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Governo britânico anuncia borlas fiscais aos ricos e enfrenta crise cambial

O governo de Liz Truss vai avançar com cortes dos impostos que beneficiam sobretudo os mais ricos. Redução da receita fiscal obriga a mais endividamento e os especuladores financeiros arrecadam milhões com o ataque à libra.
Primeira-ministra Liz Truss e o ministro das Finanças Kwasi Kwarteng. Foto Rory Arnold / No 10 Downing Street/Flickr

Na semana passada, a nova primeira-ministra do Reino-Unido, Liz Truss, anunciou o maior corte de impostos no país desde 1972. Em linha com uma das suas principais promessas eleitorais, Truss apresentou as primeiras medidas económicas, que incluem a redução da taxa de imposto sobre o escalão de rendimentos mais elevado (de 45% para 40%), bem como a redução das taxas pagas na compra de casas e a reversão dos planos do anterior governo para aumentar os impostos sobre as empresas. Outra medida do mini-Orçamento apresentado pelo ministro das Finanças Kwasi Kwarteng foi o fim dos tetos ao valor dos bónus pagos aos banqueiros. O custo total das medidas será de 45 mil milhões de libras.

“Temos de tomar decisões difíceis para endireitar a nossa economia”, explicou a primeira-ministra britânica, que disse ainda que o objetivo passa por “incentivar as empresas a investir e ajudar as pessoas normais a pagar os seus impostos”. No entanto, a verdade é que o corte de impostos é direcionado para os mais ricos do país, que vão arrecadar a fatia de leão dos benefícios.

O corte de impostos insere-se na visão de mercado livre da nova primeira-ministra, inspirada pela antecessora Margaret Thatcher, segundo a qual a redução dos impostos sobre os mais ricos estimula o investimento e o empreendedorismo e acaba por beneficiar toda a gente. Truss admite que “quando cortamos os impostos, há um benefício desproporcional” para os mais ricos, mas defende que “devemos definir a nossa política fiscal com base no que vai ajudar o nosso país a ter sucesso - o que vai trazer uma economia que beneficia toda a gente no nosso país”.

Só que não é isso que a história nos mostra. Um estudo publicado por dois economistas da London School of Economics e de King’s College, que analisa os cortes de impostos sobre os mais ricos em diversos países ao longo dos últimos 50 anos, conclui que estes não promoveram o crescimento económico, limitando-se a acentuar as desigualdades.

Libra colapsa enquanto alguns fundos de investimentos lucram

Em consequência do anúncio do governo britânico, a libra caiu para o valor mais baixo desde 1985, passando a valer 1,09 dólares norte-americanos, e o mercado bolsista também teve uma quebra significativa. A interpretação da maioria dos analistas foi a de que os mercados não gostaram da nova política, uma vez que vai reduzir a receita fiscal e pode pôr em causa a capacidade de o Estado pagar as suas dívidas.


O valor de 1 libra em dólares ao longo dos anos. Gráfico Guardian.

No entanto, não é certo que a queda da libra seja prejudicial para o governo. O economista Adam Tooze considera que o que pode estar em causa é uma “aposta irresponsável para encolher o Estado”. Embora o governo esteja a aumentar a despesa com apoios às famílias e a reduzir a receita, o ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, continua a prometer um orçamento equilibrado. Tooze diz que esta é uma estratégia típica da direita: cortar impostos, reduzir a receita do Estado e em seguida explica que são necessários cortes significativos nos serviços públicos. A pressão dos mercados financeiros é um argumento extra para justificar esta política.

Entretanto, alguns fundos de investimento parecem ter obtido enormes ganhos por terem apostado contra a libra nos mercados financeiros. A imprensa britânica avança a possibilidade de se abrir uma investigação judicial, devido às ligações existentes entre os gestores dos fundos e os membros do governo e a hipótese de os primeiros terem tido acesso a informação privilegiada.

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