You are here

A liberdade da arte e revolução

Leon Trotsky contribuiu para a produção de um conjunto de textos sobre o papel da literatura, da arte e da cultura no desenvolvimento da História. Estes escritos permanecem uma referência. Artigo de Minerva Martins
Manifesto: por uma arte revolucionária independente (1938)

Leon Trotsky contribuiu para a produção de um conjunto de textos sobre o papel da literatura, da arte e da cultura no desenvolvimento da História. Estes escritos permanecem uma referência para pensar hoje - recorrendo a uma análise marxista - a intervenção da criação artística no processo revolucionário, na transformação da sociedade para um modo de organização que assegura a liberdade individual e criativa.

Arte como mercadoria

A liberdade artística não tem condições para existir numa sociedade capitalista em que a maioria está privada do acesso aos meios de produção - incluindo os meios de produção da cultura e da arte.

Os artistas estão, paralelamente a profissionais de outros sectores, sujeitos a condições de precariedade e de exploração do seu trabalho pelo capital. O mercado de produtos artísticos fecha-se frequentemente a quem decide não orientar a sua atividade por determinados princípios estéticos, condições laborais, redes de dependência de produção e distribuição. São trabalhadores cuja produção é controlada por interesses de lucro e acumulação de capital. O seu processo de criação, de criação de objetos artísticos, coincide também com a dimensão alienante de outras atividades produtivas, em que a mercadoria adquire um valor objetivo de troca que oculta o real carácter social do trabalho. O produto artístico é também uma mercadoria.

Arte como instrumento na luta de classes

A arte é, por isso, um instrumento de dominação de classes. É regida por determinadas políticas favoráveis a quem controla e detém os meios de produção da cultura.

Mas a arte pode também ser um instrumento para a alteração das relações desiguais de propriedade e intercâmbio que vigoram atualmente. Pensar o papel da arte na atualidade é pensar nas conquistas dos trabalhadores, dos pensionistas, dos estudantes. É pensar a luta de classes e a incorporação das performances e objetos artísticos para melhor alcançar os objetivos de abolição das próprias classes.

A arte deve ser concebida a partir de uma perspetiva utilitária. Quer queiramos, quer não, a arte desempenha funções atuais na manutenção das desigualdades sociais. Ela é hoje útil a quem explora o trabalho de outros.

Pensar na criação artística como um ato imparcial ou neutro é ignorar os diversos mecanismos de reprodução das relações de exploração capitalistas. Ocultar essa evidência, isolando cada e qualquer ato expressivo da realidade, é apoiar continuamente esta forma de organização que privilegia somente uma minoria.

Os materiais da arte são os materiais da vida

Com isto, não quero reiterar a ideia de uma manipulação direta do objeto artístico sobre a consciência dos indivíduos. A arte não está isolada de todo um conjunto de instituições que participam e organizam a nossa vida quotidiana, que contribuem para o isolamento dos indivíduos uns dos outros, todos os dias. Aliás, essa análise opor-se-ia a uma análise marxista, em que o modo de produção corresponde a um modo de vida - em que o modo de produção é a base real da consciência, da arte, da religião e da política. A arte nunca atua de forma isolada à restante realidade material.

A tentativa de criação de uma arte do proletariado, através de círculos fechados e afastados da realidade de quem vive da sua força de trabalho, é utópica. A arte não se pode libertar, de forma abstrata e independente, da vida material - de uma vida material em que o proletariado não tem mecanismos para a produção da sua própria cultura. Este não tem condições para gerir, segundo os seus interesses, as instituições escolares e culturais, ou as instituições associadas ao funcionamento dos meios de comunicação e imprensa.

A criação de uma nova cultura pressupõe uma dimensão de massas e universal, de desenvolvimento em todos os campos do trabalho material e espiritual. Tal não é alcançado sem uma revolução - sem a apropriação, pelo proletariado, das atuais estruturas burguesas (dos teatros, das publicações, das escolas…). É necessário derrubar o poder da burguesia para um acesso democrático e abrangente a uma nova cultura.

Uma arte progressiva

A arte progressiva é aquela que reflete as contradições do capitalismo, que consolida os trabalhadores na luta contra quem os explora. A obra artística, qualquer que seja o modelo formal com que se rege, tem a possibilidade de contribuir para esse conhecimento acerca das relações de produção vigentes.

Embora ainda produto de uma cultura burguesa, é a arte necessária coincidente com a missão de um partido de esquerda anti-capitalista que vise o estabelecer de uma sociedade socialista solidária. A arte progressiva é um instrumento de emancipação socialista que contribui, objetivamente, para o processo revolucionário.

Não pretendo com isto definir que arte é ou não progressiva, até porque essa conceção deve ser alterada consoante as circunstâncias das pessoas vivas que com ela se relacionam, com as condições materiais que moldam a sua experiência. Como a realidade não é estática, também as conceções e utilizações da arte não o devem ser.

É importante mencionar que Trotsky dirige críticas à burocracia da União Soviética por sufocar a criação da arte, por impor regras autoritárias que se opõem à própria existência de uma arte criativa e inconformada. Elogia a arte rebelde que protesta contra a realidade de uma sociedade de classes, que não se conforma com as condições de opressão. E essa inconformidade passa também por não se reger por direções formais específicas. Defender uma conceção de arte útil para o desenvolvimento histórico - centrada na luta do proletariado -, não é o mesmo que defender um domínio político sobre o ato artístico através de decretos ou ordens.

“Os nossos fins:

A independência da arte - para a revolução

A revolução - para a total liberdade da arte”

(Trotsky & Breton, 1938, Manifesto: por uma arte revolucionária independente)

Artigo de Minerva Martins

Sobre o/a autor(a)

Mestranda em Ciências Musicais
Termos relacionados Cultura
(...)