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Lóbi da caça apresenta queixa contra veterinária da SOS Animal

Fencaça e Associação Nacional de Produtores Rurais não gostaram dos vídeos sobre o resgate do porquinho Tomás. Consideram que as declarações de Sandra Cardoso são de “desrespeito” pelos caçadores. SOS Animal garante que não se deixa intimidar por quem tem “como desporto assassinar animais”.
A veterinária da SOS Animal, Sandra Cardoso, e o porquinho Tomás. Foto publicada na página de facebook de Sandra Cardoso.

O porquinho “Tomás” foi resgatado de uma zona de caça da margem Sul do Tejo, em outubro. Apresentava ferimentos junto a um dos olhos e numa das patas, tendo sido tratado pela médica veterinária Sandra Cardoso, fundadora e presidente da direção da SOS Animal, e apadrinhado pela atriz Jessica Athayde. Atualmente, com somente três meses de idade e 13 quilos de peso, encontra-se a salvo num santuário para animais.

Já Sandra Cardoso está a ser alvo de um processo disciplinar, em fase de instrução no Conselho Profissional e Deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários (CPD/OMV), na sequência de uma carta de repúdio enviada em outubro pela Fencaça e pela Associação Nacional de Produtores Rurais (ANPC) à Ordem dos Médicos Veterinários.

Na missiva, citada pelo Expresso, a Fencaça e a ANPC defendem que “as declarações [da veterinária] são de claro desrespeito pela comunidade de caçadores e gestores de caça, em particular” e que “causaram desprestígio à profissão de médico veterinário, por atacar de forma deliberada um coletivo de cidadãos que praticam uma atividade legal, e por forjar toda uma história, para prosseguir os fins de atacar essa comunidade”.

As duas organizações atacam Sandra Cardoso por ter referido no primeiro vídeo pensar tratar-se de uma cria de javali e de ter referido que “o procedimento normal dos caçadores … é matam as mães ou os pais… e normalmente a ninhada… e nós acreditamos que o Tomás conseguiu fugir até porque lhe falta uma unha que parece-nos que pode ter sido uma espingarda”. O lóbi da caça fala em “erros inadmissíveis” e em “aproveitamento mediático com um claro ataque à comunidade dos caçadores”. E avançam que se trata de “uma campanha de angariação de fundos associada a essa manobra mediática” e que “colocou assim os seus interesses pessoais à frente dos princípios deontológicos. Exigem “uma retratação e um pedido de desculpas público aos caçadores portugueses”.

A SOS Animal reitera que, à semelhança do que aconteceu aquando da “anterior tentativa da ANPC e de outras entidades que atuam com ferramentas dignas de estados totalitários”, não deixará de cumprir a sua missão - “defender todos os animais -, em virtude de campanhas de intimidação e manobras vazias e ridículas de limitação de exercício de funções e ou profissional”.

A organização não governamental do Ambiente (ONGA) dá ainda conhecimento das ameaças recebidas contra a instituição, a sua presidente, Sandra Duarte Cardoso, e a atriz e embaixadora da SOS Animal, Jessica Athayde, que “estão devidamente guardadas para utilização em sede própria”.

“Para além de mensagens de ódio com linguagem inaceitável numa sociedade cívica, que se rege pelo estado de direito, fomos vítimas de difamação, insultos, ameaças graves à integridade material da nossa organização e, recebemos ainda, ameaças diretas de violência inarrável à integridade física da presidente e da Jessica Athayde, bem como às suas respetivas famílias”, lê-se no comunicado divulgado a 22 de outubro.

A SOS Animal garante que, ao contrário do que é alegado na carta do lóbi da caça, “não houve qualquer violação do código deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários. Não havendo da mesma forma qualquer matéria de facto que possa prejudicar ou limitar a atividade médico-veterinária da médica em questão, nem como qualquer matéria que possa prejudicar a organização ou a sua direção”.

A ONGA esclarece também que “a identificação preliminar do animal, com base fenotípica, teve em conta, as características apresentadas pelo indivíduo, sejam elas morfológicas, fisiológicas e comportamentais e o ambiente e condições onde foi recolhido, não tendo sido feito à data qualquer avaliação de genótipo uma vez que este tem que ser aferido através da observação do fenótipo, da análise dos progenitores, ou outros parentes ou ainda pelo sequenciamento do genoma do indivíduo, e apenas através desta podemos ter certeza científica da espécie ou sub-espécie”.

“Não foi, nem é e não será, uma prioridade para a nossa organização ter a definição exata do espécie em questão, mas sim, o seu resgate e recuperação física e emocional”, frisa a SOS Animal.

Conforme confirmou ao Expresso a presidente do Conselho Profissional e Deontológico da Ordem dos Médicos Veterinários, o processo “está em fase de instrução”. Já o bastonário assinalou, por sua vez, não “não ter conhecimento” dos processos que entram no Conselho Deontológico. Questionado pelo semanário sobre “o facto de ser proprietário de um canil, onde cria cães para caça, e de uma reserva de caça, no concelho da Chamusca, e se é sócio de alguma das organizações de caça queixosas”, Jorge Cid recusou responder. Garantiu apenas não misturar “a atividade pessoal com a profissional [de bastonário]".

Sandra Cardoso não estranha “a celeridade pouco habitual com que foi aberto este processo”, na medida em que “não é a primeira vez que a Ordem” a persegue "pelo ativismo em defesa dos animais”. Destaca a “dificuldade que foi abrir o hospital veterinário da SOS Animal”, em 2015. “Ficámos nove meses à espera do reconhecimento da direção clínica por parte da OMV, que indeferiu o pedido de acreditação da diretora clínica, após ter aprovado um regulamento com novas regras, retroativas”, recorda.

Numa publicação na sua página oficial de facebook, a propósito do artigo do Expresso aqui citado, a SOS Animal realça que, “sobre os tentáculos do lobby da caça e da sua ausência de noção de estado de direito, liberdade e compaixão”, reitera “que não irá ser intimidada por aqueles que tem como desporto assassinar animais”.

Sobre os tentáculos do lobby da caça e da sua ausência de noção de estado de direito, liberdade e compaixão. A SOS...

Publicado por SOSAnimal - Grupo de Socorro Animal de Portugal em Terça-feira, 29 de dezembro de 2020

“O mais importante, Tomás está a salvo, não há qualquer matéria de facto para este processo vergonhoso e em sede própria será discutido o seu intuito e instigação. O massacre da Torre Bela, trouxe a público o que denunciamos há anos, e traz ainda todos aqueles que se movem neste meio fortemente guardado por aqueles que deviam ter como prioridade a vontade dos cidadãos e não a vontade de um pequeno grupo, bem relacionados”, escreve a ONGA.

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