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Líder do Banco Mundial recua após acusações de negacionismo climático

Na terça-feira, David Malpass negou-se a responder se concorda com o consenso científico acerca da influência do uso de combustíveis fósseis na origem da crise climática. O recuo surgiu após dois dias de chuva de críticas.
David Malpass. Foto Simone D. McCourtie/Banco Mundial

O presidente do Banco Mundial, nomeado por Donald Trump em 2019, tem sido acusado dentro e fora da instituição por esta não fazer o suficiente para ajudar os países que sofrem fenómenos climáticos extremos resultantes das alterações climáticas, ao mesmo tempo que financia projetos de combustíveis fósseis que agravam o problema. Mas esse debate subiu de tom esta semana durante uma sessão pública sobre o assunto em Nova Iorque.

Segundo o New York Times, David Malpass foi confrontado por três vezes com as declarações do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, que horas antes tinha dito que o líder do Banco Mundial devia ser substituído, pois trata-se de um "negacionista climático". Desafiado a responder se acreditava que as emissões de gases com efeito estufa provocadas por ação humana estão por detrás da crise climática cada vez mais grave, Malpass recusou-se a fazê-lo, respondendo apenas: "Não sou cientista".

As declarações do líder do Banco Mundial não tardaram a circular em Nova Iorque, que esta semana acolhe diplomatas e chefes de Estado e de governo de todo o mundo na Assembleia Geral da ONU, a somar aos ativistas que participam nas atividades da Semana do Clima. E também não tardaram os pedidos de demissão. Christiana Figueres, diplomata costariquenha que liderava a agência da ONU para o Clima na negociação do Acordo de Paris, disse no Twitter que a situação "é simples": "Se não se compreende a ameaça das alterações climáticas para os países em desenvolvimento, não se pode liderar a maior instituição internacional de desenvolvimento", afirmou.

A dimensão do escândalo levou Malpass a recuar esta quinta-feira, em declarações à CNN. "É evidente que as emissões de gases com efeito de estufa provêm de fontes produzidas pelo homem, incluindo combustíveis fósseis, metano, usos agrícolas, usos industriais. Estamos a trabalhar com afinco para mudar isso. Não sou um negacionista", afirmou Malpass, justificando a mensagem da antevéspera com a sua inabilidade de comunicação: "nem sempre sou bom a transmitir a mensagem exata".

Para a diretora da Climate Action Network International, o problema está longe de se tratar de um simples mal-entendido. Se o mandato do Banco Mundial é o de acabar com a pobreza, "isso é incompatível com o seu contínuo financiamento dos combustíveis fósseis que são o motor da crise climática que afeta mais quem vive na pobreza", diz Tasneem Essop.

O lugar de Malpass à frente do Banco Mundial tem sido alvo de especulação desde a eleição de Biden para a Casa Branca. E as declarações desta semana aumentaram ainda mais essa incerteza acerca da sua permanência no cargo até abril de 2024. Durante o seu mandato, o Banco Mundial foi acusado de ter suavizado a declaração conjunta dos bancos antes da Cop-26 em Glasgow, acabando depois por não assinar o compromisso subscrito nessa cimeira por países como os EUA, Canadá, Reino Unido e também Portugal, além do Banco Europei de Desenvolvimento, para não criarem novos financiamentos a projetos no estrangeiro ligados à exploração de combustíveis fósseis.

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