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Luís Fazenda na Catalunha: relato de um observador

Luis Fazenda escreve a partir da Catalunha, onde acompanha o referendo 1-O como observador convidado pela Generalitat. "A luta é constantemente declarada como pacífica apesar da repressão estar coberta por um nome de código espantoso: Anúbis, o deus dos mortos no Egito Antigo".
"No comício (proibido) que encerrou a campanha podia ler-se em dois cartazes gigantes os apelos ao Sim. "Por um País Novo, Pela República". Foto do Twitter de @M_AndersonSF
"No comício (proibido) que encerrou a campanha podia ler-se em dois cartazes gigantes os apelos ao Sim. "Por um País Novo, Pela República". Foto do Twitter de @M_AndersonSF

A situação em Barcelona é completamente tranquila. Não se diria que estamos a menos de 24 horas de uma convulsão política que traduz o referendo à autodeterminação. 

No comício (proibido) que encerrou a campanha podia ler-se em dois cartazes gigantes os apelos ao Sim. "Por um País Novo, Pela República". Cerca de cem mil pessoas ouviram 6 partidos, um dos quais para defender a democracia contra a repressão apesar de serem pelo não à independência. 

Vi tratoradas, colunas de tratores engalanados vindos das aldeias e desfilando pelas artérias da cidade. Assisti a uma manifestação estudantil impressionante pela República Catalã, celebrando a greve geral das escolas. Ninguém consegue deixar de ver que há uma transbordante onda independentista. 

As autoridades espanholas ameaçam com multas até 300 mil euros (!!) a quem participe nas mesas de voto, cerca de 6 mil pessoas em mais de 2 mil secções de voto. Impuseram o fecho do site com instruções práticas sobre o ato referendário, depois de terem desativado mais de 40 sites supostos de serem pró-referendo, incluindo sites oficiais do governo catalão. A chantagem de penas de prisão impende sobre alguns milhares de pessoas sob o pretexto mais paradoxal: traição à pátria (deles). 

estudantes catalães protegem secções de voto na Catalunha, via Twitter de @maqui_tuits
Estudantes catalães protegem secções de voto durante a noite, via Twitter de @maqui_tuits

A pressão sobre a polícia catalã é completa. Apesar de haver 10 mil membros de forças deslocadas de Espanha (consideradas forças de ocupação) o governo central ameaça os Mossos de Esquadra se não encerrarem todas as secções de voto. Este jogo de empurra leva a que o responsável dos Mossos dê a ordem de atuar mas sem violência (?). 

É aqui, por esta fresta que podem passar milhões de votantes. Escolas e outros centros, onde funcionam mesas estão ocupados dia e noite pelas famílias dos seus alunos para impedir a entrada dos Mossos ou da Guardia Civil. 

A luta é constantemente declarada como pacífica apesar da repressão estar coberta por um nome de código espantoso: Anúbis, o deus dos mortos no Egito Antigo. Às 6 da manhã de domingo, hora marcada para bloquear os locais de sufrágio, saberemos como vai evoluir a democracia catalã e o caduco regime de 78 do Reino de Espanha.

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