França: Governo adia aumentos, coletes amarelos falam em “migalhas”

04 de December 2018 - 15:50

O governo francês anunciou uma moratória de seis meses à subida das taxas sobre os combustíveis. Mas o movimento dos coletes amarelos diz que a decisão não passa de “migalhas”.

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Foto Faustine Vincent/Twitter

“Os franceses não querem migalhas, querem a baguete inteira”, afirmou Benjamin Cauchy, uma das figuras do movimento dos coletes amarelos que pôs a capital francesa a ferro e fogo no sábado e tem bloqueado muitas vias de comunicação em todo o país num protesto que começou por ter como alvo o aumento dos impostos sobre os combustíveis e que depois evoluiu para outras reivindicações contra a crescente desigualdade de rendimentos no país.

Em resposta aos crescentes protestos, o governo de Edouard Phillipe anunciou esta terça-feira uma moratória de seis meses  à subida da taxa sobre o carbono, da convergência de preços entre o gasóleo e a gasolina e o aumento do imposto sobre o gasóleo não profissional.

O primeiro-ministro anunciou também outra moratória de seis meses para as novas regras mais apertadas para a inspeção automóvel e comprometeu-se a não aumentar a tarifa da eletricidade no mesmo período.

Edouard Phillipe diz que “este é o tempo do diálogo” e prometeu “um debate alargado sobre impostos” em todo o ºais, a decorrer entre 15 de dezembro e 1 de março que “deve resultar em soluções concretas”.

Mas o anúncio do governo não convence os coletes amarelos. Citado pelo Le Monde, Benjamin Cauchy saudou esta “primeira etapa” e defendeu a realização de uns “estados-gerais da fiscalidade”, “uma nova repartição das riquezas em França” e a realização de “referendos regulares sobre as grandes questões societais”.

Para a responsável de comunicação do grupo de coletes amarelos de Bordéus, citada pela agência France Presse, as palavras do primeiro-ministro “não passam de anúncios para acalmar a situação”, sem que alguma coisa tenha efetivamente mudado. “Não há nenhuma medida para melhorar as coisas. São apenas suspensões de medidas que iriam agravar ainda mais a nossa situação”, afirmou Laure.

Outras figuras do movimento, como o camionista Eric Drouet, confirmam a desilusão com as medidas anunciadas pelo chefe do governo, apelando a nova manifestação em Paris este sábado. “Não é de todo o que esperávamos”, afirmou Drouet à AFP, exigindo uma “revalorização do salário mínimo e o regresso do imposto sobre as fortunas”.

“As pessoas aqui só temem uma coisa: que se criem comissões para abafar isto e no fim não se fazer nada”, disse por seu turno ao Le Monde Pierre-Gaël Laveder, outra figura dos recentes protestos em França. Para este ativista dos bloqueios no departamento de Saône-et-Loire, no centro do país, “ou Macron se deve demitir, ou a Assembleia Nacional deve ser dissolvida para podermos votar segundo o método proporcional. As pessoas não querem ir para casa, até acabámos de montar uma árvore de Natal, estamos prontos a passar aqui a passagem de ano”.

Oposição insatisfeita com anúncio do governo

Na sessão parlamentar desta terça-feira, o anúncio do governo teve um acolhimento semelhante por entre os partidos da oposição. Caroline Fiat, da França Insubmissa, falou de uma “cortina de fumo” para adiar o problema para depois das eleições europeias. E desafiou o governo a “ceder ou ir embora”.

Os socialistas também reagiram pela voz de Olivier Faure, acusando o governo de querer fechar o debate “numa falsa alternativa: ecologia ou poder de compra, serviços públicos ou impostos”. O PS francês exige uma discussão sobre salários, justiça fiscal e o combate às desigualdades sociais e territoriais.

À direita, Christian Jacob, dos Republicanos, diz que não basta uma moratória e que é necessária a suspensão das taxas previstas não só para o início de 2019, mas também das que o governo pretende introduzir em 2021 e 2022. Já Marine Le Pen, da Frente Nacional, chamou a atenção para o “acaso” do fim da moratória do governo coincidir com os dias a seguir às eleições europeias.

Fora do parlamento, os representantes do poder local lançaram um apelo ao presidente Macron para “reconstruir o contrato social” de forma a sair da crise política instalada no país. Os presidentes das regiões francesas, da associação dos departamentos de França e dos presidentes de Câmara franceses assinaram um artigo conjunto na revista Paris Match em que defendem que as medidas anunciadas são “uma pré-condição indispensável mas não é a única resposta à altura da situação”. Os representantes do poder local reclamam também “uma moratória absoluta ao encerramento de serviços públicos em todos os territórios” e o lançamento de uma grande reforma da fiscalidade ecológica, “que a torne mais justa e mais eficaz”.