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As finanças do Estado Islâmico

Será que o financiamento do EI através das exportações de petróleo é mais mito do que realidade? Como os mitos se constroem para ocultar verdades incómodas, talvez não convenha a Washington que se saiba toda a verdade sobre as finanças do Estado Islâmico. Por Alejandro Nadal
É provável que o financiamento do EI através das exportações de petróleo seja mais um mito do que uma realidade. O dinheiro que constitui a coluna vertebral das operações do EI poderá provir de outras fontes - bandeira do EI, foto da wikimedia

Na imprensa internacional abundam as referências ao poderio económico do Estado Islâmico (EI). Diz-se que as suas finanças estão muito bem alimentadas porque desde há um par de anos controla instalações petrolíferas no norte da Síria (campos de Al-Furat e Deir Al-Sur). Além disso, desde há um ano o seu domínio do norte de Iraque inclui jazigos, poços e até refinarias, em especial na zona de Mossul, Erbil e Kirkut. Por essa razão afirma-se que o Estado Islâmico (EI) é o grupo terrorista mais rico e bem financiado do mundo. E como já sabemos, quando uma ideia se repete incessantemente nos meios de comunicação tende a converter-se em verdade absoluta.

A primeira pergunta que surge é sobre a eficácia dos bombardeamentos aéreos levados a cabo pela coligação, que tem os Estados Unidos e a França à frente. Já passaram mais de 12 meses desde que os Estados Unidos começaram os seus ataques aéreos. Por que não destruíram a infraestrutura de extração, refinação e transporte de crude e derivados nas zonas que o Estado Islâmico controla? Essas instalações não são pequenos objetivos de difícil localização e as suas coordenadas precisas são bem conhecidas. Convertê-las em alvos de um bombardeamento só requer introduzir essas coordenadas no computador de um bombardeiro ou de um míssil de cruzeiro.

Será que os efetivos do EI têm grande capacidade para consertar as instalações petrolíferas após um bombardeamento? O equipamento de bombagem de um poço pode ser consertado mais ou menos rapidamente, desde que se tenham à mão as peças de reposição necessárias. Mas quando os bombardeamentos se repetem diariamente, reconstituir a capacidade de produção já não é tão fácil. Os oleodutos são de difícil reparação e no caso de uma refinaria haveria que a reconstruir a partir do zero. Finalmente, transportar crude em camiões proporciona outro alvo fácil de destruir. Os que podem escapar representariam uma quantidade ínfima de petróleo.

Como os mitos se constroem para ocultar verdades incómodas, talvez não convenha a Washington que se saiba toda a verdade sobre as finanças do Estado Islâmico

Há que dizer que têm havido alguns bombardeamentos contra instalações petrolíferas. Mas são esporádicos e parecem ser episódios isolados. A infraestrutura petrolífera não parece ser o centro de atenção da campanha de bombardeamentos aéreos.

Recentemente os serviços de informação alemães deram a conhecer um relatório cuja principal conclusão é que os rendimentos petrolíferos do EI têm sido fortemente sobrestimados (sueddeutsche.de). Calcula-se que os campos petrolíferos do norte da Síria e do Iraque que estão sob controle do Estado Islâmico teriam a capacidade de 172 mil barris diários, mas a sua produção caiu para menos de 28 mil. As receitas teriam colapsado, de cerca de 3 mil milhões de dólares para apenas 100 milhões anuais. E se é verdade que os bombardeamentos finalmente se concentraram nestas instalações, os rendimentos petrolíferos do EI seriam então muito menores.

Por tudo o que se disse antes, é provável que o financiamento do EI através das exportações de petróleo seja mais um mito do que uma realidade. O dinheiro que constitui a coluna vertebral das operações do EI poderá provir de outras fontes. E como os mitos se constroem para ocultar verdades incómodas, talvez não convenha a Washington que se saiba toda a verdade sobre as finanças do Estado Islâmico.

Um indício disto está nas declarações do almirante aposentado James G. Stavridis (nada menos que comandante supremo da NATO entre 2009-2013) sobre a existência de investidores de países árabes que canalizaram fundos para financiar as operações que tornaram possível o surgimento do Estado Islâmico. Estes indivíduos multimilionários têm uma clara simpatia religiosa e afinidade ideológica com os grupos militantes do Estado Islâmico e, além disso, podem permitir-se ao luxo de lhes dar um generoso apoio financeiro.

Há indivíduos multimilionários que têm uma clara simpatia religiosa e afinidade ideológica com o Estado Islâmico e que podem permitir-se ao luxo de lhes dar um generoso apoio financeiro. A maior parte desta fonte de recursos localiza-se no Qatar, mas vários relatórios indicam que personagens de outros emiratos e da Arábia Saudita também canalizaram recursos através de diferentes mecanismos para o EI

Segundo Stavridis a maior parte desta fonte de recursos localiza-se no Qatar. Mas vários relatórios indicam que personagens de outros emiratos e da Arábia Saudita também canalizaram recursos através de diferentes mecanismos para o Estado Islâmico. O subsecretário do Departamento do Tesouro norte-americano para os assuntos de terrorismo e espionagem financeira, David Cohen, assinalou numa conferência que o mesmo fenómeno se encontra no Kuwait e voltou a apontar o melhor aliado de Washington na região, a Arábia Saudita.

Nada disto é surpreendente. As origens do Estado Islâmico e a sua ideologia de intolerância estão no emprego da jihad e do wahhabismo como instrumentos de política externa dos Estados Unidos, a partir de 1979. Quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, os Estados Unidos aproveitaram o momento para estabelecer um complexo de bases militares na Arábia Saudita. Em contraste com as promessas anteriores, Washington manteve as suas instalações após a primeira guerra do Golfo. O impacto sobre a radicalização do movimento fundamentalista islâmico de inspiração wahhabita foi imediato. A fonte de financiamento para os grupos mais radicais da Síria e agora para o Estado Islâmico não foi interrompida.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em 25 de novembro de 2015 no jornal mexicano “La Jornada”. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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