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Judith Butler: Podridão anunciada

O triunfo de Donald Trump representa a expressão máxima da paixão racista e misógina emancipada. Mas ela simplesmente sempre esteve lá. Por Judith Butler.
Donald Trump
Donald Trump, foto de Michael Reynolds/EPA/Lusa.

É importante formular duas perguntas sobre as sequelas desta terrível eleição: quem votou em Trump e por que é que ninguém esperava que ele realmente chegasse a esses números? Quem vive e trabalha em meios urbanos e progressistas não lê demasiado sobre o populismo da classe branca trabalhadora e os meios pelos quais canalizam a sua raiva. Bernie Sanders compreendeu que a raiva é o mais importante. Em todo o caso, temos agora de fazer algum esforço para perceber como as formas de privações de direitos económicos, especialmente de homens brancos, se convertem em xenofobia, racismo, homofobia e misoginia. 

Por um lado temos de nos perguntar como é que as nossas próprias posições são tidas como as opiniões de uma elite educada. Por outro lado, temos de voltar à pergunta básica da democracia: quem c…… são essas pessoas? É fácil descrever todos esses votantes como irracionais e racistas vis. São-no. Mas deve haver uma forma de quebrar o nosso próprio círculo e examinar essa raiva, as suas fontes e as nossas próprias práticas de autoisolamento. De forma que quando nos perguntamos quem c…… são essas pessoas, também temos de nos perguntar quem somos nós e como restringimos o nosso campo de visão para não termos visto vir o que veio.

Talvez os trumpistas tenham mentido nas sondagens ou talvez fossem invisíveis para quem as fazia. Provavelmente devemos voltar à pergunta de porque é que Bernie escolheu fazer a sua campanha como o fez: deixando claro que percebia as condições económicas desta imprescindível porção do eleitorado.

As formas de racismo, xenofobia, homofobia e misoginia que estamos a ver não são novas. As cruéis campanhas contra Obama recordaram-nos que estavam aí. A simpatia em relação a polícias que mataram pessoas negras desarmadas foi outro sinal muito claro. O horrível tratamento dos migrantes que vêm do Sul e o ardor da islamofobia também o foram. Mas tudo isto parecia para muitos de nós tão irracional e aberrante que não era possível imaginar que metade dos cidadãos surfariam essa onda de podridão. Trump modelou um racismo e uma misoginia sem vergonha aos quais se acomodaram uma enorme quantidade de pessoas para votar nele. 

Outro enorme grupo de pessoas foram tocadas e comovidas pelo seu discurso racista e sentiram-se finalmente libertadas do superego censor dos movimentos feministas e antirracistas. A única coisa que as denúncias públicas do racismo de Trump fizeram foi levar esse ódio à clandestinidade. Trump conseguiu emancipar uma paixão racista que sempre tinha estado expressa, por exemplo, naquilo que conhecemos como cultura policial. O discurso amoroso de Hillary só ajudou a dar alento à vida furtiva do ódio. E Trump pôde monopolizar a raiva dos homens brancos de classe trabalhadora.

Mais um ponto: a educação. Muitos desses votantes não foram bem educados e desconfiam das instituições educativas, incluíndo as universidades. Consideram-nas caras, elitistas e desnecessárias. A divisão de classes neste ponto é brutal. Quanto mais se afastar o acesso à educação, mais formas de ódio atentarão contra as nossas vidas políticas. Trump é uma pessoa que não lê e não considera que o deva fazer. 

À esquerda, perdemos a oportunidade de conectar essa raiva com a privação económica e com uma agenda política progressista. Agora temos de pensar seriamente nas perspetivas de um partido socialista nos Estados Unidos, que se sustente em fortes alianças de solidariedade com outros países. A degradação económica e a aceleração da ingenuidade foram oportunamente nomeadas pelo Occupy Wall Street e por outros movimentos antiglobalização, do mesmo modo que o Black Lives Matter pode identificar e mostrar fontes esmagadoras de sofrimento contemporâneo. Mas como estas mesmas condições podem levar - e fizeram-no - a políticas reacionárias que inclusivamente atentam contra os nossos direitos constitucionais mais básicos é o que teremos de estudar agora.

Isso significa mudar o nosso próprio marco e terminar o nosso próprio isolamento à esquerda, para que algo assim não nos volte a surpreender tanto. Minorias sexuais, de género e radicais - e sem papéis - estaremos entre os mais vulneráveis à ação deste poder policial recarregado. Deveremos organizar-nos e lutar com toda a nossa paixão.

Publicado originalmente em SOY a 18 de novembro de 2016, tradução para o esquerda.net por Joana Campos.

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