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Lima Duarte grava vídeo denunciando “devastação dos velhos” no Brasil

Ator, de 90 anos, dirige-se ao colega Flávio Migliaccio, de 85, que se suicidou, afirmando que o entende. E denuncia a volta “do hálito putrefacto de 64, o bafio terrível de 68” (a ditadura militar). Por Luis Leiria.
Lima Duarte: "devastação dos velhos".
Lima Duarte: "devastação dos velhos".

Um vídeo gravado pelo ator Lima Duarte, de 90 anos, está a emocionar o Brasil ao ritmo em que se espalha pela Internet. Dirigido ao também ator Flávio Migliaccio, de 85 anos, que pôs termo à sua vida na segunda-feira 4 de maio, o vídeo é um verdadeiro soco no estômago de quem assista aos seus pouco mais de quatro minutos (ver no final deste artigo).

Migliaccio deixou uma carta de despedida em que dizia: “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje!”

Lima Duarte começa a sua mensagem respondendo ao amigo: “Eu te entendo, Migliaccio.”

Lima Duarte é um dos mais importantes atores brasileiros. Trabalhou no teatro, no cinema e na televisão, foi realizador e apresentador de TV, numa carreira de mais de 70 anos. Ficou conhecido pelo inesquecível papel do Sinhozinho Malta na novela “Roque Santeiro”, ou o de Zeca Diabo na novela “O Bem Amado”. No filme “Kilas, o mau da fita”, do realizador português José Fonseca e Costa, Lima Duarte desempenha o papel do Major (que representa o general Spínola, depois de deposto pelo 11 de Março de 1975).

Na sua mensagem a Migliaccio, seu companheiro de carreira, Lima Duarte evoca os tempos dos dois no célebre Teatro de Arena, dirigido então por Augusto Boal, quando à noite esperavam que uma “Veraneio” (veículo usado pela polícia política, o DOPS), os viesse buscar. Um dia foi a vez de Lima Duarte, que só teve tempo de pedir a um amigo que fosse a sua casa dizer às filhas: “Papai volta! Papai volta!”

“É por isso, por ter pertencido ao Arena, por ter vivido esse momento que eu digo: eu te entendo, Migliaccio.” E prossegue: “Quando sentimos o hálito putrefacto de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois… eu tenho 90, você com 85, quando eles promovem agora a devastação dos velhos, não podemos mais. Eu não tive a coragem que você teve.”

O ator refere-se à política que Bolsonaro tem defendido em relação à pandemia da Covid-19, de terminar o isolamento social, argumentando que as vítimas são os velhos, que iriam morrer de qualquer modo.

O último recado de Lima Duarte, porém, já não é para o amigo ator, a quem ele promete encontrar em breve, junto a Boal e aos outros amigos já desaparecidos, momento em que “as piadas vão rolar”.

Lima Duarte termina dirigindo-se “aos que ficam”, recordando uma fala de “Os fuzis da Mãe Carrar”, de Bertolt Brecht: “Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue”.

 

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Governo Bolsonaro, Internacional
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