Dores gosta de falar e antes de se despedir ainda arrisca uma pergunta: “Então aquele maluco lá da América é que é agora o Presidente...isso pode ser mau, não acha?”

Refira-se ainda que alguns elementos de extrema-direita ligados ao Partido Nacional Renovador (PNR) tentaram perturbar a manifestação o que levou as forças polícias a fazer uma detenção.

Texto de Pedro Ferreira

 

Manifestação de imigrantes em Lisboa | ESQUERDA.NET

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