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Lóbi dos pesticidas aproveita crise alimentar para bloquear regulação climática

O consórcio internacional de jornalistas Investigate Europe lançou uma investigação sobre o negócio dos pesticidas e como este lóbi tem atuado junto da União Europeia para mitigar a legislação, utilizando o atual cenário como vantagem.
Foto Nicolas Duprey / CD 78 / Département des Yvelines / Flickr

Os últimos meses têm sido marcados por um crescente receio de uma crise alimentar generalizada. A Rússia e a Ucrânia são responsáveis por uma parte significativa das exportações de matéria-prima alimentar. Cerca de 50 países dependem em pelo menos 30% das suas importações de trigo. Com a guerra, essas exportações ficaram parcialmente comprometidas, com parte da produção a ficar retida nos portos ucranianos, por exemplo. Vários países exportadores implementaram medidas protecionistas, como a proibição de exportações, encarecendo e dificultando o acesso alimentar. 

Recentemente, a 22 de junho, a Comissão Europeia apresentou uma proposta legislativa para reduzir em 50% a utilização de pesticidas até 2030 referida como SUR (do inglês Sustainable use of pesticide regulation).  

O consórcio internacional de jornalistas Investigate Europe lançou uma investigação sobre o negócio dos pesticidas e como este lóbi tem atuado junto da União Europeia para mitigar a legislação, utilizando o atual cenário como vantagem.

O mercado dos pesticidas tem aumentado nos últimos 20 anos

Nos últimos 20 anos, o mercado internacional de pesticidas agrícolas duplicou de forma a valorizar 52 mil milhões de euros em 2019. Nesse mesmo ano, as vendas na Europa representavam 12 mil milhões de euros. 

A opinião dos agricultores divide-se. Muitos aumentaram a sua utilização para garantir a rentabilidade das suas produções de forma a tentar acompanhar os preços do setor e aceder a subsídios agrícolas da UE, essencialmente desenhados para produção massiva. No entanto, também reconhecem as consequências negativas da sua utilização no desgaste da terra. 

Por um lado, afetam os insetos no solo, pássaros e peixes, e ameaçam a capacidade de polinização dos animais, o que torna, segundo a comunidade científica, a agricultura mais vulnerável à crise climática. Por outro, a agricultura intensiva é uma das principais fontes de emissões poluentes, contabilizando um terço das emissões globais.  

O mercado agroquímico é caracterizado por uma grande concentração. Quatro empresas - Syngenta, Bayer Crop Science, Corteva e BASF - são detentoras de mais de dois terços do mercado global de pesticidas e cerca de 60% do mercado de sementes agrícolas. Juntas contabilizavam em 2020 um volume de negócios de 40 mil milhões de euros.

Estas empresas uniram-se no grupo de lóbi “Crop Life” e são apoiadas pela organização europeia de agricultores Copa-Cogeca. Juntas têm uma uma forte capacidade de influência e dedicam um orçamento de 10 milhões de euros a lóbi para mitigar a regulação da utilização de pesticidas. 

A segurança alimentar europeia não parece estar dependente de pesticidas

A questão que se impõe é se são necessários pesticidas de forma a garantir uma produção alimentar estável e segura, especialmente no contexto da invasão da Ucrânia. Apesar de o setor dos pesticidas ter insistido na sua maior necessidade no momento atual, nenhum país da UE é altamente dependente de trigo ucraniano ou russo. 

As visões sobre a implicação da redução dos pesticidas são divergentes, não havendo um consenso. Alguns estudos estimam que entre 10% a 20% da rentabilidade da produção agrícola ficaria comprometida com a redução proposta pela UE. Deve, no entanto, sublinhar-se que estes também são muitas vezes financiados pela própria indústria, não estando isentos de interesses. Outras investigações avançam que a capacidade da terra para plantações ou gado já está perto do seu limite e a utilização de pesticidas pioraria a sua resistência, degradando no longo prazo a segurança alimentar. 

Por outro lado, de acordo com Dave Goulson da Universidade de Sussex, “produzimos cerca de três vezes mais calorias do que precisamos para alimentar todos. No entanto, cerca de um terço dessa comida é desperdiçada e um terço é dado aos animais”. O que está em causa e merece ser discutido são padrões de consumo, o sistema de preços e a distribuição, não tanto o aumento da capacidade produtiva.

Na mesma linha, a WWF publicou em maio um relatório em que discute as escolhas de produção e consumo agrícola a nível europeu e levanta questões importantes.  

Primeiro, em termos económicos, a UE é o maior exportador mundial de produtos agroalimentares e o terceiro maior importador, registando um excedente comercial de 62 mil milhões de euros. No entanto, em termos de proteínas e calorias apresenta um défice, dependendo em cerca de 11% de importações o consumo de calorias e em 26% de proteínas. 

O modelo europeu baseia-se na transformação de matéria-prima importada para produzir bens alimentícios de valor acrescentado, mas que não contribuem para a segurança alimentar ou nutricional. Por exemplo, vinhos e bebidas espirituosas são das principais exportações da UE. 

Segundo, são produzidos mais produtos animais do que consumimos e o valor médio de consumo destes é acima do recomendado por autoridades de saúde. Para garantir esta produção excessiva, estimativas oficiais avançam que o gado é alimentado com cerca de metade das plantações de grãos.  

Terceiro, muita da comida produzida é desperdiçada - cerca de 173 kg anualmente por pessoa. Para além do desperdício no retalho e ao nível do consumidor, também se verifica no próprio momento de produção. A WWF estima que 1,2 mil milhões de toneladas de comida para consumo humano é perdido pouco depois da colheita todos os anos, o que equivale a 15% do total da produção. Isto deve-se a falta de capacidade de investimento dos agricultores para adquirir novo equipamento e melhorar as técnicas necessárias, ou, por levar a produção até ao fim deixar de ser viável economicamente por preços de venda baixos. 

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