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Malta: investigação do assassinato de jornalista dos Panama Papers atinge governo

A jornalista Caruana Galizia foi assassinada em outubro de 2017 em Malta. Investigava o envolvimento do governo no escândalo dos Panama Papers. Esta terça-feira a investigação do crime chegou ao topo do governo. Dois ministros e o chefe de gabinete do Primeiro-Ministro demitiram-se. Este último foi já preso.
Manifestantes à porta do Parlamento exigem demissão do governo com um cartaz com a cara da jornalista Daphne Caruana Galizia, assassinada em 2017.
Manifestantes à porta do Parlamento exigem demissão do governo com um cartaz com a cara da jornalista Daphne Caruana Galizia, assassinada em 2017. Foto de LUSA/EPA/DOMENIC AQUILINA.

Outubro de 2017. A jornalista de investigação Caruana Galizia é assassinada através de uma bomba colocada no seu carro. Fazia parte do consórcio internacional de jornalistas que investigava o escândalo dos Panama Papers e denunciava corrupção nos altos escalões do governo maltês.

Novembro de 2019. Dois anos depois, a investigação do crime faz baixas ao mais ao alto nível governamental. O ministro do Turismo, Konrad Mizzi, o ministro da Economia, Chris Cardona e o chefe de gabinete do Primeiro-Ministro Joseph Muscat, Keith Schembri, viram o seu nome envolvido na investigação e acabaram por se demitir.

A semana passada tinha sido a vez de Yorgen Fenech, empresário e gestor da empresa da sua família, o Tumas Group, que opera no ramo imobiliário e hoteleiro, ter sido detido no âmbito do mesmo caso enquanto tentava fugir do país no seu iate. Antes de ser morta, Galizia tinha denunciado que uma das empresas que estava em nome dele, a 17 Black Ltd, listada nos Panama Papers, estava ligada afinal políticos influentes do país. No âmbito do mesmo caso, revelara a existência de documentos que provavam que a mulher do Primeiro-Ministro maltês era beneficiária de um offshore no Panamá e que houve transações elevadas de dinheiro, envolvendo contas bancárias no Azerbaijão.

A polícia chegou ao seu nome através de Melvin Theuma que está acusado de ser o intermediário do assassinato, ao qual foi dada imunidade dos crimes cometidos e que terá alegadamente entregue gravações de áudio incriminatórias. Testemunhará na próxima sexta-feira.

Os acusados recusaram publicamente qualquer ligação ao crime. O ex-ministro da Economia, Chris Cardona disse à imprensa que “não tem absolutamente nenhuma ligação ao caso” e que se demitia apenas devido ao “interesse nacional”, na sequência de ter sido notificado para ir prestar declarações à polícia. O mesmo invocou o ex-ministro do Turismo.

Já Schembri, um amigo muito próximo do chefe de governo, não pode, neste momento, alegar que não esteja envolvido. Foi preso e está a ser interrogado pela polícia. Tal como o foi o médico de Fenech, acusado de estar a fazer a ligação entre este e Schembri. Uma ligação que não terá corrido da melhor forma porque as informações mais recentes dão conta que o empresário pretende igualmente pedir imunidade de forma a providenciar provas sobre aquele.

Estes não são os primeiros a serem detido neste caso. Logo em dezembro de 2017 três pessoas foram presas sob suspeita de serem autores materiais do crime. O seu julgamento ainda não se iniciou. Os mandantes estavam, até agora, por identificar.

As ligações próximas de todos estes políticos ao Primeiro-Ministro levaram a oposição a pedir a queda do governo. A discussão acesa no parlamento quase chegou a vias de facto, com dois deputados da área governamental a terem de ser agarrados para não agredir os parlamentares da oposição que troçavam deles. As sessões foram suspensas.

Fora do Parlamento os ânimos também estavam exaltados com manifestantes a atirar ovos, cenouras e moedas à passagem do automóvel do Primeiro-Ministro.

O Partido trabalhista continua, apesar dos fortes protestos, a depositar um voto de confiança em Muscat. O Primeiro-Ministro obteve um voto de confiança unânime no Comité Executivo do partido, tal como tinha acontecido antes numa votação dos deputados trabalhistas.

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