You are here

Fukushima: Há 5 anos, Japão esteve à beira do abismo

Ex-primeiro-ministro Naoto Kan reconhece que o país esteve “à distância da espessura de uma folha de papel” de sofrer uma catástrofe nuclear que forçaria a evacuação de 50 milhões de pessoas.
Representante da AIEA visita a central de Fukushima em 27 de maio de 2011. Foto de IAEA Imagebank
Representante da AIEA visita a central de Fukushima em 27 de maio de 2011. Foto de IAEA Imagebank

Em entrevista ao diário britânico The Telegraph, o ex-primeiro ministro do Japão Naoto Kan reconheceu pela primeira vez que frente ao desastre da central nuclear de Fukushima, com o perigo iminente de explosão de um dos seis reatores nucleares, chegou a considerar a possibilidade de decretar a evacuação da capital, Tóquio, e de todas as áreas dentro de um perímetro de 250 quilómetros do local conflagrado. “A existência futura de todo o Japão estava em jogo”, disse, acrescentando que “um acontecimento dessa escala, a evacuação de 50 milhões, teria sido como perder uma grande guerra.”

Naoto Kan recorda o “arrepio na espinha” que sentiu quando soube que a central nuclear estava sem energia elétrica e que o sistema de refrigeração dos reatores deixara de funcionar.

Naoto Kan recorda o “arrepio na espinha” que sentiu quando recebeu a informação de que a central nuclear, afetada pelo terremoto e tsunami, estava sem energia elétrica e que o sistema de refrigeração dos reatores deixara de funcionar. E das dificuldades que teve para obter informação fidedigna e da confusão em que o governo mergulhou. “De 11 de março, quando ocorreu o incidente, até o dia 15, os efeitos [da contaminação radioativa] estavam a a expandir-se geograficamente”, recorda Kan. "De 16 a 20, conseguimos deter o avanço da radiação, mas a margem de que dispúnhamos era da largura de uma folha de papel. Se os tambores de combustível de todos os seis reatores tivessem derretido, Tóquio seria sem dúvida afetada.”

A catástrofe maior foi evitada com o bombeamento de água do mar para refrigerar os reatores, mas o gestor da central, Masao Yoshida, disse mais tarde ter pensado em fazer hara-kiri (um suicídio ritual) em desespero por não conseguir controlar a situação.

Acidente ainda está a decorrer”

Mesmo assim, foi necessário evacuar 400 mil pessoas dos arredores da central, num perímetro de 20 quilómetros, que se mantém até hoje uma zona proibida. E, na opinião de Kan, o acidente nuclear ainda está a decorrer: “Nos reatores 2 e 3 ainda estão os tambores de combustível radioativo e existem ainda fugas de pequenos volumes de água radioativa todos os dias, apesar do que diz a TEPCO”.

Naoto Kan, que saiu do governo no final daquele ano de 2011, no meio a inúmeras críticas pela forma como lidou com a crise, diz hoje que a experiência o transformou num convicto opositor ao uso de energia nuclear. “Mudei de opinião em 180 graus. Temos de olhar para o equilíbrio entre riscos e benefícios. O derretimento de um reator pode destruir toda uma central e, apesar de improvável, o risco é demasiado grande”, afirma, criticando o seu sucessor, Shinzo Abe, por ter mandado religar algumas das centrais nucleares do Japão, que haviam sido desligadas depois do desastre de Fukushima. “Há um claro conflito entre a política do governo e a vontade do povo”, denuncia.

O Esquerda.net e o desastre de Fukushima

Seis meses após o acidente da central nuclear, entre os dias 15 e 20 de Setembro de 2011, Tomi Mori, correspondente do Esquerda.net, percorreu 2 mil quilómetros, desde Tóquio, indo e voltando pela costa do Pacífico, na região mais atingida pelo terremoto, pelo tsunami e pela crise nuclear de Fukushima. Descreveu e fotografou o que viu numa grande reportagem em cinco partes, que pode ser lida a partir destes links:

Fukushima: o que vi

Fukushima: cenas de um inferno

Fukushima: brotos de persistência

Fukushima: na rota da destruição

Fukushima: Realidade maior que qualquer ficção

Termos relacionados Ambiente
(...)