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Lava-Jato: o “inventor” do pin de Passos foi preso a caminho de Lisboa

O publicitário André Gustavo, que dirigiu as duas campanhas eleitorais de Passos Coelho para as legislativas, foi detido esta quinta-feira no aeroporto de Brasília. Ele é suspeito de servir de intermediário de subornos pagos ao ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, igualmente detido após comprar um bilhete só de ida para Lisboa.
André Gustavo
André Gustavo numa entrevista ao DN após as eleições de 2015.

André Gustavo, o seu irmão e sócio na agência de publicidade Arcos, António Carlos, e o ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Aldemir Bendine, foram detidos esta quinta-feira no âmbito da “Operação Lava-Jato”, que investiga esquemas de suborno e corrupção envolvendo políticos e empresários brasileiros, incluindo as grandes empresas públicas e a banca de investimento.
 
Segundo o site “O Globo”, os advogados de André Gustavo tinham informado o juiz Sérgio Moro de que o seu cliente viria a Portugal entre 27 de julho e 5 de agosto. Por coincidência, outro dos alvos da investigação, o suposto destinatário dos subornos intermediados pelo publicitário junto da construtora Odebrecht, enquanto líder do Banco do Brasil e depois da Petrobras, também tinha bilhete de avião para Lisboa marcado para esta sexta-feira, mas só de ida. O facto de Aldemir Bendine ter passaporte italiano terá sido decisivo para a sua prisão.

As suspeitas sobre os três detidos são baseadas nos depoimentos de Marcelo Odebrecht e Fernando Reis, executivo do grupo, que confessaram o pagamento de um suborno em 2014 de cerca de 17 milhões de reais (4.6 milhões de euros ao câmbio atual). O valor correspondia a 1% de uma dívida da Odebrecht ao Banco do Brasil, cujo prazo de pagamento a empresa pretendia adiar. Segundo os empresários disseram na sua “delação premiada”, quando Aldemir Bendine saiu do Banco do Brasil para presidir à Petrobras, o publicitário exigiu que o pagamento das luvas se mantivesse.

O jornal Folha de São Paulo diz que André Gustavo e o irmão acabaram por receber 3 milhões de reais (815 mil euros) em dinheiro, pagos em três tranches entre junho e julho de 2015, quando o publicitário preparava a campanha da coligação PSD/CDS às legislativas portuguesas. Num recurso entregue antes de ser preso, André Gustavo assume ter recebido o dinheiro e justifica-o como “consultoria” para agilizar a concessão do empréstimo à Odebrecht.

Mas não é apenas o líder da Odebrecht a denunciar André Gustavo. Também os executivos da JBS, nas suas “delações premiadas”, apontam o nome do publicitário como o elo de ligação ao financiamento ilegal de vários políticos do PSB e PSDB do seu estado natal do Pernambuco, entre os quais Bruno Araújo, o atual ministro das Cidades do governo Temer. A agência de publicidade faturava serviços à empresa líder no mercado das carnes, que na verdade serviam para financiar as campanhas de vários partidos.

As ligações políticas do “inventor” do pin de Passos Coelho

André Gustavo tem sido uma figura presente nas campanhas eleitorais do PSD. A ligação começou com Luís Filipe Menezes à frente da Câmara de Gaia e prosseguiu com Marco António e Miguel Relvas, de quem se tornou amigo. Foi Miguel Relvas que o apresentou a Passos Coelho e daí nasceu uma colaboração de cinco anos.

Autor das campanhas para as legislativas de 2011 e 2015, André Gustavo foi convidado para a tomada de posse do governo PSD/CDS em 2011 e serviu de conselheiro de imagem de Pedro Passos Coelho. Foi a sua agência que remodelou o site do governo e lhe tratou da imagem, incluindo o uso dos pins com a bandeira portuguesa que o ex-primeiro-ministro tem mantido até hoje.

Segundo as contas entregues pela coligação PAF no Tribunal Constitucional relativas à campanha das últimas legislativas, a empresa de André Gustavo faturou 475 mil euros pelos serviços prestados aos dois partidos.

No Brasil, Andre Gustavo manteve ao longo dos anos relações próximas com os principais partidos, em particular o PT e o PMDB. Delúbio Soares, o antigo tesoureiro do PT envolvido em escândalos de financiamento ilegal desde o caso “Mensalão”, é seu padrinho de casamento.

 

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