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Irão enforca jornalista por apoiar protestos contra o regime

O ativista e jornalista iraniano Ruhollah Zam é uma das várias figuras da oposição iraniana presas no estrangeiro por agentes secretos do Irão. A execução ocorreu este sábado, pouco mais de um ano após Zam, que vivia em França, ter sido sequestrado no Iraque.
Televisão estatal iraniana noticia que Ruhollah Zam, de 47 anos, casado e com duas filhas, foi enforcado este sábado, 12 de dezembro.

A televisão estatal iraniana e a agência de notícias estatal IRNA avançaram que Ruhollah Zam, de 47 anos, casado e com duas filhas, foi enforcado este sábado, 12 de dezembro. Em junho, um tribunal condenou-o à pena de morte, considerando-o culpado por "corrupção na Terra", “crimes contra a segurança interna e externa do país”, “espionagem em benefício dos serviços secretos franceses” e insulto ao “carácter sagrado do islão. A sentença de morte foi ratificada na passada terça-feira pelo Supremo Tribunal do país, que assinalou a “severidade dos crimes" cometidos pelo jornalista aos olhos da república islâmica.

Ruhollah Zam vivia há vários anos exilado em França, com estatuto de refugiado. Foi preso em 2019 no Iraque pelos serviços secretos da Guarda Revolucionária Iraniana. De acordo com as próprias autoridades iranianas, Zam caiu "numa armadilha" daquele grupo de elite, que conseguiu levá-lo para o Irão.

O jornalista foi condenado por desempenhar um papel ativo nos protestos iniciados em 2017. Ruhollah Zam tinha criado a página na internet Amadnews (ou Sedaiemardom, “a voz do povo”) e, em 2017, criou um canal com o mesmo nome no Telegram, através do qual divulgava informações sobre as manifestações e vídeos dos protestos, além de notícias embaraçosas para o regime. Foi o canal de Zam no Telegram, com cerca de 1,4 milhões de seguidores, que permitiu aos manifestantes iranianos organizarem-se.

Os protestos de 2017, os mais significativos desde o Movimento Verde de 2009, foram motivados pela subida dos preços dos alimentos, mas rapidamente se transformaram num movimento mais amplo contra o regime fundamentalista. Entre 28 de dezembro de 2017 e 3 de janeiro de 2018, pelo menos 25 pessoas foram mortas durante os protestos. Já no final 2019, uma onda de protestos semelhantes eclodiu em desafio ao regime de Teerão. À época, cinco mil pessoas foram detidas. De acordo com a ONU, pelo menos 400 pessoas foram mortas. A Amnistia Internacional refere, por sua vez, dezenas de vítimas de tortura.

Execução é um golpe mortal para a liberdade de expressão no Irão

A Amnistia Internacional e a organização Repórteres Sem Fronteiras condenaram a execução. “Estamos chocados e horrorizados ao saber que as autoridades iranianas executaram o jornalista dissidente Ruhollah Zam na madrugada de hoje”, afirmou Diana Eltahawy, Diretora Adjunta da Amnistia Internacional para o Médio Oriente. “A sua execução é um golpe mortal para a liberdade de expressão no Irão e mostra a extensão das táticas brutais das autoridades iranianas para instigar o medo e dissuadir a dissidência”, acrescentou. A Amnistia Internacional apela “à comunidade internacional - incluindo os Estados membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU e da UE - a tomar medidas imediatas para pressionar as autoridades iranianas a interromper o uso crescente da pena de morte como arma de repressão política”.

Numa mensagem no Twitter, a organização Repórteres Sem Fronteiras, que estava a seguir o caso de Zam, aponta que alertou a Alta-Comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet para a execução iminente a partir de 23 de outubro. E manifestou-se ainda "chocada que a justiça iraniana e o patrocinador deste ato Ali Khamenei [líder supremo iraniano] tenham cumprido a sua sentença".

A União Europeia repudiou nos "termos mais veementes" a execução de Zam, lembrando a "sua oposição irrevogável ao uso da pena de morte em qualquer circunstância", de acordo com um comunicado do Serviço de Ação Externa da UE.

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