Fome afetou 113 milhões no mundo em 2018

03 de April 2019 - 8:49

Relatório sobre crises alimentares no mundo em 2018 contabilizou 113 milhões de pessoas em fome aguda e 143 milhões em risco. Conflitos armados, eventos climáticos e turbulência económica são as principais causas. Garantir a paz é o passo decisivo para acabar com a fome.

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Ruínas em Homs, Síria, 2013. Foto de H.usa/Flickr.
As guerras continuam a ser a principal causa de fome no mundo. Ruínas em Homs, Síria, 2013. Foto de H.usa/Flickr.

Em 2018, 113 milhões de pessoas em todo o mundo enfrentaram situações de fome aguda em que não dispunham de meios suficientes para garantir o seu sustento e requeriam assistência urgente. O número, que nunca será uma boa notícia enquanto não se reduzir a zero, é ainda assim 9% menor os 124 milhões do ano anterior, interrompendo uma tendência de aumento nos últimos anos.

São números do Relatório Global sobre Crises Alimentares 2019, que foi apresentado esta terça-feira em Bruxelas. O relatório resulta de um trabalho conjunto de vários organismos internacionais, coordenados pela Rede de Informação sobre Segurança Alimentar (FSIN), que vão da ONU (através do Programa Mundial de Alimentos/PMA, a Organização para a Alimentação e Agricultura/FAO, o Fundo para a Infância/UNICEF) à União Europeia e à agência norte-americana para a ajuda externa (USAID). O estudo reúne os dados mais recentes sobre fome e carência alimentar em todo o mundo e analisa os principais surtos de 2018, registados em 27 países

As crises alimentares mais graves de 2018 registaram-se por ordem decrescente no Iémene, na República Democrática do Congo, Afeganistão, Etiópia, Síria, Sudão, Sudão do Sul e no Norte da Nigéria. Estes oito países e regiões representaram 72 milhões de pessoas com insegurança aguda de alimentos, dois terços do total mundial. África é a região com mais países afligidos pelo problema, mas ele estende-se um pouco por todo o mundo, atingindo o médio oriente (além da Síria, Iraque e Palestina), a Ásia (Bangladeche, Paquistão), as Américas (Haiti) e a Europa (Ucrânia).

Para além dos 113 milhões que sofreram de fome aguda (a chamada fase 3), o relatório identifica outros 143 milhões de pessoas em 42 países em situação de risco (fase 2), bastando um evento inesperado para entrarem também em fome aguda.

Há três grandes causas de fome no mundo. A principal é os conflitos armados, que em 2018 geraram dois terços do total de pessoas em fome aguda, ou 74 milhões: 33 milhões em África, 27 milhões no médio oriente e Ásia meridional, 13 milhões no sudeste asiático e 1 milhão na Europa de Leste. A segunda grande causa é os eventos climáticos extremos, com 29 milhões de pessoas, a maioria em África. Segue-se a turbulência económica, que afetou 10 milhões sobretudo no Burúndi, Sudão e Zimbabué.

A FSIN não vaticina melhorias nos grandes fatores de insegurança alimentar a breve trecho. As condições para os refugiados vão continuar a constituir um problema na região em torno da Síria e no Bangladeche. A falta de chuva no Sul de África, a seca no corredor seco da América central e o El Niño nas Caraíbas e América latina continuarão a ameaçar a produção agrícola e os preços alimentares.

Por estas razões, as necessidades de despesa e assistência humanitária, que mais do que duplicaram na última década (aumento de 127%), dificilmente se reduzirão a curto ou médio prazo. Pelo lado positivo, os progressos nas tecnologias informáticas possibilitam um diagnóstico e resposta quase em tempo real, desde que haja dados em quantidade e qualidade, aspeto onde tem havido melhorias. Mas o fator decisivo para acabar com a fome no mundo, afirma o relatório, só poderá mesmo ser a prevenção de conflitos e a manutenção da paz.