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Japão: Shinzo Abe investigado por uso ilegal de fundos para festas privadas

O ex-primeiro-ministro japonês é acusado de esconder financiamento. O seu sucessor, que era seu chefe de gabinete, também é atingido pelo caso.
Shinzo Abe em 2016. Foto de Anthony Quintano/Flickr.
Shinzo Abe em 2016. Foto de Anthony Quintano/Flickr.

Steve Bannon, o guru da extrema-direita mundial, chamou-lhe o “Trump antes de Trump”. O seu nome batizou a política económica do seu país na última década. Shinzo Abe foi eleito primeiro-ministro do Japão pela primeira vez em 2006-2007 à cabeça do Partido Liberal Democrata que já estava no poder desde 2001. Foi o mais novo a conseguir o cargo. Acabou por se demitir na sequência de um escândalo de corrupção que envolveu o seu ministro da Agricultura, da derrota nas eleições para o Senado e da incapacidade de conseguir a renovação do mandato da missão naval japonesa no Afeganistão em apoio às forças dos EUA.

Em 2012 regressa à chefia do executivo, de onde só saiu em setembro deste ano por razões de saúde. Lança então a famosa abenomics que consta com este nome na própria página do governo do Japão. A sua política económica baseava-se em três “setas”: imprimir mais dinheiro para combater a deflação, uma política de estímulos ao consumo para ultrapassar a estagnação económica e uma estratégia de “reformas estruturais” que favoreciam o investimento privado e que liberalizaram, por exemplo, o setor da saúde. Do pacote faziam parte também cortes fiscais para os mais ricos.

Internacionalmente, o político conservador ficou conhecido pelas tomadas de posição nacionalistas, nomeadamente por promover o negacionismo de crimes de guerra do Japão, tendo posto em causa a exploração sexual de mulheres coreanas pelo exército do seu país. Internamente, foi uma das principais forças motrizes das tentativas de revisão constitucional para apagar a referência pacifista que tem sido a sua imagem de marca.

Das cerejeiras em flor aos gastos em festas

Chegado ao fim o mandato, o seu legado está a ser revisitado por outra razão: a procuradoria do Japão está a investigar o gabinete pessoal de Shinzo Abe enquanto primeiro-ministro por utilização ilegal de fundos para financiar festas anuais em hotéis de luxo, por ocasião das cerejeiras em flor, em que participavam centenas dos seus apoiantes entre 2013 e 2019.

Segundo a lei japonesa, partidos e organizações políticas devem declarar todas as despesas e receitas. Oficialmente as festas foram organizadas por um grupo de apoio a Abe, liderado por um dos seus secretários. Mas das faturas dos hotéis consta o nome da organização de gestão de fundos chefiada pelo ex-primeiro-ministro. E estas despesas não foram declaradas. O gabinete de Abe terá coberto a diferença entre as contribuições de cinco mil ienes pagas pelos convidados e o custo de cerca de onze mil ienes por cabeça destes eventos. Terão assim sidos gastos oito milhões de ienes, mais de 64 mil euros.

A agência noticiosa Kyodo News avança a informação de que as faturas incriminatórias terão sido destruídas pelo antigo chefe do executivo. Os partidos da oposição já tinham pedido que os hotéis mostrassem estes documentos, mas estes recusaram com base na confidencialidade do negócio.

Com a investigação, não é apenas um político do passado recente que fica em causa. O sucessor de Abe, Yoshihide Suga, foi secretário-geral do seu gabinete e por isso a sua posição poderá também estar em causa. Numa sessão parlamentar esta quarta-feira, recusou uma investigação parlamentar ao caso, alegando que já está a ser investigado pela justiça.

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