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Fogo Fátuo: os corpos de um querido Verão escaldante

O novo filme de João Pedro Rodrigues é picaresco e irresistivelmente desavergonhado. Incendiou a Quinzena dos Realizadores no último festival de Cannes.
Fogo Fátuo. Imagem do filme.
Fogo Fátuo. Imagem do filme.

Picaresco e irresistivelmente desavergonhado este Fogo-Fátuo, a sexta longa metragem de João Pedro Rodrigues, apesar da próxima estar já pronta (chama-se Onde Fica Esta Rua? Ou sem Antes nem Depois). Sente-se por aqui a presença da peculiaridade do ‘seu’ cinema, um gesto de género, muito pessoal. Leia-se aqui género masculino, seja ele queer, cinéfilo, ou, pura e simplesmente, autoral.

Fogo-Fátuo é mesmo um filme escaldante. Em suma, um filme de corpos, abertamente erótico, que incendiou a Quinzena dos Realizadores, no último festival de Cannes. E um pouco por onde tem sido visto e, entretanto, estreado – com em França, onde tem recebido rasgados elogios.

Saboreia-se por aqui a nostalgia de um amor perdido, nesse ‘querido verão’ que atravessa épocas bem diferentes, desde logo ambientado num provocador 2069. É aí que um real moribundo sucessor a um reino sem coroa, está preso a uma ideia de passado. Ao corpo de uma canção, diante de um majestoso quadro colonial.

Naturalmente, a origem deste rei sem coroa, mas capacete de bombeiro, estará na vontade expressa, em 2018, pelo menino Afonso de Santa Maria João Miguel Gabriel Rafael de Herédia de Bragança, filho primogénito de Dom Duarte Pio e de Dona Isabel de Herédia, discutia com a família e com os amigos “o estado de Portugal em matéria de incêndios”, pouco depois do incêndio no Pinhal de Leiria, em 2017.

Agora temos o príncipe Alfredo (o estreante André Cabral) que irá citar Greta Thunberg – num regresso ao nosso tempo – no momento em que declara aos papás monárquicos o seu ‘grito de Ipiranga’, manifestando o desejo de ser bombeiro no lugar de real pretendente. E há também o ‘grito’ de JPR ao fantasiar o corpo da forma mais plena, temperando o humor com erotismo, a música com Arte. Pelo meio, reflecte-se o nosso passado esclavagista e a aristocracia bacoca com a personagem de Margarida Vila-Nova, a traduzir o seu incómodo com uma das frases mais caricatas (entre várias) ouvidas recentemente no cinema: “só faltava agora, confundir a Família Real com o cinema du réel!”

Real será mesmo o delírio homoerótico e musicado do quartel de bombeiros onde Alfredo conhece o parceiro negro Afonso (Mauro Costa). Com ele irá compor ‘quadros’ de um humanismo invencível e lascivo (irresistível mesmo para cisgéneros!) destinados a integrar o calendário da corporação comandada por uma mulher de peso (Cláudia Jardim).

No fundo, tudo isto é cinema, tudo isto é permitido na fantasia musical. Até porque no final de cantará o falo!. Sim, com Paulo Bragança a antecipar a derradeira apoteose.


Texto publicado originalmente em Insider.pt.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
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