Mal pagos e pressionados pelos patrões: o retrato dos jornalistas em Portugal

15 de December 2016 - 11:53

A maior parte dos jornalistas em Portugal recebe salários inferiores a mil euros brutos e só metade tem contrato sem termo. Mais de metade diz ser alvo de pressões da administração.

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Jornalistas
Foto União Europeia ©

Os resultados do inquérito a 806  jornalistas fazem parte do trabalho de João Miranda, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, que é apresentado esta quinta-feira e foi revelado pelo jornal Público. Segundo o Sindicato dos Jornalistas, existem cerca de sete mil repórteres no país.

56.3% dos inquiridos neste trabalho diz ganhar ao fim do mês menos de 1000 euros brutos, um dado que o investigador diz ser “preocupante”. A juntar-se aos cada vez mais baixos salários praticados no jornalismo português, a precarização também dita a lei no sector, com apenas metade dos inquiridos a declararem trabalhar com contrato sem termo. O recurso a recibos verdes é usado em cerca de um quinto dos vínculos.

Mas estes dados podem esconder uma realidade ainda mais grave, disse ao Público a presidente  do Sindicato dos Jornalistas. Sofia Branco diz que há um outro inquérito encomendado para lançar no próximo Congresso dos Jornalistas, que obteve mais de 1400 respostas, e que indica que a percentagem de jornalistas a ganhar menos de mil euros e a trabalhar em regime de precariedade ainda é superior à do inquérito realizado por João Miranda.

Maioria admite que situação laboral põe em causa deontologia

Este investigador adianta ainda que 54.9% dos inquiridos admite que a sua situação laboral afeta o desempenho do trabalho e 28.9% diz mesmo que afeta o cumprimento da ética e deontologia no exercício da profissão. “Estamos a falar de um quarto da profissão a concordar com essa ideia. Não deixa de ser preocupante”, diz João Miranda.

No que diz respeito às pressões sofridas pelos jornalistas por parte da administração e da direção editorial, o inquérito conclui que são uma prática generalizada nas redações. 57% dos inquiridos revela já ter sentido essa pressão por parte da administração da empresa para a qual trabalha e uma percentagem idêntica (56.9%) admite pressões vindas da direção editorial. Quanto a pressões externas, 41.7% diz já as ter sentido.

Também no caso das pressões, a presidente do Sindicato dos Jornalistas diz que a realidade ainda é mais grave, de acordo com os dados do inquérito a lançar em janeiro. Aliás, Sofia Branco diz não acreditar “que haja um jornalista em Portugal que nunca tenha sido pressionado”, uma situação que evoluiu com os tempos, na medida em que hoje em dia as direções “são braços da administração e isso mudou tudo dentro de uma redação e tornou-a muito mais vulnerável a pressões”.

Num sector marcado pela forte precariedade, o abandono da profissão é também uma realidade cada vez mais presente. A maior parte dos jornalistas está há menos de 25 anos na profissão, o que faz dela "uma profissão muito jovem, que é abandonada relativamente cedo", confirma João Miranda.