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Guerra Colonial: Mais de oito mil jovens desertaram

O número de militares que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil, segundo uma investigação dos historiadores Miguel Cardina e Susana Martins que vai ser apresentada num colóquio no próximo dia 27, em Lisboa.
Segundo os autores do estudo, a deserção da guerra entrecruza-se com a emigração devido à falta de perspetivas de futuro

“Este número, baseado em fontes militares, é um número que peca por defeito e refere-se ao período entre 1961 e 1973. É bastante acima de oito mil e é um número importante porque, até agora, não tínhamos dados sobre o pessoal já incorporado”, disse à Lusa Miguel Cardina, historiador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e um dos autores da análise histórica sobre a deserção da guerra colonial que será apresentado na próxima quinta-feira, dia 27, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

“Tínhamos algumas referências a números mas eram parcelares e faziam eco de um certo tipo de deserções. O que nós vamos mostrar é que a deserção é um fenómeno mais complexo do que aquilo que se considerava”, afirmou Miguel Cardina.

Os historiadores do CES vão apresentar os dados finais do estudo no colóquio intitulado “O (as)salto da memória: histórias, narrativas e silenciamentos da deserção e do exílio”.

 Desertores, refratários e faltosos

De acordo com os investigadores, o número definitivo do novo estudo sobre militares que desertaram da guerra colonial “pode pecar por defeito” uma vez que ainda não é possível contabilizar os dados referentes a todos os territórios e o estudo tem como base apenas fontes do Exército.

De acordo com Miguel Cardina, para compreender o fenómeno da recusa de ir à guerra, além dos militares que desertaram, é preciso também considerar os refratários, ou seja, jovens que faziam a inspeção mas que fugiam antes da incorporação e os faltosos, que nem sequer faziam a inspeção militar.

“Temos dados que indicam que entre 1967 e 1969 cerca de dois por cento dos jovens que são chamados à inspeção foram refratários”, afirmou Cardina, tendo acrescentado que “este número é certamente superior ao número dos desertores”.

“Os faltosos são aqueles que nem sequer se apresentam à inspeção. Dados de 1985 do Estado-Maior do Exército indicam que cerca de 200 mil terão abandonado o país. Na década de 1970, cerca de vinte por cento dos jovens que deveriam fazer a inspeção já não se encontravam no país”, explicou o historiador.

Para Miguel Cardina, o “processo de afastamento e fuga” da estrutura militar deve ser estudado com profundidade e, por isso, o estudo começa pelos desertores - porque não existiam números conhecidos até ao momento - mas referiu que é necessário considerar as outras categorias: os refratários e os faltosos.

“Temos de colocar estas três categorias na mesma equação, sabendo que elas são diferentes e têm uma ligação com o fenómeno da guerra, também ela diferente. É natural que, no quadro dos faltosos, a guerra possa estar presente mas não tem o mesmo peso que tem nos refratários e também nos desertores”,referiu.

O fenómeno migratório

Para Miguel Cardina, o “fenómeno dos faltosos” cruza-se com o fenómeno da emigração, sendo que uma boa parte destes jovens não estavam a “fugir da guerra” mas também da falta de perspetivas de futuro, ou seja, “a guerra podia ser” uma das motivações para a decisão de seguir os caminhos da emigração.

A primeira conclusão do estudo indica, sobretudo, que a guerra colonial tem ainda aspetos de natureza historiográfica que é preciso aprofundar e torna evidente que a temática do exílio, da deserção e da recusa da guerra precisa de ser estudada.

De acordo com o investigador, a ação do Movimento das Forças Armadas (MFA), em 1974, “é sem dúvida central” embora o processo revolucionário que acontece logo a seguir só pode ser compreendido se tivermos em conta que havia forças políticas e sociais que vinham a construir uma outra forma de olhar o país e a construir uma contestação à ditadura e à guerra colonial.

Em relação aos os militares que desertaram, Miguel Cardina indicou que “todas as histórias de fuga são individuais” e, desta forma, devem ser tidos em conta os portugueses que vão para a África e que desertam das colónias, refugiando-se em Argel ou na Europa, assim como os africanos incorporados nas forças portuguesas.

Miguel Cardina disse ainda que, nos últimos anos da guerra colonial, há um fenómeno de africanização das tropas, “porque havia pouca gente e, por isso, havia necessidade de soldados para a guerra”, verificando-se que muitos africanos incorporados na tropa portuguesa constituem, em muitos casos, um fluxo específico de deserção.

Os historiadores do CES vão apresentar os dados finais do estudo no colóquio intitulado “O (as)salto da memória: histórias, narrativas e silenciamentos da deserção e do exílio”, organizado pela Associação dos Exilados Portugueses (AEP61-74), Centro de Documentação 25 de Abril, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) e Instituto de História Contemporânea (IHC).

Além de de Miguel Cardina e Susana Martins, a iniciativa contará com a presença, entre outros, de Rui Bebiano, do Centro de Documentação 25 de Abril, de Victor Pereira, da Universidade francesa de Pau e dos historiadores Sónia Ferreira, Cristina Santinho, Sónia Vespeira de Almeida, Cristina Santinho e Irene Pimentel.

Divulgação de material inédito

Entretanto, o Centro de Documentação 25 de Abril está a preparar documentação inédita sobre desertores da Guerra Colonial para divulgar durante o colóquio.

Em declarações à Lusa, o historiador e diretor do Centro de Documentação 25 de Abril, Rui Bebiano, disse que “são documentos, muitos deles pessoais e de organizações que se destinavam a apoiar politicamente e pessoalmente os desertores, e que não são conhecidos".

Partida de militares para África

Muitas destas organizações resultaram de circunstâncias que já passaram e que só existiram enquanto foram necessárias”, referiu.

A divulgação inicial de material respeitante à deserção da Guerra Colonial (1961-1975), através do site do Centro de Documentação 25 de Abril, está integrada nos trabalhos do colóquio e organiza documentos pessoais e de material de países estrangeiros que apoiavam os movimentos de libertação nas antigas colónias portuguesas, assim como os militares que decidiram desertar.

“Nós temos o espólio de organizações de apoio aos desertores na Suécia, na Holanda e em França e temos materiais que nos foram cedidos por exilados e desertores, e é isso que vamos apresentar nesta exposição virtual”, sublinhou Bebiano.

O diretor do Centro de Documentação 25 de Abril vai igualmente fazer uma comunicação que levanta a interrogação sobre se os desertores da Guerra Colonial foram heróis ou traidores.

 

 

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