França: assinaturas do centro viabilizarão candidaturas presidenciais de extrema-direita

26 de February 2022 - 22:47

Marine Le Pen e Zemmour estavam com problemas crescentes em chegar às 500 assinaturas de eleitos que permitem a viabilização da candidatura às eleições presidenciais. Em nome da “democracia”, o centro decidiu dar um empurrãozinho.

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Zemmour e Le Pen. Montagem de duas fotografias publicadas na página Revolution Permanent.
Zemmour e Le Pen. Montagem de duas fotografias publicadas na página Revolution Permanent.

Os alarmes tinham soado nas direções das campanhas presidenciais da extrema-direita francesa. Marine Le Pen e Eric Zemmour estão bem colocados nas sondagens (o IFOP atribuía-lhes esta sexta-feira respetivamente 16,5% dos votos e 15,5%), travam uma luta fratricida no campo ultra-conservador pela passagem à segunda volta e têm tido toda a atenção mediática. Ainda assim, o nome de ambos arriscava-se a não constar do boletim de votos.

No sistema das eleições presidenciais francesas, os candidatos necessitam de 500 “patrocínios” de cidadãos eleitos. O prazo é a próxima sexta-feira. Debilidades na implantação local da União Nacional de Marine Le Pen, que ficaram patente em meados do ano passado com o resultado nas eleições regionais do partido a serem muito abaixo do esperado, e a criação muito recente do Reconquista de Eric Zemmour, assim como a proliferação de candidatos a candidatos que está a dispersar assinaturas, não lhes estavam a permitir chegar ao patamar de assinaturas validadas oficialmente.

Esta terça-feira, a candidatura de Le Pen anunciou mesmo a suspensão da campanha para que a própria se dedicasse à recolher das assinaturas em falta. O seu partido está em polvorosa com vários quadros importantes a mudarem para o lado de Zemmour. Mas a crise daquele que tinha sido até agora o partido hegemónico da extrema-direita francesa já vem de antes como recorda o Mediapart: desde 2017, o partido perdeu metade dos seus quadros locais.

Do lado de Zemmour, o fôlego inicial da campanha parece estar em causa. O candidato que passou de comentador a porta-voz daqueles que acham que a extrema-direita se deve colocar ainda mais à extrema-direita, repetindo como mantra a teoria xenófoba da “grande substituição”, ou seja de que existe um projeto em curso para substituir os franceses por estrangeiros vindo de Àfrica, não suspendeu a campanha mas anulou uma viagem à Ilha da Reunião com este pretexto e anunciou reduzir as ações previstas.

Ao longo dos anos, vários candidatos foram ficando pelo terreno por falta de assinaturas. Contudo, o alto perfil mediático e os números que alcançaram nas sondagens fazem com que, só agora, haja quem, entre os apoiantes tradicionais do sistema político, passasse a questionar o sistema de patrocínios.

O momento Zemmour

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A solução parece ter sido encontrada ao centro. Uma intervenção importante foi a de Jean Castex. Segundo a BFMTV, o primeiro-ministro francês, em meados deste mês, classificava uma possível vitória presidencial de Le Pen como “uma catástrofe para o país”. A dirigente da extrema-direita não teria “as competências necessárias para gerir o país” e dizia que ia “bater-se com todas as forças” para o impedir. Uma semana depois, de acordo com o Le Monde, apelava aos eleitos locais em geral para patrocinarem um candidato dizem ser um “ato democrático” que “não é automaticamente sinónimo de apoio político”. No contexto da dramatização da extrema-direita sobre a necessidade de assinaturas, numa altura em que Valérie Pécresse, a candidata da direita tradicional que se aproxima destes nas sondagens já as tinha obtido, e que o candidato da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon estava à beira de as obter, coisa que aconteceu dias depois, o apelo soou a todos como beneficiando especificamente a Zemmour e Le Pen.

Castex declarou ainda “apoiar a iniciativa” que o centrista François Bayrou, presidente do partido MoDem e ex-ministro de Macron, lançou no início do mês de criar uma “reserva de patrocínios” online para viabilizar os candidatos que julga serem legítimos. De acordo com ele, os candidatos legítimos serão aqueles que têm “pelo menos 10%” de intenções de votos nas sondagens. Neste caso, o apelo ao patrocínio das candidaturas de extrema-direita é mais direto porque nessas condições encontram-se apenas estes dois. Bayrou diz ter uma reserva de 180 eleitos prontos a assinar, assinaturas que serão distribuídas livremente e que serão bastantes para que Zemmour e Le Pen sigam em frente.