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A guerra na Etiópia ameaça desestabilizar toda a região

Existe o risco de o país ser engolido pelas chamas. E um agravamento do conflito poderia levar à fuga de um número considerável de etíopes para os países vizinhos que já enfrentam sérias dificuldades económicas e políticas. Por Brendon Novel.
Tropas no Tigray. Foto de @justiceforTigrai.
Tropas no Tigray. Foto de @justiceforTigrai.

A guerra civil que dura há um ano na Etiópia escalou em Novembro quando o Primeiro-Ministro Abiy Ahmed anunciou a sua intenção de se juntar ele próprio à linha da frente para reprimir os insurgentes do Tigray. O laureado com o prémio Nobel da Paz de 2019, apelou aos etíopes para "empurrar para trás e enterrar os terroristas da Frente Popular de Libertação do Tigray (FPLT)". O Canadá, junto com outros países, exortou os seus cidadãos a deixar a Etiópia.

Até agora, este conflito custou vários milhares de vidas e deslocou dois milhões de pessoas. Diz-se que meio milhão de pessoas estão em risco de morrer à fome e há sinais crescentes de limpeza étnica.

O conflito armado eclodiu em Novembro de 2020 quando o governo etíope enviou o exército federal para o Tigray. As autoridades regionais tinham aí organizado eleições que foram inicialmente adiadas pelo governo central. Desde então, a FPLT recuperou o controlo da maior parte do território e continuou a avançar moutras regiões do país.

As Forças de Defesa Tigrínias (FTD) – filiadas na FPLT – obtiveram recentemente importantes vitórias militares nas províncias de Amhara e Afar, no sul do Tigray. Aproximam-se assim inexoravelmente da capital, Adis Abeba.

Como estudante de doutoramento em Ciência Política, estou interessado nas questões de segurança no Corno de África. Atualmente, todos os observadores perguntam se as forças do Tigray chegarão às portas da capital para retirar Abiy Ahmed do cargo. Os riscos que este conflito devastador representa para a região devem, portanto, ser examinados.

A questão do Tigray

Os tigrínios constituem apenas 6-7% da população. No entanto, chegaram ao poder na Etiópia no início da década de 1990. Estabeleceram uma estrutura etno-federalista que deveria permitir um certo grau de autonomia para os diferentes grupos étnicos do país.

Desde que se tornou primeiro-ministro em 2018, Abiy Ahmed tem-se oposto a este quadro institucional. Ele defende um forte poder central e esforça-se por marginalizar os tigrínios.

Quando a guerra eclodiu, há um ano, as Forças de Defesa Nacional etíopes conseguiram inicialmente derrotar os insurretos. Mas na Primavera passada, o FDT recuperou o controlo do Tigray, incluindo a seu capital, Mekele.

Sitiadas desde então por tropas pró-governamentais, as FDT – incitadas pelos seus ganhos territoriais no Tigray – decidiram prosseguir a sua ofensiva mais a sul nas regiões de Amhara e Afar. Em particular, estão a tentar apropriar-se do corredor do Djibuti, através do qual quase 95% das importações e exportações etíopes transitam.

Tensões com o Sudão

Já em Dezembro de 2020, o exército sudanês aproveitou a situação para obter o controlo de Al-Fashaga, um território fronteiriço fértil disputado desde há muito tempo. Situado no noroeste do país, as forças etíopes aí levaram a cabo uma retaliação com um balanço mortífero. Apesar dos apelos da comunidade internacional para haver uma desescalada, a situação permanece hoje muito tensa. Em Agosto passado, o Sudão retirou o seu embaixador em Adis Abeba, pela segunda vez este ano.

As autoridades etíopes também se queixaram da utilização dos campos de refugiados tigrínios como bases de retaguarda dos insurretos. Os rebeldes poderão, para além disso contornar o cerco das forças pró-governamentais recuperando o controlo da zona fronteiriça com o Sudão. Neste caso, Adis Abeba poderia ver Cartum como um verdadeiro apoiante da insurreição, o que iria agravar ainda mais a sua relação.

A Barragem da Renascença

É preciso lembrar que a situação está a deteriorar-se no contexto do conflito sobre a enorme barragem etíope que está a ser construída sobre o Nilo. Este projeto ameaça a segurança alimentar do Sudão e do Egito. Nenhum dos países conseguiu chegar a um acordo com o governo etíope, cuja retórica nacionalista, desde o início do conflito no Tigray diminuiu ainda mais as hipóteses de compromisso. O Cairo e Cartum não excluem o uso da força.

O golpe militar no Sudão, a 25 de Outubro, não deverá alterar a posição das autoridades sobre estas questões. De facto, pode até endurecer à medida que o general Abdel Fattah Al-Burhan, o homem forte do país, procura consolidar o seu poder.

A paz com a Eritreia sob ameaça

Se o regime cair, o acordo de paz de 2018 entre a Etiópia e a Eritreia poderá ficar comprometido. Os tigrínios, no comando de Adis Abeba de 1991 a 2018, combateram a Eritreia durante muito tempo até serem afastados do poder por Abiy Ahmed.

As forças eritreias estiveram fortemente envolvidas com as forças pró-governamentais contra a insurreição até ao Verão passado e foram culpadas de graves abusos. No entanto, retiraram-se gradualmente mais para norte após o FTD ter recuperado o controlo de quase todo o Tigray.

Ameaça de instabilidade crescente na Somália

A Somália já sofre de uma situação política e de segurança complicada que poderia ser exacerbada pela guerra na Etiópia.

Para lidar com a insurreição na Somália, Abiy Ahmed pode decidir repatriar parte do contingente etíope da Missão da União Africana na Somália (AMISOM). Isto iria sem dúvida complicar a luta contra o grupo terrorista Al-Shabaab que controla uma grande parte do país.

Enquanto o Exército Nacional da Somália tem dificuldade em se reconstruir, a ONU também relatou que milhares de soldados somalis, treinados na Eritreia, têm estado a lutar no Tigray.

Menos cooperação securitária com a Somalilândia

Considerada parceira fiável na luta contra o terrorismo, a Somalilândia (localizada no noroeste da Somália) há muito que goza de uma parceria privilegiada com a Etiópia, desde a sua autoproclamada, mas não reconhecida, independência, em 1991.

Ainda assim, a proximidade de Abiy Ahmed ao governo central da Somália, desde 2018, reduziu o nível de cooperação com a Somalilândia. E a guerra no Tigray diminuiu-a ainda mais, nomeadamente no plano securitário.

Segundo algumas fontes, este conflito já resultou num aumento do tráfico de armas através deste Estado de facto. Algumas destas armas foram desviadas para grupos terroristas.

Impotência da "comunidade internacional"

Embora tenham sido cometidos abusos por todos os lados, o governo de Abiy Ahmed parece particularmente determinado a utilizar todos os meios possíveis para "esmagar" a insurreição do Trigay, mesmo que isso signifique ser culpado de genocídio.

Apesar das sanções económicas e das tentativas de diálogo, nomeadamente iniciadas por Jeffrey Feltman, o enviado especial americano para o Corno de África, o regime etíope continua determinado.

Enquanto a repressão contra os tigríanos suspeitos de ligações à insurreição parece estar a intensificar-se, particularmente em Adis Abeba e na região de Amhara, os esforços da comunidade internacional – incluindo a União Africana – parecem estar mais do que nunca num impasse.

Existe, portanto, o risco de o país ser engolido pelas chamas. Um agravamento do conflito poderia levar à fuga de um número considerável de etíopes para os países vizinhos, que já enfrentam sérias dificuldades económicas e políticas.


Brendon Novel é doutorando em Ciência Política pela Universidade de Montreal.

Publicado no The Conversation. Traduzido por António José André para o Esquerda.net.

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