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G-20: estagnação ou crise?

A cimeira financeira do G-20 debruçou-se sobre duas coisas importantes: a falta de coordenação em matéria de política macroeconómica e as dificuldades que a economia chinesa atravessa. Por Alejandro Nadal
A cimeira financeira do G-20, realizada em Shanghai, reuniu os ministros das finanças e governadores dos bancos centrais

A cimeira financeira do G-20 que terminou no sábado passado deixou um sabor amargo na boca. O conclave reuniu os ministros das finanças e governadores dos bancos centrais do G-20. Para além do cerimonial, o G-20 debruçou-se sobre duas coisas importantes: a falta de coordenação em matéria de política macroeconómica e as dificuldades que a economia chinesa atravessa.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recomendou ao G-20 que comece a preparar um programa coordenado de estímulos para o crescimento. Mas o secretário do Tesouro norte-americano, Jack Lew, respondeu que não havia necessidade de implementar um programa anti-crise como em 2009, quando o G-20 pôs em marcha um programa coordenado de estímulos para evitar uma depressão mundial. Temos muita incerteza, disse Lew, mas não uma crise. Isto é quase o mesmo que diziam as autoridades monetárias dos Estados Unidos em finais de 2007.

O ministro alemão das finanças, Wolfgang Schaeuble, foi mais claro e insistiu que continuar a falar de mais estímulos é uma forma de distrair a atenção sobre o que realmente é preciso fazer. Como sempre, o alemão insistiu que o que realmente é urgente é pôr as contas macroeconómicas em ordem. Isto é, o que é preciso é mais austeridade.

O ministro alemão das finanças, Wolfgang Schaeuble, insistiu que o que realmente é urgente é pôr as contas macroeconómicas em ordem. Isto é, o que é preciso é mais austeridade

Todos sabemos que o que acontecer com a economia chinesa terá enormes repercussões a nível mundial. O primeiro-ministro chinês Li Keqiang fez todos os esforços para dar uma imagem de um governo que tem pleno controle sobre a situação económica. Mas a verdade é que a evolução da economia na China é um dos maiores focos de inquietação e incerteza para os investidores em todo o mundo. As medidas dos últimos meses do banco central procuraram aliviar a pressão da gigantesca bolha de endividamento de que padece a economia chinesa. Mas, no final, isso só levou a maiores níveis de endividamento e acabou por tornar mais frágil todo o sistema financeiro e bancário. O discurso de Li Keqiang não pôde contrariar os efeitos do colapso do mercado de valores na China ou as más notícias sobre o seu desempenho recente.

A economia chinesa ocupa o primeiro lugar em níveis de endividamento do setor financeiro para o período 2007-2014. Mas também ocupa o terceiro lugar no mundo em endividamento do setor empresarial e quarto no endividamento das famílias. Como assinala Amir Sufi da Universidade de Chicago, os problemas da economia chinesa vão muito além do setor financeiro, pois esse país seguiu o mesmo caminho de todas as economias capitalistas que procuram assegurar crescimento rápido: endividamento massivo para a construção e para a compra de bens de consumo duradouro. E esse processo culmina sempre, invariavelmente, em episódios crónicos de bolhas inflacionárias que ao estoirar provocam a estagnação, como hoje se observa no gigante asiático.

A China manteve durante anos um superavit na conta corrente da sua balança de pagamentos, o que em teoria lhe deveria permitir bastante mais flexibilidade. No entanto, essas reservas estão-se a evaporar a um ritmo impressionante

Muitos pensam que Pequim tem reservas suficientes no banco central para enfrentar esta crise. E é verdade que a China manteve durante anos um superavit na conta corrente da sua balança de pagamentos, o que em teoria lhe deveria permitir bastante mais flexibilidade. No entanto, essas reservas estão-se a evaporar a um ritmo impressionante (cerca de 100 mil milhões de dólares em cada mês) e claramente os três biliões de dólares que hoje o banco central tem não vão durar eternamente. Aliás, o mercado financeiro já tomou nota do ritmo a que se estão a usar as reservas do banco central e isso não deixou de ter um impacto em termos de volatilidade.

Há que notar que a conjuntura na China tem parecenças com a situação no Japão no final dos anos oitenta. Este último também manteve um superavit na conta corrente durante anos e contava com grandes reservas no final dos anos oitenta, mas isso não impediu as bolhas nos preços dos imóveis e o sobreendividamento que levou a vinte anos de estagnação. Hoje, alguns dados sobre o desempenho da economia chinesa dizem tudo. Por exemplo, o crescimento do consumo de energia elétrica passou de 25 para 15 por cento entre 2010 e 2012, mas em 2015 esse crescimento foi zero. Outro indicador alarmante é que o volume de carga movimentada na economia chinesa em 2015 teve uma queda de 11 por cento. Se se somar a tudo isto a quantidade de capacidade instalada ociosa em quase todos os ramos da indústria chinesa, a ideia de que a aterragem não vai ser suave começa a adquirir mais credibilidade. O impacto na economia global será desastroso.

Após a reunião, o FMI reduziu a sua estimativa sobre o crescimento da economia global para 2016 de 2,7 para 2,5 por cento. Mas parece que os mercados não partilham esse otimismo

Talvez a China possa manter taxas de crescimento medíocres nos próximos anos. Mas uma coisa é certa, o capitalismo na China está a transformar-se num sistema social que não se parece ao de uma economia capaz de elevar o nível de vida da maior parte da população.

A resposta do FMI não se fez esperar: após a reunião reduziu a sua estimativa sobre o crescimento da economia global para 2016 de 2,7 para 2,5 por cento. Mas parece que os mercados não partilham o otimismo do FMI.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano “La Jornada” em 2 de março de 2016. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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