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Luísa Schmidt: "Não podemos ter sol na eira e petróleo no nabal"

Entrevista à socióloga e investigadora sobre a atribuição de concessões de exploração de petróleo e gás em Portugal e o movimento Futuro Limpo.
Luísa Schimidt em entrevista pelo esquerda.net.

esquerda.net entrevistou Luísa Schmidt, Socióloga no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sobre a atribuição de concessões de exploração de petróleo e gás em Portugal e o Movimento Futuro Limpo, do qual faz parte. A investigadora é também membro do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e do European Environment Advisory Council.

No contexto das alterações climáticas, como interpreta a atribuição de concessões de exploração de petróleo e de gás em Portugal?

Acho uma contradição, uma vez que Portugal assinou o tratado de Paris, tem-se empenhado em reduzir as suas emissões de gases com efeito estufa, conseguiu até cumprir o protocolo de Quioto. Bem sabemos que, muitas vezes não terá sido por muito boas razões, uma vez que foi a crise económica que levou também a reduzir as emissões, mas não só por isso, também pela aposta nas energias renováveis. 

Por isso, considero que é uma decisão que vai em contra-ciclo a tudo o que o próprio mundo está a decidir. Com todas as dificuldades que sabemos que isso implica, mas, neste momento, a tendência é nas sociedades de baixo carbono, sair do paradigma do carbono. Ora, Portugal estar a iniciar algo que, no fundo, é uma política energética do século XIX, é um anacronismo e, efetivamente, já estamos um bocadinho cansados dos contra-ciclos em que Portugal entra atrás, sempre no fim, sem aproveitar aquilo que tem de bom como, por exemplo, foi, e é, a decisão de investir nas energias renováveis e de ser um exemplo a esse nível.

Acha que é possível travar a exploração de petróleo e do gás em Portugal? Como?

Acho que é sempre possível, desde que a sociedade civil se empenhe verdadeiramente no assunto, tenhamos apoio jurídico e fundamentação jurídica, e se crie um grande movimento viral em Portugal contra este tipo de medidas de crescimento que a maior parte das pessoas não quer. 

Fizemos um inquérito recente, que revelou que as pessoas acham que Portugal deve investir na educação e formação e nas energias renováveis, o que é um dado bastante interessante. Nunca foi discutido, nem nunca foi debatido com a população em geral, o modelo que queremos para o país, e isso tem de ser feito. 

Não há uma visão estratégica, no fundo, não há, há vários planos, uns em contradição com outros, mas a população não sido, as pessoas não têm sido envolvidas no modelo que querem, e na visão estratégica que querem para Portugal. É uma boa altura de o fazer, e de o fazer a pretexto deste assunto: queremos nós enveredar por este caminho que é contraditório com outro tipo de economia? 

Não podemos ter sol na eira e petróleo no nabal. Não podemos conciliar tudo o que tem a ver com turismo, um turismo sustentável, com os parques naturais, que são uma riqueza em termos biológicos, e que podem ser aproveitados de uma maneira completamente diferente. Não podemos conciliar isso com esta atividade que é contraditória, não se pode ter as duas coisas! Ou se vai por um caminho, ou se vai por outro. 

Se as pessoas estiverem realmente empenhadas e envolvidas, souberem que é um erro estratégico o país enveredar agora, tarde e a más horas, por este caminho, e ao mesmo tempo tiverem outras alternativas em vista, porque há, então podemos escolher outro caminho que na mesma traga prosperidade e bem estar ao país. Penso que isso podia ter uma importância muito grande. 

Além do mais, do ponto de vista económico, que é a algo a que os portugueses estão muito sensíveis, não nos traz praticamente vantagem nenhuma, são contratos feitos de uma maneira economicamente desastrosa, em que o país terá alguma coisa a haver daqui por mais de 10-15 anos, e com percentagens ínfimas por barril. Se houver exploração de petróleo, o país vai beneficiar muito pouco, as contas estão feitas, é muito pouco dinheiro a entrar, quando comparamos com o impacto extremamente negativo que pode ter sobre outras atividades económicas e sobre o nosso bem estar em geral.

O que é o movimento Futuro Limpo, como surgiu e de que forma se estão a relacionar com os outros movimento?

O movimento Futuro Limpo é um movimento agregador que surgiu através de um conjunto de pessoas que se juntaram, preocupadas com o assunto. Pessoas da área científica, da diversidade, da cultura, é muito transversal à sociedade. A ideia é agregar o maior número de pessoas que estejam contra este tipo de futuro para o país, para discutir o futuro que nós queremos e o que não queremos.

O movimento Futuro Limpo não tem nenhuma obrigação, é feito pelas pessoas preocupadas com este tema, que querem realmente que o país enverede por outro caminho, sendo que a ideia é juntar os movimento todos, que estavam um pouco dispersos, para trabalhar em rede. A ideia é juntar o maior número de pessoas ser transversal à sociedade, e, no fundo, conseguir que a sociedade portuguesa, na sua diversidade, diga que não quer este tipo de futuro, quer outro tipo de futuro mais limpo. A nossa ideia não é só dizer não à exploração de hidrocarbonetos, é dizer também que há outro futuro mais limpo que o país pode seguir e que pode também trazer prosperidade e bem estar às pessoas.

Quais são as reivindicações do movimento Futuro Limpo?

A reivindicação central é a questão dos hidrocarbonetos, foi o que nos juntou a todos e por isso é que temos pessoas muito diversificadas a assinar o manifesto que fizemos, que apanha a sociedade da esquerda à direita, de diversas profissões, universidades, da cultura, das artes, da ciência, enfim, da política. A ideia é que este movimento é para nos opormos a esta ideia que Portugal vai apostar nos hidrocarbonetos e, ao mesmo tempo, discutirmos o que queremos, é preciso criar sempre alternativas e elas existem, sejam as renováveis, a reabilitação urbana com eficiência energética, a mobilidade sustentável... Há muitos caminhos pelos quais podemos entrar e progredir sem ser este, que vai impedir outros. Nós queremos discutir também o futuro que queremos; o futuro que queremos e o futuro que não queremos.

A entrevista a Luísa Schmidt foi feita numa reportagem para o programa Mais Esquerda, que pode ser visto aqui (e na íntegra aqui). A versão completa da reportagem por ser vista aqui ou lida aqui e os comentários de Sónia Balacó, atriz e poeta e de João Camargo, investigador e ativista, podem ser lidos aqui.

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