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Há uma crise global de dívida a aproximar-se?

O IIF reconhece que a dívida mundial aumentou em 21 biliões de dólares em 2017, chegando a um total de 237 biliões. É verdade que grande parte dessa dívida adicional se deve à China, mas outras economias emergentes não estão tão bem preparadas. Por Michael Roberts.
A dívida mundial aumentou em 21 biliões de dólares em 2017, chegando a um total de 237 biliões
A dívida mundial aumentou em 21 biliões de dólares em 2017, chegando a um total de 237 biliões

A Argentina pediu um resgate ao Fundo Monetário Internacional (FMI) depois de uma série de situações drásticas que levaram a uma forte queda do valor do peso, empurrando o país para uma crise financeira preocupante. O presidente Mauricio Macri, representante da direita neoliberal no seu país, decidiu recorrer ao Fundo, em medida anunciada na rede nacional de televisão, afirmando que a assistência internacional permitirá ao governo “evitar uma crise como as que se enfrentaram antes”. Pedir dinheiro ao FMI significará mais austeridade fiscal e um golpe nos níveis de vida de grande parte da população. Segundo um investidor estrangeiro, “a medida mais efetiva seria restringir os aumentos salariais”.

Nas últimas semanas, o governo de direita da Argentina viu-se obrigado a elevar a sua taxa de juros política (a que estabelece a base de todas as taxas de crédito) de forma dramática, saindo de uns já elevados 27% em abril para 40% desde a semana passada. Em janeiro, o Banco Central argentino tinha experimentado a redução da sua taxa de juros, mas a medida não durou muito. Por quê? Três foram as razões.

Em primeiro lugar, devido aos investidores estrangeiros - que são a grande aposta das políticas de austeridade, embora a sua presença seja mais favorável às empresas que apoiam o governo de Macri -, preocupados com a inflação que se mostrava fora de controle, e que por isso começaram a retirar o seu capital do país. O próprio governo admitiu que a inflação tinha aumentado 15% este ano. O peso argentino, a partir de então, começou a desvalorizar-se em relação ao dólar.

Desvalorização do peso em relação ao dólar

Em segundo lugar, o preço do dólar na Argentina começou a dar saltos desde o começo deste mês, devido ao temor de uma guerra comercial internacional, que sempre empurra os investidores à busca de um “refúgio seguro” em dólares, e porque a Reserva Federal dos Estados Unidos está a pressionar com o aumento da sua taxa política, fazendo com que os investimentos em divisas de outros países sejam menos atraentes para os especuladores.

Em terceiro lugar, houve um forte aumento do preço do petróleo bruto, em consequência dos esforços para encarecer o barril por parte do cartel da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo) no Médio Oriente e das crescentes tensões políticas entre os Estados Unidos e o Irão. Isso significa custos adicionais de importação de energia para muitas economias como a Argentina, a Turquia e a África do Sul.

As economias com grandes défices comerciais, alta inflação e aparentemente pouco controle sobre a sua despesa pública - e, sobretudo, altos níveis de dívida - são as mais vulneráveis à fuga de capitais dos investidores estrangeiros, e quanto a isso citamos os mesmos exemplos: Argentina, Turquia, África do Sul, e outros países emergentes.

A desvalorização do peso argentino alcançou um valor mínimo histórico, provocando uma inflação ainda maior, e o preço dos títulos do governo caíram violentamente. Só no ano passado, o governo de Macri emitiu um título a 100 anos, confiando em que o entusiasmo pelo fim da administração reformista kirchnerista de esquerda, depois de 12 anos de governo, daria lugar a uma avalanche de procura externa. O valor acabou por se reduzir atualmente a 83 centavos por dólar. Como o governo oferece mais de 6% de juros para esse título, em comparação com pouco menos de 3% para os títulos “seguros” dos Estados Unidos, o governo tem esperança de travar a saída de capitais. O Banco Central derreteu 5 mil milhões de dólares das suas reservas de divisas numa semana para conter o desastre, e promulgou três aumentos de choque na taxa de juros, tentando salvar o valor do peso.

Contudo, o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos ameaça deixar muitas economias emergentes, e inclusive alguns setores empresariais, em novas dificuldades. Muitos vêm pedindo dólares emprestados para cobrir os seus défices, para investir ou especular, e agora o custo da dívida deverá subir. A Turquia está com sérios problemas. A lira turca, assim como o peso argentino, está a desvalorizar-se fortemente, apesar da intervenção do Banco Central do país. O rendimento dos títulos denominados em dólares subiu para novos máximos posteriores à crise e o mercado de valores caiu este ano em 22%, o pior rendimento de qualquer bolsa de valores no mundo - com exceção da Venezuela. Se o Banco Central turco aumentar as taxas, como foi feito na Argentina, corre o risco de causar danos graves à economia local.

O maior perigo no horizonte é o facto de o aumento progressivo das taxas de juros por parte da Reserva Federal poder provocar uma crise das dívidas, sobretudo nas chamadas economias emergentes, já que os níveis de dívida estão a alcançar patamares recorde nesses países. Também há o facto de a dívida global estar num máximo histórico, porque os governos e as grandes empresas se endividaram muito a taxas baixas, com o fim de estabilizar o sistema bancário e impulsionar os mercados de valores.

O Instituto de Finanças Internacionais (IIF), com sede em Washington, sustenta que, além da Argentina e da Turquia, outros países como a Ucrânia e a África do Sul são relativamente vulneráveis a uma forte guinada do “apetite de risco” dos investidores estrangeiros. (veja o gráfico abaixo)

Países com maior risco

O IIF reconhece que a dívida mundial aumentou em 21 biliões de dólares em 2017, chegando a um total de 237 biliões. É verdade que grande parte dessa dívida adicional se deve à China, e que se trata de uma economia muito mais capaz de administrar essa dívida. A maior parte dela é em moeda local, não em dólares e a China tem enormes reservas de divisas em dólares (3 biliões, pelo menos), o que proporciona uma segurança diante de qualquer possibilidade de colapso.

Mas outras economias emergentes não estão tão bem preparadas. A dívida em dólares e euros desses países supera os 8 biliões, ou seja, 15% da dívida total. Só a dívida da Argentina está em mais de 60% nas mãos de estrangeiros, enquanto a da Turquia tem mostrado um dos maiores aumentos desde o final da Grande Recessão, em 2009.

Países com mais elevada percentagem de dívida na posse de estrangeiros

À medida que as taxas de juros aumentam para esta dívida, o seu pagamento torna-se mais difícil. Segundo o IIF, as empresas com “problemas” representam atualmente mais de 20% dos ativos empresariais em países como Brasil, Índia e Turquia, e as empresas cujos lucros são maiores que os custos dos juros são cada vez menos. “Apesar das baixas taxas globais, muitas entidades não financeiras estão a ter problemas com o pagamento de dívidas”, aponta o IIF. Na Argentina, as taxas de juros para as empresas menores situam-se acima de 15%. “As empresas estão a queimar o seu capital disponível, e desde então já não podem obter um financiamento racional”, afirma o instituto. “As grandes empresas, com acesso fácil ao financiamento internacional, estão em melhor posição, mas as médias e pequenas empresas estão com muitos problemas”, conclui um analista ligado ao IIF.

A crise virá quando os lucros das grandes empresas começarem a cair em muitas economias, à medida que os custos com o serviço da dívida aumentarem. A minha última estimativa dos lucros empresariais globais - sobre a base de uma média ponderada dos lucros nos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Japão e China -, mostrou uma queda no último trimestre de 2017, pela primeira vez desde meados de 2016. Resta saber como foram os resultados no primeiro trimestre de 2018.

Lucros empresariais globais

Texto de Michael Roberts, economista marxista britânico e analista económico, publicado no blogue The Next Recession. Tradução para português de Carta Maior, revisão para português de Portugal de Carlos Santos para esquerda.net

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