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Limites da recuperação económica dos Estados Unidos

A expansão da economia norte-americana a partir de 2009 já acumulou 109 meses de crescimento sem interrupção e prepara-se para ultrapassar o recorde de duração de uma onda expansiva. Quanto tempo durará a atual fase de expansão? Por Alejandro Nadal
Donald Trump vangloria-se de ter sido o responsável por este bom desempenho da economia. Mas os seus enganosos discursos não mencionam que o ciclo da recuperação começou antes de ele ter chegado à Casa Branca
Donald Trump vangloria-se de ter sido o responsável por este bom desempenho da economia. Mas os seus enganosos discursos não mencionam que o ciclo da recuperação começou antes de ele ter chegado à Casa Branca

A expansão da economia norte-americana a partir de 2009 já acumulou 109 meses de crescimento sem interrupção e prepara-se para ultrapassar o recorde de duração de uma onda expansiva. Hoje essa marca corresponde à do período 1991-2001. Mas tudo isto não pode impedir a formulação da pergunta chave: quanto tempo durará a atual fase de expansão?

Donald Trump vangloria-se de ter sido o responsável por este bom desempenho da economia. Mas os seus enganosos discursos não mencionam que o ciclo da recuperação começou antes de ele ter chegado à Casa Branca. A fase ascendente do ciclo iniciou-se no final de 2009 e fortaleceu-se com o estímulo fiscal posto em marcha pela administração de Barack Obama. Esse pacote injetou 720 mil milhões de dólares na economia ao reduzir impostos, criar empregos diretos e alargar os subsídios de desemprego nos setores da saúde e da educação.

A política monetária também teve impacto na recuperação. Já desde 2008 a Reserva Federal (Fed) reduziu a taxa de juro de referência para um nível próximo de zero por cento. E em dezembro de 2008, após o colapso do banco de investimento Lehman Brothers, anunciou o início do seu programa de flexibilidade quantitativa. Este programa de compra de ativos com problemas nas mãos dos bancos injetou mais de 4 biliões (milhões de milhões) de dólares no sistema bancário e financeiro. Apesar de não se traduzir em investimentos produtivos e muito do pacote acabou por criar uma enorme bolha na bolsa de valores, a expansão económica recebeu uma injeção de adrenalina com essa política heterodoxa da Fed. Assim, a recuperação deve-se menos às forças concorrentes do mercado do que à intervenção do Estado, tanto pelo lado fiscal como pelo monetário.

Mas como todas as recuperações económicas após uma recessão, a atual onda expansiva chegará ao fim. Talvez o travão na atividade económica se faça sentir precisamente quando começar a campanha eleitoral em que Trump procurará a reeleição. A realidade é que o estímulo fiscal que acompanhou a redução de impostos aos estratos mais ricos terá efeitos temporários e em finais de 2019 o impulso macroeconómico derivado destas medidas ter-se-á esgotado. Alem disso, a normalização da política monetária (com suas aumentos nas taxas de juro e a redução do balanço da Fed) será um travão adicional para a atividade económica. Finalmente, a guerra comercial que Trump iniciou com a China, a União Europeia, o Canadá e o México não está a ajudar a fomentar novos investimentos.

Talvez o facto mais importante que começa a fazer sentir os seus efeitos é a normalização da política monetária. Esta normalização consiste em primeiro lugar em afastar-se mais do território das taxas de juro próximas de zero. Por isso, os aumentos na taxa de juro vão continuar o seu curso enquanto prosseguir a expansão e a taxa de inflação se mantiver próxima da meta de 2 por cento definida pela Fed.

Recentemente, Trump acusou a Fed de sabotar os seus esforços para melhorar a economia. Essas acusações não têm precedente na história da Reserva Federal, mas não alterarão o calendário de aumentos da taxa de juro. Um dos efeitos desses aumentos continuará a ser o fortalecimento do dólar dos EUA, o que terá repercussões negativas sobre o setor exportador. E se a tudo isso acrescentamos as consequências da guerra comercial, o panorama parece mais complicado do que creem os economistas da equipa de Trump. A despesa dos consumidores continua a ser o principal motor do crescimento nos Estados Unidos e será afetado pelo efeito combinado de todos estes fatores e pelo facto de os salários continuarem estagnados. Finalmente, os preços do crude e de materiais como o aço e o alumínio (afetados pelos novos impostos aplicados pela Casa Branca) também pesarão negativamente no sector produtivo.

O impacto dos aumentos na taxa de juro não deve ser subestimado. O resgate mediante a flexibilização quantitativa da política monetária gerou um dos episódios mais intensos de inflação nos preços dos ativos financeiros na história do sistema financeiro norte-americano. Por isso, os aumentos na taxa de juro terão repercussões profundas, mesmo para a economia mundial. As empresas norte-americanas deverão refinanciar o equivalente a 4 biliões de dólares em títulos emitidos nos anos recentes, e deverão fazê-lo com taxas de juro maiores. Qualquer choque neste processo conduzirá a um número importante de falências e muitos bancos não terão outro remédio que cortar o crédito. A economia voltará a entrar em recessão, e já veremos a quem o atual ocupante da Casa Branca deita as culpas. Por enquanto, as consequências para o resto do mundo não serão boas.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em La Jornada a 8 de agosto de 2018

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