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Globalização, a última festa

A reunião semianual do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em Washington, na semana passada, poderá passar à história como o velório da globalização neoliberal. Por Alejandro Nadal
Jim Yong Kin, presidente do Banco Mundial, e Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, no encontro anual de 2016 das duas instituições - Foto Banco Mundial/flickr
Jim Yong Kin, presidente do Banco Mundial, e Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, no encontro anual de 2016 das duas instituições - Foto Banco Mundial/flickr

Como nessas ocasiões, os discursos em memória do defunto sucedem-se como coleções de aborrecidos panegíricos fúnebres. Mas, apesar dos esconjuros pronunciados sobre os despojos mortais da globalização neoliberal, o cadáver insepulto não quis ressuscitar.

Ministros de finanças e governadores de bancos centrais tiveram que enfrentar uma longa série de indicadores macroeconómicos negativos. Não surpreende que as estimativas sobre o crescimento global feitas pelo Banco Mundial se situem na faixa dos 2 por cento. Provindo de alguém tão tendencioso a favor dos benefícios que a globalização neoliberal atrairia, esses dados constituem um sinal de que as coisas não andam bem na economia mundial. Outro indicador contundente é que as economias dos chamados mercados emergentes terão taxas de crescimento de 0,4 por cento devido ao colapso no preço das matérias primas. Ou seja, estamos no meio da estagnação.

Para começar, a Organização Mundial de Comércio (OMC) revelou que o comércio internacional crescerá neste ano à mais baixa taxa desde 2007. O volume de comércio crescerá apenas 1,6 por cento. Esse anúncio fere também o ponto de honra da OMC, porque em abril deste ano a sua previsão de crescimento era de 2,8 por cento. E dentro deste panorama desagradável sobressai um dado alarmante: as importações das 20 economias mais importantes do mundo, em proporção do seu produto interno bruto, foram reduzidas nos últimos quatro anos.

Os esforços para consolidar novos acordos comerciais para cobrir macrorregiões (como a bacia do Pacífico ou o Atlântico norte) enfrentaram obstáculos inesperados. No caso do acordo para o Atlântico norte é possível que o travão que a França impôs há um mês seja o coup de grâce [golpe de misericórdia].

O volume de investimento direto estrangeiro (IDE) nas economias mais ricas do planeta (o G-20) foi apenas de 646 mil milhões de dólares em 2015. Esse montante é 40 por cento inferior ao mais alto registado antes da crise. O risco e a incerteza continuam a ser determinantes para o IDE, mas os fluxos de capital de curto prazo (investimentos em carteira) também continuam a sofrer o impacto de um ambiente incerto e volátil.

As menores taxas de crescimento traduzir-se-ão em maior pressão sobre o mercado de trabalho e problemas nos rendimentos fiscais. O atual presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kin assinalou que o crescimento económico é o motor mais importante para a redução da pobreza. Essa declaração deve ser examinada com maior atenção, mas uma coisa é certa: o mau desempenho da economia mundial organizada ainda em torno da política económica neoliberal não significa nada de bom para a realização das metas do desenvolvimento sustentável. Assim, para o conclave de Washington a prioridade número um é promover o crescimento económico e romper este ciclo depressivo que já dura há demasiado tempo.

O que propõem os hierarcas da política económica para sair da estagnação? Um bom resumo do tipo de propostas é o que é apresentado por Agustín Carsterns, presidente do Comité Monetário e Financeiro Internacional (organismo do FMI) e governador do Banco do México. As suas recomendações reduzem-se a três. Primeiro, manter a política monetária acomodatícia nas economias avançadas. Segundo, utilizar a política fiscal quando for possível. Terceiro, continuar a avançar nas reformas estruturais. Mas a política monetária não pôde reativar o crédito devido ao excessivo endividamento. Em matéria de política fiscal a austeridade tem sido o dogma dominante. E as reformas estruturais referem-se à continuação do rumo da política neoliberal que deu como resultado a crise global. Os altos funcionários do FMI não conseguem entender a natureza da crise que hoje está a afundar a economia mundial na estagnação.

A crise deflacionária a que assistimos hoje é o resultado da poderosa inércia derivada do superendividamento que manteve artificialmente os níveis de crescimento da década anterior à crise. Os níveis de endividamento à escala macroeconómica são extraordinários e situam-se na ordem dos 225 por cento do PIB mundial. Dois terços correspondem ao setor privado (hipotecas e empréstimos das empresas). É evidente que estamos perante um círculo vicioso em que a estagnação torna difícil que os agentes paguem as suas dívidas, mas o excessivo endividamento conduz a um travão na procura e no investimento. Há que acrescentar que os episódios de volatilidade irão agravar esta situação nos próximos anos. A crise deflacionária traduz-se no que já se está a começar a chamar a Longa Depressão. Há que organizar uma última grande festa de despedida do que foi a globalização neoliberal.

Artigo de Alejandro Nadal publicado em “La Jornada” a 12 de outubro de 2016. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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