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França: condecoração de chefe de fundo financeiro norte-americano vista como provocação

A condecoração do presidente em França do fundo financeiro BlackRock despoletou críticas da esquerda e sindicatos que falam em provocação. O setor financeiro e as seguradoras são vistos como grandes beneficiários da polémica reforma do sistema de pensões em França e continuam a pressionar para uma maior liberalização.
Foto de Eflon/Flickr.

Jean-François Cirelli é desde o passado dia 1 de janeiro oficial da Legião de Honra francesa. O facto teria tudo para passar despercebido. Até em França. Cirelli é atualmente presidente da BlackRock francesa e uma condecoração, entre 487, atribuída a um empresário por proposta do primeiro-ministro Edouard Phillippe não pareceria, à partida, excecional.

Só que em França a tensão social está ao rubro. E a condecoração de Cirelli foi mal recebida numa altura em que os ânimos estão exaltados devido à reforma do sistema de pensões que vai aumentar a idade da reforma e nivelar por baixo os regimes especiais de pensões existentes até agora.

Cirelli fez carreira à direita. Foi conselheiro económico do ex-presidente Chirac e, sem seguida, chefe de gabinete do seu primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin. Nessa qualidade foi um dos obreiros da anterior reforma do sistema de pensões, em 2003. Dali passou para a direção da Gaz de France e mais tarde para a BlackRock em França, gigante financeiro que gere fundos de pensões, de seguros entre outros no valor de 7000 mil milhares de dólares.

Mesmo antes desta notícia, a BlackRock era apontada já como uma das empresas que está a pressionar o executivo francês de forma a implementar um modelo semelhante ao dos fundos de pensão dos EUA que colocaria o dinheiro das reformas nas mãos de seguradoras e bancos e, indiretamente, dos fundos de gestão de ativos financeiros. A 11 de setembro o jornal L'Humanité publicou um documento interno da empresa em que se revelava o interesse em reforçar o investimento em contas poupança-reforma no país.

Sindicatos e partidos de esquerda são unânimes em classificar a atribuição de honras de Estado ao empresário nesta altura como uma provocação. A CGT diz que “a sombra predadora da BlackRock plana sobre as reformas. Winter is coming”, refere, utilizando a célebre frase da série “Guerra dos Tronos”.

Mathilde Panot da França Insubmissa diz que “na República dos privilégios, eleva-se ao grau supremos os destruidores das conquistas sociais”, falando numa “democracia doente”.

O líder do PCF ironiza dizendo que é uma condecoração “por antecipação por serviços prestados à França… visto que o governo quer confiar-lhe uma parte da maquia das reformas”.

Do lado do PS, Olivier Faure diz que condecoração “é tudo menos anedótica, a BlackRock é simplesmente o lado obscuro da reforma das reformas (…), é a escolha de um campo, o dos fundos de capitalização.”

A esquerda e os sindicatos denunciam mesmo que um dos objetivos escondidos da reforma das pensões é reduzir a fatia das reformas paga pelo sistema da Segurança Social de forma a aumentar o mercado das pensões privadas.

O governo nega. A secretária de Estado da Economia, Agnès Pannier-Runacher, justificou no canal de televisão BFMTV que a condecoração foi atribuída porque Cirelli é “um senhor (…) que fala em termos positivos da França como um lugar onde se pode investir, (…) presta serviço ao nosso país”. A governante assegurou ainda que a BlackRock “não tem grande coisa a ganhar” devido à reforma das pensões uma vez que “o mercado francês é uma caixa de Smarties” que “não representa nada em comparação com a sua gestão de ativos”. Declarações que, obviamente, em vez de amenizarem a polémica contribuíram para a fazer escalar.

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