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“Lei de imigração abre caminho a todas as formas de exploração”

Centenas de imigrantes concentraram-se esta quinta-feira em frente à Assembleia da República para exigir alterações à lei de imigração. Bloco quer acabar com a "resposta indigna" que o Estado está a dar aos imigrantes.
Imigrantes junto à Assembleia da República
Imigrantes junto à Assembleia da República

Para o Presidente da Associação Solidariedade Imigrante, Timóteo Macedo, este “foi mais um passo de quem não baixa os braços e exige ser tratado com dignidade de modo a poder refazer a sua vida no nosso país”.

“Já realizamos duas manifestações em frente às instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em Lisboa, com o objetivo de exigir mais celeridade na atribuição dos vistos de residência a milhares de imigrantes que esperam e desesperam por esse documento”, afirmou aquele dirigente associativo, tendo acrescentado que “hoje [quinta-feira] estamos aqui para exigir alterações à lei de imigração, apoiando o projeto de lei do Bloco para esta deixe de ser fechada e não continue a contribuir para abrir caminho a formas de exploração laboral e trabalho escravo que permitem que as redes de tráfico de mão de obra continuem a atuar de foram impune”.

“Estamos a falar de um problema que afeta cerca de 30 mil pessoas”, disse.

Timóteo Macedo referiu ainda que "há patrões que já não contratam imigrantes que tenham a sua situação regularizada, pois aqueles que se encontram enredados nas malhas da lei atual são presa fácil para todo o tipo de abusos que eles querem cometer".

Para aquele responsável, a luta vai continuar, estando já marcada uma manifestação para o próximo dia 13 de novembro, em Lisboa.

"Este é um problema de lei e não de boa vontade da administração"

No plenário, o deputado José Manuel Pureza saudou o bom acolhimento que a proposta bloquista de alteração à lei recolheu junto dos restantes grupos parlamentares e afirmou que da parte do Bloco “há toda a disponibilidade para fazer caminho, em sede de especialidade, seguindo o princípio básico do respeito pelas pessoas que procuram em Portugal ter uma vida digna".

O parlamentar bloquista referiu que "da parte do Estado português os imigrantes estão a receber uma resposta que é uma resposta indigna”, e que isso "não é um problema de boa vontade da administração", mas de clarificação necessária da lei em vigor.

José Manuel Pureza disse ainda que "Portugal abriu fronteiras a estas pessoas e agora que as deixou entrar e elas estão a trabalhar em Portugal e a descontar para a Segurança Social, não podem ser mantidas num limbo, numa situação de total fragilidade”.

Não merecem que lhes façam isto”

Às 15 horas, o espaço fronteiro à escadaria do Parlamento estava já cheio de imigrantes oriundos sobretudo do Paquistão, Bangladesh e Índia que envergavam t-shirts brancas onde se podia ler: “Documentos para todos”.

Muitos manifestantes empunhavam cartazes com frases como “Ninguém é ilegal” ou “Nós trabalhamos, queremos residência”.

Não faltaram também bandeiras de Portugal, num gesto simbólico de quem gosta do país e  para aqui veio na busca de um futuro melhor, fugindo ao desemprego, à instabilidade política geradora de muitas situações de violência.

É o caso de Azim Uddim que chegou há dois anos a Portugal e é comerciante.

“Sou do Bangadesh, ainda não tenho autorização de residência e sou um trabalhador que cumpre todas as obrigações que o Estado português me exige”, afirma com alguma tristeza na voz, sublinhando ainda não compreender tanta demora na resolução da sua situação.

As palavras de ordem são cada vez mais audíveis e há pequenos grupos que percorrem pequenas distâncias e com um megafone vão afirmado: “Documentos para todos” e "Com ou sem visto, eu existo”.

Aos 29 anos, Minimizar Rahman está ainda sem documentação, apesar de residir em Portugal há um ano e ter requerido a sua regularização em janeiro deste ano.

Revela alguma timidez e entre as mãos tem um papel do SEF que confirma o que acaba de dizer.

Sobre as expetativas que tem na resolução de toda esta situação, limita-se a afirmar que “espera uma boa decisão.”

Mais distante da imponente escadaria da Assembleia da República e sentada num muro, porque as pernas já vão vacilando, está Maria Olinda. Tem 73 anos e vive na Rua de São Bento, razão pela qual tem muitas histórias para contar sobre as várias manifestações que ali ocorrem.

Mas hoje está um pouco confusa e não percebe as razões para o protesto. Após as explicações fica uma pouco pensativa afirmando que “se é assim, é injusto”.

“Pessoas que vêm de países lá tão longe para trabalhar e andam assim a correr o risco de serem expulsas é errado e os senhores da política devem resolver a situação”.

Sem esquecer os portugueses que trabalham lá fora, refere que "se lhes fizessem o mesmo o governo português não ia gostar”.

“Isto está mau em todo o lado, mas se é gente séria, devem ser bem tratados”, conclui.

"O Estado tem de ser exigente consigo próprio, dando uma resposta rápida e justa aos imigrantes"

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