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Irão: da insubmissão à revolução

O sociólogo franco-iraniano Farhad Khosrokhavar descreve neste artigo os três períodos da revolta iniciada em setembro e os sinais de decomposição do "regime tanatocrático" naquele país.
Farhad Khosrokhavar. Foto Francesca Leonardi) - Internaz/Flickr

Três períodos caracterizam o movimento iraniano que começou em setembro e está agora a entrar no seu terceiro mês. O primeiro, que dura uma ou duas semanas, é marcado pela irrupção das mulheres na cena social que lançam o protesto sob o lema "Mulheres, vida, liberdade". É de salientar que os homens as seguem. Eram na sua maioria jovens. O segundo período, que se seguiu ao primeiro, foi marcado pelo slogan "Morte ao ditador" (Khamenei). Vemos muitas mulheres e homens, todos jovens e, pela primeira vez, muito jovens (entre os 12 e os 17 anos). Universitários e alunos do ensino secundário assumem a liderança, com duas províncias étnicas, o Curdistão iraniano (oeste do Irão) e o Baluchistão (sudeste do país), onde pessoas de todas as idades participam nas manifestações.

Mahsa Amini, que morreu na esquadra da polícia dos costumes em Teerão, é do Curdistão, e as manifestações em Saqqqez, a sua cidade natal, e em Sanandaj, a capital do Curdistão, não param de se desenrolar. No Baluchistão, o assassinato de uma jovem lançou o protesto contra a teocracia islâmica. Mais de sessenta manifestantes, incluindo alguns menores, foram mortos durante a manifestação. Também aqui, as manifestações em Zahedan, a capital da província, se multiplicaram. Na parte étnica do Irão, a violência estatal é mais forte. A reação da população, em todo o país, é a de se unir às minorias étnicas. Os slogans são disso testemunho: "Zahedan, Sanandaj, meninas dos olhos do Irão" ou "Juntos, vamos recuperar o Irão [da mão da teocracia]".

O terceiro período, que começou na semana passada, é marcado principalmente por greves e encerramentos dos bazares. Isto é importante porque o bazar, mesmo tendo perdido a sua antiga importância económica, tem um significado simbólico fundamental, devido ao seu papel nos movimentos iranianos do passado (tanto o de Mossadegh em 1950 como o da Revolução de 1979). Até então, eram os jovens da terceira geração pós-revolucionária que protestavam. Agora, trabalhadores (segunda geração) e bazaristas (comerciantes de bazar, segunda e primeira geração) estão a juntar-se a eles. Para além de uma economia perturbada, denunciam um descontentamento social que se politizou. A morte dos manifestantes desencadeia as cerimónias de luto e os seus prolongamentos (especialmente o quadragésimo dia, que tem importância simbólica e leva frequentemente a manifestações contra o regime).

Organismo tanatocrático

A partir de agora, a política joga-se diretamente numa rua furiosa que o Estado teocrático, transformado num organismo tanatocrático, não consegue domar apesar da sua violência assassina (mais de 350 mortes, 40 menores) e da utilização de meios de repressão maciça (tortura, mais de 15.000 detenções). Até destrói lugares onde as pessoas vivem (no bairro Ekbatan de Teerão, várias dezenas de milhares de pessoas da classe média baixa foram brutalizadas) e dispara com munições reais, para além dos motociclistas de Bassidje (organizações anti-motim urbano) que se apressam a atacar os manifestantes disparando contra eles e por vezes esmagando-os debaixo das suas rodas. As crianças não são poupadas.

Nesta matança e destruição, os grupos étnicos iranianos, os curdos que vivem principalmente no oeste do Irão no Curdistão iraniano e os balúchis que vivem no sudeste, na região mais carenciada do Irão, Baluchistão e Sistão, e que são sunitas, são os mais visados. Pelo racismo e pelo medo da sua insurreição generalizada: ao contrário do resto do Irão, onde são sobretudo os jovens que se mobilizaram, estas duas regiões viram todos, jovens e velhos, saírem para as ruas e morrerem sob as balas das forças da ordem.

Em Mahabad, uma cidade do Curdistão, no sábado 19 de novembro, a polícia entrou nas ruas armada com tanques e metralhadoras pesadas e disparou contra tudo o que se movia, a electricidade e a internet foram cortadas, e os manifestantes colocaram barreiras improvisadas nas ruas para resistir à repressão indiscriminada. Do mesmo modo, os balúchis também tiveram um número desproporcionado de mortes (mais de 100) nas quase 400 pessoas mortas desde meados de setembro.

Cenário sírio

Pela sua resiliência, o movimento assume um novo carácter, apesar de não ter um líder (o poder neutraliza-o sistematicamente desde 2015, assim que algum surge) ou organização (o regime não tolera qualquer estrutura política autónoma). Mas a ausência de qualquer "interlocutor" que possa representar os manifestantes torna impossível o diálogo. O governo não sabe com quem falar por causa da sua intolerância e continua os seus atos de intimidação e a sua gestão assassina dos protestos. Tudo indica que não é possível qualquer compromisso entre os manifestantes e o regime teocrático. As exigências tornaram-se mais radicais e o regime está convencido de que qualquer compromisso seria visto como um sinal da sua fraqueza e levaria a uma maior radicalização dos protestos.

O cenário sírio é óbvio para o regime: lançar islamistas radicais como uma ameaça à sociedade, armando-os e insuflando artificialmente a sua ação (numa sociedade xiita, os jihadistas sunitas são muito minoritários), fazendo a população temer que o Irão seja desmembrado pelos seus grupos étnicos na ausência de um governo forte, espalhando notícias falsas (dizem que as mortes se devem à violência dos manifestantes). Em suma, as mentiras estatais tornaram-se a característica dominante da televisão iraniana e da imprensa oficial. Os blackouts na Internet, censura total na imprensa oficial, os "shows" de confissões extraídas sob tortura de indivíduos presos e supostamente "arrependidos", bem como a atribuição das manifestações a esquemas norte-americanos, israelitas e, mais globalmente, estrangeiros, são agora comuns.

O movimento continua apesar desta repressão sombria porque o sentimento de estar numa sociedade sem presente e sem futuro e a eliminação de qualquer tímida oposição legal significa que a rua se tornou o único lugar para jovens e idosos expressarem as suas queixas.

Nenhuma mensagem de esperança

Além disso, o Estado iraniano é visto pelos jovens não só como corrompido até à medula, mas também como sendo contra a alegria de viver. Em nome de uma visão fossilizada da vida em relação a um Islão à moda antiga, o governo impõe restrições que são vistas como absurdas pelas novas gerações. O véu obrigatório pode servir de exemplo quando até a Arábia Saudita o aboliu. O regime não tem uma mensagem de esperança para os jovens que assedia constantemente. Para este poder, a alegria é fundamentalmente uma questão de transgressão: qualquer demonstração de júbilo popular (tal como num evento como um jogo de futebol) é reprimida, tanto coletiva como individualmente. Esta falta de compreensão das experiências dos jovens que querem celebrar a vida cria uma barreira adicional entre o governo e uma sociedade ávida por existir.

Em 2009, pela última vez, os reformistas, vistos como uma tímida alternativa plausível a uma teocracia de linha dura, foram eliminados numa eleição presidencial fraudulenta em que o populista Ahmadinejad ganhou com o apoio ativo do exército da Guarda Revolucionária e do Líder Supremo. Os jovens lançaram o slogan: "Onde está o meu voto?" Desde então, os protestos têm sido em cascata em 2015, 2016, 2018, 2019 e 2021, e a cada vez foram duramente reprimidos (os de 2015 deixaram mais de 300 mortos, os de 2018-2019 1.500 mortos...).

A partir de agora, os canais de diálogo e compromisso estão bloqueados, e a repressão do regime vira-se contra si próprio, como uma cobra que morde a sua própria cauda. Quanto mais reprime, mais a sociedade se revolta. Isto torna ainda menos possível um compromisso com um poder vergonhoso. Quanto ao regime, instruído pelo modelo sírio de repressão, acredita que pode aplicá-lo mutatis mutandis à sociedade iraniana. Daí até que as forças de repressão mostrem gradualmente sinais de desgaste, será apenas um pequeno passo se as manifestações continuarem por mais algumas semanas. Seria então o fim do regime tanatocrático.


Farhad Khosrokhavar é sociólogo franco-iraniano, diretor na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS). Artigo publicado no site A l'Encontre a partir do diário francês Libération, 21 de Novembro de 2022. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net

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