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Hungria: Há contos de fadas inclusivos a perturbar o regime

“Um conto de fadas para toda a gente” é uma antologia de 17 contos tradicionais adaptados para apresentarem heróis que não costumam protagonizar histórias infantis. Procura mostrar a diversidade humana. Chocou o regime de Orbán e os seus apoiantes e tornou-se alvo de perseguição.
Pormenor da capa do livro Meseorszag mindenkie.
Pormenor da capa do livro Meseorszag mindenkie.

Conseguimos imaginar uma Cinderela cigana? É isso e muito mais que nos traz Meseorszag mindenkie, “Um conto de fadas para toda a gente”. Trata-se de uma antologia de contos tradicionais recriados, publicada a 21 de setembro passado na Hungria. A tiragem inicial era de 1.500 cópias e os autores não esperavam grande sucesso num país dominado pelo conservadorismo. Enganaram-se. O seu livro tornou-se um caso sério no debate político e cultural do seu país.

Dorottya Redai e Boldizsar Nagy pretendiam pegar nos contos tradicionais e atualizá-los de forma a serem protagonizados por personagens mais diversas e inclusivas para “mostrar às crianças quão colorida e maravilhosa a vida é”, afirma Nagy à Time. A ideia de tolerância estava na base do projeto de dar voz a minorias marginalizadas. E a diversidade sexual marcava presença com personagens homossexuais, transgénero e não binárias, por exemplo.

“Propaganda homossexual” reagiu a extrema-direita húngara. E até o primeiro-ministro Viktor Orbán se juntou ao coro, chamando-o “um ato de provocação”. Mas não foi o primeiro. A deputada Dóra Dúró, vice-presidente do partido Nossa Pátria, terá sido a figura política pioneira da campanha de perseguição ao livro: rasgou-o publicamente e passou-o por uma trituradora de papel, classificando-o como “um ataque contra a cultura magiar”. Depois disso, houve uma petição assinada por 87 mil pessoas a exigir que a obra seja retirada de circulação, um grupo impediu uma apresentação pública do livro, várias livrarias se queixaram de assédio por terem o livro à venda e houve autarquias a lançar proibições a que o livro possa ser recomendado aos alunos.

A mobilização da extrema-direita é sobretudo homofóbica. Mas na obra as temáticas LGBT apenas estão presentes em quatro das histórias. Nele também se encontram pessoas em situação de pobreza, com diversidade funcional, idosas, em “situações de vida raramente exploradas na literatura para crianças” ou que afrontam os lugares-comuns típicos como “rapazes que podem ser sensíveis e cozinhar, mulheres de combate que podem derrotar gigantes ou dirigir um império” sublinha Nagy, em declarações retomadas pela Slate.

A mesma revista dá conta que um coletivo de psicólogos húngaros redigiu uma carta aberta, apoiada por mais de mil especialistas, salientando que “a importância e originalidade” da antologia “reside na sua diversidade”, avaliando-o como crucial “porque apresenta às crianças heróis da sua idade tão diversos como elas” e como “um excelente instrumento de sensibilização para as crianças”.

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