“Os franceses não querem migalhas, querem a baguete inteira”, afirmou Benjamin Cauchy, uma das figuras do movimento dos coletes amarelos que pôs a capital francesa a ferro e fogo no sábado e tem bloqueado muitas vias de comunicação em todo o país num protesto que começou por ter como alvo o aumento dos impostos sobre os combustíveis e que depois evoluiu para outras reivindicações contra a crescente desigualdade de rendimentos no país.
Em resposta aos crescentes protestos, o governo de Edouard Phillipe anunciou esta terça-feira uma moratória de seis meses à subida da taxa sobre o carbono, da convergência de preços entre o gasóleo e a gasolina e o aumento do imposto sobre o gasóleo não profissional.
O primeiro-ministro anunciou também outra moratória de seis meses para as novas regras mais apertadas para a inspeção automóvel e comprometeu-se a não aumentar a tarifa da eletricidade no mesmo período.
Edouard Phillipe diz que “este é o tempo do diálogo” e prometeu “um debate alargado sobre impostos” em todo o ºais, a decorrer entre 15 de dezembro e 1 de março que “deve resultar em soluções concretas”.
Mas o anúncio do governo não convence os coletes amarelos. Citado pelo Le Monde, Benjamin Cauchy saudou esta “primeira etapa” e defendeu a realização de uns “estados-gerais da fiscalidade”, “uma nova repartição das riquezas em França” e a realização de “referendos regulares sobre as grandes questões societais”.
Para a responsável de comunicação do grupo de coletes amarelos de Bordéus, citada pela agência France Presse, as palavras do primeiro-ministro “não passam de anúncios para acalmar a situação”, sem que alguma coisa tenha efetivamente mudado. “Não há nenhuma medida para melhorar as coisas. São apenas suspensões de medidas que iriam agravar ainda mais a nossa situação”, afirmou Laure.
Outras figuras do movimento, como o camionista Eric Drouet, confirmam a desilusão com as medidas anunciadas pelo chefe do governo, apelando a nova manifestação em Paris este sábado. “Não é de todo o que esperávamos”, afirmou Drouet à AFP, exigindo uma “revalorização do salário mínimo e o regresso do imposto sobre as fortunas”.
“As pessoas aqui só temem uma coisa: que se criem comissões para abafar isto e no fim não se fazer nada”, disse por seu turno ao Le Monde Pierre-Gaël Laveder, outra figura dos recentes protestos em França. Para este ativista dos bloqueios no departamento de Saône-et-Loire, no centro do país, “ou Macron se deve demitir, ou a Assembleia Nacional deve ser dissolvida para podermos votar segundo o método proporcional. As pessoas não querem ir para casa, até acabámos de montar uma árvore de Natal, estamos prontos a passar aqui a passagem de ano”.
La famille Gavaud occupe le rond-point de Gaillon (Normandie) depuis le début. « On n’est pas du tout satisfaits par les annonces. Si Macron nous pousse jusqu’à la révolution, on ira ! » #GiletsJaunes pic.twitter.com/eo4s9cLcbr
— Faustine Vincent (@faustvincent) 4 de dezembro de 2018
Oposição insatisfeita com anúncio do governo
Na sessão parlamentar desta terça-feira, o anúncio do governo teve um acolhimento semelhante por entre os partidos da oposição. Caroline Fiat, da França Insubmissa, falou de uma “cortina de fumo” para adiar o problema para depois das eleições europeias. E desafiou o governo a “ceder ou ir embora”.
Monsieur le Premier ministre, le peuple ne vous demande pas de reporter mais de céder ! Vous n’avez pas eu besoin de 6 mois de réflexion pour baisser les APL et supprimer l’ISF. Entendez le cri d’un peuple digne qui n’en peut plus d'être méprisé ! Cédez ou partez ! #DirectAN #QAG pic.twitter.com/e7xvpPXF6w
— Caroline FIAT (@CarolineFiat54) 4 de dezembro de 2018
Os socialistas também reagiram pela voz de Olivier Faure, acusando o governo de querer fechar o debate “numa falsa alternativa: ecologia ou poder de compra, serviços públicos ou impostos”. O PS francês exige uma discussão sobre salários, justiça fiscal e o combate às desigualdades sociais e territoriais.
À direita, Christian Jacob, dos Republicanos, diz que não basta uma moratória e que é necessária a suspensão das taxas previstas não só para o início de 2019, mas também das que o governo pretende introduzir em 2021 e 2022. Já Marine Le Pen, da Frente Nacional, chamou a atenção para o “acaso” do fim da moratória do governo coincidir com os dias a seguir às eleições europeias.
Fora do parlamento, os representantes do poder local lançaram um apelo ao presidente Macron para “reconstruir o contrato social” de forma a sair da crise política instalada no país. Os presidentes das regiões francesas, da associação dos departamentos de França e dos presidentes de Câmara franceses assinaram um artigo conjunto na revista Paris Match em que defendem que as medidas anunciadas são “uma pré-condição indispensável mas não é a única resposta à altura da situação”. Os representantes do poder local reclamam também “uma moratória absoluta ao encerramento de serviços públicos em todos os territórios” e o lançamento de uma grande reforma da fiscalidade ecológica, “que a torne mais justa e mais eficaz”.