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Frauke Petry, a nova cara da extrema-direita na Alemanha

A sua juventude ajudou-a destacar-se na política alemã, assim como sua proposta de disparar sobre refugiados que tentem entrar ilegalmente no país.
Foto de Swen Pfoertner, EPA/Lusa

Houve um tempo em que se alguém mencionasse uma política alemã com raízes no Leste comunista e doutorada em Ciências se estaria a falar de Angela Merkel.

Há, no entanto, uma nova mulher em cena. Frauke Petry, a jovem líder do principal partido de direita alemão, anti-imigrantes, chamado Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla original), avança e lucra com a crescente insatisfação em relação à política de refugiados da chanceler, que estimulou a chegada de mais de 1,1 milhão de estrangeiros ao paí­s no ano passado.

Petry, de 40 anos, quase não sai dos noticiários desde que causou polémica ao insistir recentemente que a polícia na fronteira da Alemanha deve ter o direito de disparar sobre refugiados que tentem entrar clandestinamente no país.

“Deve impedir-se que os imigrantes cruzem ilegalmente da Áustria para a Alemanha”, disse em entrevista a um jornal regional. “Se necessário, deveriam usar armas de fogo. Não é isso que quero, mas o uso da força armada existe como último recurso.” 

Os seus comentários, feitos imediatamente após um discurso aos seguidores do partido em Hannover, provocaram uma tempestade de protestos, no mí­nimo por lembrarem, com um calafrio, o tempo da Guerra Fria, quando seres humanos foram mortos a tiros ao tentar escapar da Alemanha Oriental comunista, onde Petry cresceu.

A líder do AfD, que terminou a Universidade de Reading, na Inglaterra, com um diploma de química em 1998, ascendeu ao comando do partido em julho de 2015, após a saída dos fundadores académicos que criaram o partido como um grupo antieuropeu no auge da crise grega, em 2013.

A partir daí, Frauke foi uma peça central nos esforços para conduzir o AfD a uma posição populista, anti-imigrantes, e uma das mais veementes – e perigosas – crí­ticas da decisão de Merkel de acolher os refugiados. 

Merkel recusou-se resolutamente a aceitar as exigências de fechar as fronteiras ou impor limite ao número de refugiados. Pesquisas de opinião mostraram recentemente que a AfD tem hoje até 12% de aprovação, o que a torna potencialmente a terceira força política da Alemanha.

Frauke foi uma peça central nos esforços para conduzir o AfD a uma posição populista, anti-imigrantes, e uma das mais veementes – e perigosas – crí­ticas da decisão de Merkel de acolher os refugiados. 

Com eleições marcadas para o próximo mês em três estados, o partido estaria prestes a obter ganhos consideráveis nos parlamentos de Baden-Wurttemberg, Alta Saxónia e Renânia-Palatinado. (Nota: De facto, assim foi e nas eleições de 13 de março o partido ultrapassou a barreira dos 5% e entrou nos parlamentos dos três estados, sendo que na Saxonia obteve 21,5%, tornando-se a segunda força política nas eleições regionais)

O partido tem assentos em cinco parlamentos estaduais (Nota: depois das últimas eleições regionais passou a ter assento em oito estados) e os observadores dizem que os representantes dos partidos estabelecidos não podem continuar a ignorá-lo, como fizeram de modo geral até hoje. 

Habitualmente vestida com fatos feitos à medida, Petry tornou-se a face jovem da ascensão da AfD. Num programa de televisão, num debate sobre a inclinação à direita da Alemanha, Petry fincou o salto do sapato no tapete e insistiu ser errado rotular seu partido de populista e de extrema-direita. “Tem a ver com polí­ticos que reconhecem que precisamos de conceitos que levem a soluções ou não. Direita e esquerda são termos que não se encaixam há muito tempo.”

No passado, a AfD tentou distanciar-se do grupo Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente (Pegida), que faz campanha anti-imigrantes e anti-Islão, e que, tal como Petry, é originário de Dresden. Mas o seu partido é cada vez mais citado como sendo o braço polí­tico do Pegida. E Petry pouco fez para convencer alguém do contrário. 

Ambos utilizam linguagem semelhante, como “imprensa mentirosa”, um termo amplo para as mé­dia, ou “traidores”, para se referir a Merkel e a outros defensores de sua política de asilo, que gostariam de ver revertida, com vigilância em toda a extensão das fronteiras alemãs.

Assim como nos comícios do Pegida, tornou-se comum ver cartazes da AfD a pedir que figuras do governo sejam linchadas como castigo. Recentemente, um funcionário do partido sugeriu que a pena de morte seja adotada para o governo ser “encostado a um muro” e fuzilado. 

Frauke Petry defende que se deve impedir que os imigrantes cruzem ilegalmente da Àustria para a Alemanha. Se necessário, deveriam usar armas de fogo. Foto de Eric Kanalstein/UN

Jakob Augstein, colunista da revista Der Spiegel, disse a Petry no mesmo programa de debate: “Você é o sorriso amistoso no rosto das hordas que marcham por Dresden e espancam cidadãos (...). Você é o braço democrático daqueles que vigiam estrangeiros e incendeiam as casas dos asilados”. Petry continuou a sorrir quando ele prosseguiu: “Eu não a subestimo. Eu a levo muito, muito a sério”.

Há muito tempo não se escrevia e se falava tanto sobre um político alemão, à exceção de Merkel. Petry destaca-se dos seus seguidores, na maioria homens grisalhos (estatísticas recentes mostraram que 71% dos eleitores da AfD são do sexo masculino), com sua aparência jovial e sorridente.

O sorriso de Petry é um código. Todo aquele sorriso e toda aquela expressão dão um sinal ao povo: os argumentos do outro são disparates... Trazem o terror de volta à política alemã. Parecem tão simpáticos, tão insultantemente simpáticos

Mãe de quatro filhos, causou um escândalo razoável no ano passado quando anunciou que tinha deixado o marido, o pastor luterano Sven Petry, por Marcus Pretzell, deputado da AfD. O seu novo parceiro desde então trocou a AfD pela Democracia Cristã de Merkel.

Apesar disso, houve sugestões de que ele é responsável por Petry se sentir cada vez mais à vontade para manter o partido no rumo da direita populista. “Pretzell e Petry são o ‘amor louco’ da direita alemã”, escreveu Augstein em uma coluna recente. “Como Bonnie e Clyde, eles seguem um curso de emboscadas entre o público alemão.”

O sorriso da líder do AfD tem sido visto com suspeita por muitos. Ao chamá-la de “Frau Dr. Strangelove”, referência ao ex-cientista nazi que assessorava o presidente no filme de Stanley Kubrick de 1964, Hans Hutt escreveu no jornal de esquerda Freitag: “O sorriso de Petry é um código. Todo aquele sorriso e toda aquela expressão dão um sinal ao povo: os argumentos do outro são disparates... Trazem o terror de volta à política alemã. Parecem tão simpáticos, tão insultantemente simpáticos”. 

Publicado originalmente no The Observer, publicação em português na Carta Capital a 11 de março de 2016.

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