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Lynnee Breedlove: "Antes a morte que usar vestidos!"

Conversa do esquerda.net com o artista queer e trans Lynnee Breedlove, sobre a situação política nos Estados Unidos, consequências da presidência de Trump para as liberdades individuais de minorias e como as resistências se estão a organizar. Por Joana Louçã.
Lynnee Breedlove durante a leitura de textos no mob - espaço associativo, em Lisboa.
Lynnee Breedlove durante a leitura de textos no mob - espaço associativo, em Lisboa.

Esta reportagem está incluída no programa Mais Esquerda (que pode ser visto na íntegra aqui), que inclui uma reportagem sobre a Associação de Apoio às Vítimas do Surto de Legionella em Vila Franca de Xira, que vai processar o Estado (pode ser vista aqui). O programa inclui ainda uma reportagem sobre a antiga Escola Veiga Beirão, que sofreu obras de centenas de milhares de euros pela Parque Escolar, mas está vazia desde então, e o Ministério da Educação quer transferir para o domínio privado do Estado, apesar da escola pública da zona ter péssimas infraestruturas (disponível aqui).

Lynnee Breedlove é músico, escritor, performer e ativista trans. Esteve em Lisboa numa conversa e leitura de textos no mob - espaço associativo, onde falou com o Mais Esquerda sobre a atual situação política nos Estados Unidos.

"Os muçulmanos que nasceram nos Estados Unidos já estão preocupados com a sua segurança, e se estão no estrangeiro já estão preocupados se os deixarão voltar a entrar no país. Para não falar em todos os cidadãos naturalizados que lá vivem há muito tempo e que de repente pensam que os seus locais de oração serão destruídos e eles vão ser presos e expulsos, é terrível", afirma Lynnee. "As pessoas trans, ou pessoas homossexuais assumidas estão a ser ameaçadas com “reeducação”, “vamos voltar a treinar-vos para serem hetero e cis”, e isso é um pouco preocupante para mim. Digo sempre antes a morte que usar vestidos! Podemos brincar um pouco com isso agora, mas é a sério, as pessoas também se riram do Hitler. Os meus avós também se riram do Hitler, diziam “aquele idiota, não vai a lado nenhum” e de repente ele tinha ido a algum lado e eles já não podiam dizer nada".

"Pessoas que antes teriam ficado caladas porque foram vergonhadas por serem racistas, achavam que o racismo é algo de que ter vergonha, agora já não acham é porque é aprovado pelo governo, estão a ser encorajadas. E sentem-se à vontade para espancar pessoas, queimar igrejas e disparar contra pessoas e explodir com coisas, é assustador", descreve.

Assim que foi divulgada a proibição de viagens de pessoas oriundas de países de maioria muçulmana, Lynnee recorda como a reação de resistência foi massiva em São Francisco. "Assim que soubemos disso nas redes sociais saltámos para dentro de carros e corremos para os aeroportos e ficámos lá durante dois dias com cartazes e a gritar e finalmente soltaram toda a gente que estavam a deter e nós não iríamos sair enquanto não o fizessem, fechámos todo o aeroporto".

Em várias frentes, a resistência contra Donald Trump organiza-se. "Estão a acontecer mutias manifestações improvisadas. Outras coisas que estão a acontecer foram, claro, a Marcha das Mulheres, que aconteceu em Washington DC, mas também em muitas outras cidades, em São Francisco havia tanta gente, deviam lá estar provavelmente meio milhão de pessoas e os homens que acompanhavam as mulheres tinham pancadas que diziam “mantém as tuas leis longe do corpo delas” e muitas coisas que demonstravam apoio e eram inteligentes. Nos anos 60, quando as mulheres exigiam a pílula, os homens diziam “sim, isso significa que nunca mais tens uma desculpa para me dizeres que não, por isso eu vou ter mais sexo, viva a pílula!”. Esse era o tipo de apoio que costumavam dar às mulheres sobre os seus direitos e agora parece que, quarenta anos depois, as coisas melhoraram".

Esta pressão popular que se gera em torno das decisões de Trump poderá, segundo Lynnee, limitar as suas ações. "Acho que vai ser mais difícil para ele agir como se tivesse o mandato das pessoas e que pode fazer tudo aquilo que quer. Neste sistema de pesos e contrapesos também há, neste momento, juízes, oficiais eleitos, membros do Congresso que estão a olhar para aquilo que as pessoas querem e onde está a sociedade neste momento e quais são os valores desta sociedade e tomam as suas decisões como porta vozes da população".

No entanto, durante o seu mandato, Trump poderá nomear vários juízes para cargos fundamentais como no Supremo Tribunal, que poderão ter de tomar decisões muito importantes. "O que é assustador é que parece que o governo quer nomear o máximo número de pessoas que podem. No Supremo Tribunal há muitas posições que vão abrir, e Trump vai nomear alguém jovem de direita que pode aprovar leis más durante os próximos 40 ou 50 anos, isso é assustador", afimra Lynnee. No entanto, neste sistema "muitas vezes o que acontece é que Presidentes de direita, como o Reagan ou os Bush, nomearam juízes que acharam que iriam sempre seguir a “linha justa”, com quem poderiam contar em decisões de direita, mas na verdade quando se nomeia alguém para o Supremo Tribunal, muitas vezes eles decidem realmente baseando-se numa análise real do que a intenção original da Constituição era. Não sei se é por pressão de pares dos outros juízes, ou porquê, mas muitas vezes quando nomeiam um juiz de direita, ou que pensam que vai ser de direita, ele toma decisões justas".

Lynnee fundou a banda Tribe 8 e é autor dos livros “Godspeed” e “One Freak Show”. Está a fazer uma tour europeia e a sua vinda a Lisboa foi organizada por um grupo de ativistas para quem é uma referência incontornável. "Esta é a minha primeira tour europeia, estive primeiro em Berlim, amanhã vou para Lyon e depois disso Paris, onde vou estar com a minha linda miúda. Vai ser romântico, dois dias em Paris na Primavera e depois voo para Berlim onde vou ter um espetáculo num festival de Punk Rock Anarquista".

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Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
Termos relacionados Cultura
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