“A França Insubmissa é a voz da oposição no Parlamento francês”

01 de March 2022 - 10:04

Em entrevista à RFI a propósito das eleições presidenciais em França, Cristina Semblano critica o PS francês e as políticas de empobrecimento que aplicou quando governou. Candidatos há muitos, mas quase todos oferecem o mesmo: "gerir o sistema neoliberal”.

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Cristina Semblano - foto esquerda.net
Cristina Semblano - foto esquerda.net

Em entrevista à Radio France Internacional (RFI), a economista e professora universitária afirma o seu apoio a Jean-Luc Mélenchon, o candidato da esquerda mais bem colocado nas sondagens, destacando que há outros candidatos de partidos anticapitalistas: Nathalie Artaud (Lutte Ouvrière) e Philippe Poutou (NPA – Nouveau Parti Anticapitaliste).

A economista critica o PS francês e responsabiliza-o pela fraqueza na esquerda, criticando as políticas que aplicou quando foi governo, em que foram “atacadas as leis do trabalho e as liberdades individuais”.

Questionando-se sobre o que é a “união da esquerda”, Cristina Semblano afirma que o problema não está na união, mas em que bases ela se realiza. E pergunta: “Será possível a uma esquerda de transformação, a uma esquerda que põe em causa o sistema, que ela se una com uma dita esquerda que continua a auto-designar-se socialista mas que na realidade participou em todas as políticas que se traduziram no empobrecimento e no desemprego?”

Sobre os candidatos presidenciais, distingue os candidatos de esquerda Jean-Luc Mélenchon, Nathalie Artaud e Philippe Poutou e critica o ecologista Yannick Jadot (Verdes), a autarca de Paris Anne Hidalgo (PS) e a ex-ministra Christiane Taubira (Independente), referindo que “são pessoas que estiveram no poder”, que “fizeram muito pouca oposição ao presidente Macron, não obstante tudo o que se passou durante o quinquénio de Macron”.

Esquerda não pode falar em segurança da mesma forma que a extrema-direita

Cristina Semblano alerta também para a concentração excessiva no ataque à extrema-direita, apontando que muitas vezes perde-se de vista “todas as políticas que são implementadas pelos poderes centristas ou de direita e que não se distinguem, absolutamente em nada, da extrema-direita”. “Estamos a assistir nas eleições presidenciais francesas a uma corrida para saber quem é mais à direita”, salienta, criticando o candidato Fabien Roussel, do PCF, que sobre a política de segurança “utiliza todo o vocabulário da extrema-direita”.

“Eu considero que uma esquerda de emancipação, se ela falar de segurança não pode falar da mesma forma que a extrema-direita”, afirma Cristina Semblano, sublinhando que “quando falamos de segurança, nós temos de falar, antes de mais, da enorme insegurança económica e social que existe neste país”. E, lembra que em França, “atualmente existem oito milhões de pessoas que recorrem à ajuda alimentar”, “doze milhões de pessoas que passam frio em casa, e que uma sobre quatro pessoas não consegue tomar as refeições convencionais por dia para poder dar de comer aos filhos ou então porque não tem possibilidades de ir buscar essas refeições”.

“Existem entre 300 e 600 mil pessoas que sofrem cortes de eletricidade da parte do fornecedor de energia elétrica”, frisa, apontando que a situação atual se deve “às políticas que têm vindo a ser seguidas já há uns governos a esta parte, mas que foram implementadas tanto pela direita como pela dita esquerda”.

"Não podemos defender uma política de emancipação que exclua gente”, prosseguiu Cristina Semblano, defendendo que "nós não podemos ser emancipados em cada um dos nossos países, nem no ocidente, enquanto o mundo não for emancipado". Por isso, "a nossa luta tem sempre de ser internacional, tem de ter sempre os olhos postos no mundo, na população do mundo”, conclui.

Oposição de esquerda

Questionada se Jean-Luc Mélenchon é “a voz da oposição do lado da esquerda”, Cristina Semblano afirma: “Podemos dizer que a França Insubmissa não é a única, mas dentro do parlamento, é a voz da oposição em França”.

A economista e professora universitária, realça que a França Insubmissa “tem um programa com cabeça, tronco e membros e aponta que “não podemos deixar de lado problemas que são importantes, como o problema do racismo, o problema do patriarcado, o problema da violência doméstica, o problema da xenofobia”.

“E, aproveito para dizer que realmente não vi nenhum candidato [falar disso], à parte Jean Luc Mélenchon que se pronunciou sobre isso sem qualquer tipo de ambiguidades”. “Nós não podemos admitir viver num país onde uma parte da população é ostracizada pelo simples facto de praticar a religião muçulmana”, frisou.

Cristina Semblano refere também que há muitos candidatos às eleições presidenciais, mas que não há uma “oferta política relevante”, pois “temos muitos candidatos que, com uma nuance ou outra, propõem a mesma oferta política, ou seja gerir o sistema neoliberal”.

“Tudo isto me leva a crer que nós temos falta aqui de uma esquerda mais impetuosa, que ocupe mais o terreno, e eu vejo essa esquerda no parlamento com a França Insubmissa, vejo naqueles partidos que têm candidatos presidenciais, mas existe esquerda fora do mundo parlamentar”, destaca a economista, sublinhando que existe uma esquerda que está nos movimentos sociais e que “devemos torná-la mais visível”.