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Iranianas em Portugal: “Isto não é sobre religião, é sobre democracia”

Para Asma, Sahar, Nahid, Tina e Sol, sair do Irão tornou-se a única opção. Durante o protesto que organizaram no Rossio, em Lisboa, explicaram-nos o que se passa no seu país e o que exigem da comunidade internacional e, especificamente, do governo português. Texto e fotos de Mariana Carneiro.
Asma, Sahar, Nahid, Tina e Sol na concentração de protesto no Rossio, em Lisboa.

A 1 de outubro, realizaram-se 150 iniciativas um pouco por todo o mundo em solidariedade com as mulheres iranianas e com todas as pessoas oprimidas na República Islâmica do Irão. Em Lisboa, cerca de 400 pessoas concentraram-se no Rossio.

Ouviram-se várias músicas, entre as quais Bella Ciao e Grândola, vila morena, e as pessoas puderam dançar, ao contrário do que acontece no Irão. Existiram várias intervenções, quase exclusivamente de mulheres iranianas.

A Revolução portuguesa foi muitas vezes invocada e o cravo vermelho marcou presença. A iniciativa decorreu sobre o olhar atento dos representantes da embaixada do Irão em Portugal que, de acordo com as ativistas iranianas, estiveram presentes no local para identificá-las e fotografá-las.

Esta concentração foi organizada pela comunidade iraniana a viver em Lisboa. O núcleo mais ativo é composto por entre 20 a 30 pessoas, que dividem tarefas concretas e se organizam essencialmente por whatsapp e telegram.

O Esquerda.net falou com algumas das mulheres que estão a dar eco à voz do seu povo. Vieram para Portugal em momentos distintos. Há quem tenha chegado há quase cinco anos, enquanto outras entraram no país há poucos meses. Para Nahid, Sol, Sahar, Asma e Tina, com idades entre os 29 e os 41 anos, sair do Irão tornou-se a única opção. Os seus corpos, as suas vidas, já não lhes pertenciam. Hoje, assistem à violência atroz com que as autoridades iranianas estão a responder aos protestos despoletados pela morte da jovem Mahsa Amini, e afirmam ter esperança de que o regime, a que abertamente chamam ditadura, caia brevemente. Se não cair já, acreditam que é “o princípio do fim”.

“Viver no Irão é como viver numa grande prisão”

“Viver no Irão é, para as mulheres, como viver numa grande prisão. Nem consigo explicar. Às vezes é até difícil respirar no Irão. Quando estava lá, sentia que o meu coração não estava a bater”. As palavras são de Sol, mas o sentimento de viver sob uma feroz opressão é comum a todas.

Sol

Nahid chegou a um ponto em que “não conseguia aguentar mais”: “A vida de uma mulher no Irão é uma vida difícil e muito limitada. Não conseguia fingir e continuar a viver da forma como o governo extremista queria. Cada uma de nós só tem uma oportunidade de vida, e eu pensei que não podia perder essa oportunidade devido às regras estúpidas e atrasadas de um regime que é uma verdadeira ditadura”, explica a jovem iraniana.

Sahar e Tina dão exemplos de como a opressão se manifesta no quotidiano das mulheres iranianas, limita as suas vidas e destitui-as dos mais elementares direitos humanos.

“Não temos os mais básicos direitos humanos, somos tratadas como escravas, porque a República Islâmica considera que as mulheres são escravas dos homens, que podem ter duas ou três mulheres e fazer o que quiserem”, retrata Sahar.

Tina acrescenta que, no Irão, “assim que uma criança atinge os sete anos, o pai fica automaticamente com a sua custódia”, e as mulheres “precisam de autorização do seu pai ou do marido para saírem do país”.

As meninas, a partir dos sete anos de idade, são obrigadas a usar o hijab na escola, ainda que estejam separadas dos rapazes. E foi exatamente por essa razão que a família de Tina decidiu tirá-la do Irão nessa idade. A sua mãe acompanhou-a até a Alemanha. Já o pai não pôde ir, porque era soldado e o país estava em guerra com o Iraque. Tina cresceu longe dos progenitores: “Há várias histórias como a minha, em que famílias foram separadas por causa deste regime”, aponta.

Tina

“Mas não estão em causa apenas os direitos das mulheres, mas os direitos humanos em geral”, frisa Tina. “Os homens não estão autorizados a usar calções, não podemos ouvir música na rua, um rapaz e uma rapariga não podem ir comer um gelado juntos. Não podemos andar de bicicleta”, continua.

Sahar lembra ainda que “os homossexuais e as lésbicas são executados no Irão”. E a situação económica também é catastrófica: “Somos um dos países mais ricos do mundo, mas 90% do povo é pobre. Temos petróleo e gás suficientes para todo o mundo, mas o dinheiro não chega aos bolsos do povo”, refere.

No caso de Asma, o seu ativismo resultou numa perseguição implacável. “Em Teerão, eu ajudava mulheres jovens a encontrarem trabalho”. Foi devido a esta atividade que passou, desde há oito anos atrás, a ser sujeita a inúmeros interrogatórios. Entretanto, entrou para uma empresa que tinha um projeto com o governo. O regime fez com que fosse despedida e pô-la numa lista negra, para que não conseguisse trabalhar em lado algum. No último interrogatório, que durou longas horas, afirmaram que não poderia deixar o país e que, se conseguisse fugir de alguma forma, não poderia voltar. “Disseram-me que, mesmo que eu fosse para qualquer outro canto do mundo, a minha família ia ficar no Irão, pelo que eu não devia sentir-me livre para fazer o que quisesse. E eu, literalmente, não fiz nada, só estava a ajudar as jovens a conseguirem trabalho. Nunca disse nada contra a ditadura. Aí decidi vir-me embora. Não tinha outra opção”, lembra Asma.

Asma

Estas cinco mulheres deixaram para trás a sua terra, as suas famílias, os seus amigos. E é preciso ultrapassar vários obstáculos para escapar ao regime iraniano: “É muito difícil sair do país, estamos todos a sofrer sanções [internacionais]. O nosso cartão bancário não é válido, ninguém nos dá visto, o nosso passaporte não é válido. A nossa moeda não tem valor. Somos menos do que zero. As sanções estão a matar-nos”, explica Sahar.

“Eles não têm medo de nos matar”

De acordo com Tina, “a República Islâmica sempre foi muito conservadora, mas este presidente ainda é mais conservador, o que tornou a situação pior”.

“Apesar das nossas expectativas, apesar das tentativas do povo iraniano, de ativistas feministas, ativistas sociais e políticos, a situação no Irão está a piorar. O povo iraniano é um povo pacífico, aberto, que quer ter boas relações com o resto do mundo. Mas o governo extremista não deixa, e está a censurar as pessoas”, lamenta Nahid.

A morte da jovem Mahsa Amini nas mãos da polícia da moral foi a gota de água: “O conflito entre o povo e o governo ao longo destes mais de 40 anos chegou, com a morte de Mahsa Amini, a um limite. O povo está farto e quer a queda do governo. O governo não tem nada a ver com o povo. O povo iraniano não merece este governo”, garante Nahid.

Nahid

E a “situação económica e social também está a piorar. As sanções estão a sacrificar o povo. O povo iraniano tem pago muito pela energia nuclear. O regime diz que é um direito nosso, mas nós não queremos energia nuclear. Temos mais corrupção, mais insegurança. Estamos mais pobres devido a um regime ditatorial muito conservador”.

A indignação e revolta de Sahar é notória quando fala sobre o que se passa atualmente no seu país: “Quando olho para os vídeos que estão a ser publicados nas redes sociais, nem consigo acreditar que aquele é o meu país. Não consigo acreditar no que aqueles monstros estão a fazer ao meu país. Tenho vergonha do que nos fizeram, do que nos estão a fazer. Tiraram-nos a infância, impedem-nos de viver”.

Sahar

Asma conta que o regime está a bloquear o acesso à internet e a prender seja quem for pela mais pequena coisa: “Um cantor foi preso por cantar uma música, um jornalista foi preso por falar sobre um caso de corrupção”, exemplifica.

“É a pior situação da nossa História. Eles não têm medo de nada, acreditam que podem mesmo matar-nos a todos. Não têm medo de nos matar. E ninguém diz nada. A sua propaganda é muito forte. Antes dos protestos, creio que ninguém se apercebia sequer que o povo iraniano está contra o seu governo, que o consideramos uma ditadura. Durante anos e anos, eles têm silenciado todas as pessoas que protestam. Desta vez, queremos o nosso país de volta. Demais é demais. Já chega!”, realça Asma.

Asma

“Não é sobre religião, é sobre democracia”

Questionada sobre se é uma questão religiosa que está em jogo, Asma é perentória: “Não é sobre religião, é sobre democracia. É sobre todas as pessoas terem voz para falar. Para dizer alguma coisa. Queremos eleições livres. Queremos direitos humanos fundamentais. Queremos trabalhar”.

No Irão existem pessoas de várias religiões diferentes. E agora estão todas contra o governo. Ninguém vai perguntar de qual cidade és, ou qual é a tua religião. Ninguém te vai perguntar isso na rua. Agora estamos todos juntos a dizer que não queremos este governo”, reforça Sol.

Sahar acusa o governo iraniano “de tentar tirar vantagem da religião, instrumentalizá-la”. “Eu não estou a favor ou contra nenhuma religião, mas estas pessoas são monstros que estão a aproveitar-se do Islão”, destaca.

Sahar

Nahid, por sua vez, é clara ao identificar o alvo do descontentamento do povo iraniano: “A nossa luta é contra o regime ditatorial do Irão”. “O governo tenta convencer o mundo de que no Irão só existem muçulmanos xiitas. Não é verdade”, esclarece a jovem iraniana. Acresce que o regime “está a criar a imagem de que os iranianos e os muçulmanos querem conquistar o mundo, o que também não é verdade. A maioria dos muçulmanos só está a praticar o Islão como um pensamento, uma atitude pessoal. A maioria dos xiitas é pacífica e está a tentar ter um relacionamento amigável com todo o mundo. O povo não está à procura de nenhum conflito”, aponta Nahid. A jovem iraniana lembra ainda que “o Irão é um país muito grande e tem uma história notável com muitas religiões” e assinala que “a maior parte das pessoas do Irão não está a pensar na religião como um instrumento para governar o país”. “Queremos um governo secular que não tenha nada a ver com a religião”, remata.

“Estamos a gritar pela liberdade, pela queda do governo”

Tal como referiram as jovens iranianas que falaram com o Esquerda.net, os conflitos entre o governo iraniano e o povo do país têm um longo historial. Mas o atual movimento de protesto tem características inéditas: “Ninguém mais quer este regime”, afirma Sahar.

Todas as pessoas estão fartas da ditadura”, confirma Nahid. “Há gente de todo o lado, até muitas celebridades, que estão a apoiar e a dar-nos voz. Estamos a gritar pela liberdade, pela queda do governo. É a primeira, segunda e terceira reivindicação do povo iraniano. Estamos a pedir direitos fundamentais, direitos básicos que todas as pessoas no mundo devem ter. Infelizmente, o povo iraniano, ao contrário do que aconteceu em Portugal, não está a conseguir fazer uma revolução sem sangue, e sem custar muitas vidas”, lamenta Nahid.

Nahid e Asma

Para Tina, a “grande diferença”, reside no facto de o povo iraniano exigir agora massivamente a queda do governo: “Já são 43 anos de opressão. Antes estávamos a falar de reformas, agora não. Agora falamos em livrar-nos deste regime, já ninguém o quer. Todas as províncias estão a aderir aos protestos, incluindo as cidades sagradas, como Mashhad. Até os conservadores estão a dizer que o hijad não deve ser obrigatório”. Tina não tem dúvidas de que “já não é possível recuar”: “Mesmo que eles consigam controlar os protestos, isto é apenas o início. As pessoas não vão tolerar mais este regime e vai haver uma mudança”, assegura.

Sol tem a certeza de que é possível fazer cair o regime iraniano: “Há muito tempo que as pessoas estão contra o governo. Mas, desta vez, a contestação é mais forte, porque agora todas as pessoas sabem o que está a acontecer no Irão. E, em todo o mundo, estão a apoiar-nos. O povo iraniano está zangado com o governo. Já chega”, realça.

Sol

Sahar enfatiza ainda que “esta é a primeira vez que o mundo está a ouvir a voz do povo iraniano, o que significa que o que era impossível, é possível”. A jovem iraniana deixou o seu país para ser a voz dos 90 milhões de pessoas que ainda estão no Irão. “Saí do meu país para ser a sua voz, para que as pessoas percebam que o Irão é o Irão, não é o regime da república islâmica. Não somos terroristas, eles são os terroristas, e vocês devem temê-los”, vinca.

“Temos de mostrar ao mundo que o povo tem mais poder”

As jovens iranianas apelam ao apoio da comunidade internacional. Nahid, Sol, Sahar, Asma e Tina lembram que todas e todos nós podemos dar eco às vozes das pessoas oprimidas no Irão utilizando a hashtag #MahsaAmini para manter os protestos vivos nas redes sociais, divulgando informações e imagens sobre o que se passa no país. E que podemos também pressionar os nossos representantes para que condenem abertamente as violações dos direitos humanos no Irão.

Segundo Nahid, o protesto de 1 de outubro teve como objetivo “chamar a atenção dos governos, da União Europeia e das Nações Unidas, para que deixem de negociar com um regime ditatorial”. “Mais cedo ou mais tarde este regime vai cair, e agora é o momento para os governos dos outros países ficarem ao lado do povo iraniano, em vez de apoiarem o regime ditatorial. Se não tivermos esse apoio já, o governo iraniano vai matar mais pessoas. Deixem de pensar nos seus benefícios com o regime ditatorial, eles vêm em detrimento dos direitos e das vidas do povo iraniano”, adverte.

A quem só está interessado em retirar recursos do Irão, como gás e petróleo, Sahar deixa uma mensagem clara: “Procurem o pouco de humanidade que ainda existe em vós. Temos petróleo, gás, recursos para o mundo todo. Não matem o nosso povo por isso. Dar-vos-emos os recursos quando este governo cair. Ajudem-nos a fazê-lo cair”.

Sahar, bem como Asma, lamentam que o “presidente criminoso do Irão” tenha ido às Nações Unidas falar sobre direitos humanos e que o presidente francês lhe tenha apertado a mão. “Por favor! Por que razão deixaram-no sequer entrar? Acordem! Toda a gente tem de acordar! Chega de ditaduras. Temos de mostrar ao mundo que o povo tem mais poder. Este é o tempo de mudar!”, sublinha Sahar.

Presidente iraniano Seyyed Ebrahim Raisi a discursar nas Nações Unidas a 21 de setembro de 2022.

Recordando que, durante 43 anos, “ninguém fez nada”, Asma esclarece que não quer que invadam ou promovam uma guerra contra o Irão: “Não estou a dizer que deve ser promovido um ataque contra o meu país. Não é nada disso. Não quero uma guerra no meu país, não quero que nos dividam. Mas a comunidade internacional pode pressioná-los”.

Tina dá exemplos concretos do que pode ser feito:A comunidade internacional pode levá-los ao tribunal dos direitos humanos, congelar as suas contas, aplicar sanções individuais, e não ao país todo, que só penalizam o seu povo. Imponham sanções a quem está a apoiar o regime. Congelem os seus pertences no estrangeiro. Todos eles têm contas bancárias e negócios no exterior. Retirem-lhes os vistos, enviem-nos para casa. Expulsem os embaixadores dos vossos países. Cortem todas as relações com a república islâmica do Irão”, defende. No caso de Portugal, o governo de António Costa é diretamente exortado a expulsar de imediato o embaixador do Irão.

A ativista iraniana explica que “eles têm de ficar isolados para que o povo possa erguer-se e traçar o seu destino”. “Negociar com o regime iraniano sobre armas nucleares é, na realidade, apoiá-lo. É dar-lhe dinheiro para não desenvolver armas nucleares. Esse dinheiro não vai para o povo, apenas para o regime islâmico”, remata.

Asma alerta para o facto de o regime estar a cortar o acesso à internet: “As pessoas estão a perder a esperança porque não conseguem ver nada. Não conseguem comunicar, não conseguem ter notícias sobre o que se passa cá fora. Estamos a perder a comunicação com as nossas famílias. Não podemos falar com eles, não sabemos o que se está a passar. Temos amigos que foram presos e não sabemos onde eles estão. E o regime pode fazer isso porque ninguém os responsabiliza, ninguém pergunta por que razão estão a fazê-lo”.

Asma, com a voz embargada, evoca um momento que paira nas memórias de todas aquelas e todos aqueles que engrossam neste momento os protestos no Irão: Em 2019, tal como agora, “o regime iraniano cortou o acesso à internet para poder matar as pessoas silenciosamente”. À época foram assassinadas 1500 pessoas.

Ver aqui fotogaleria da Manifestação de solidariedade com as mulheres no Irão

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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