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Filmes em português sobre prazer feminino e colonialismo premiados em Locarno

A brasileira Júlia Murat ganhou o Leopardo de Ouro com o filme “Regra 34” e no discurso de agradecimento atacou Bolsonaro. O luso-angolano Carlos Conceição venceu os prémios Europa Cinemas e Júri Jovem com “Nação Valente”, um filme contra as ideias “discriminatórias do fascismo” que “ainda matam pessoas hoje”.
Júlia Murat com o Leopardo de Ouro em Locarno. Foto de URS FLUEELER/EPA/Lusa.
Júlia Murat com o Leopardo de Ouro em Locarno. Foto de URS FLUEELER/EPA/Lusa.

O júri do Festival de Locarno chamou a “Regra 34” um “filme de coragem” ao justificar premiá-lo com o Leopardo de Ouro, a distinção máxima deste certame suíço. E a Júlia Murat, a realizadora, não faltou coragem quando subiu ao palco para agradecer e afirmar esperar “que sejamos capazes de parar a loucura deste governo fascista”, referindo-se a Jair Bolsonaro.

A cineasta recordou que da única vez que um filme brasileiro ganhara este prémio tinha sido “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, em 1967, em plena ditadura militar. Essa “durou mais 17 anos” mas agora espera “sinceramente, que tenhamos agora uma história diferente” e que “este prémio ajude a nossa sociedade a compreender que precisamos de defender a democracia, mas também a diferença e que temos de apoiar o diálogo".

A terceira longa-metragem de Júlia Murat conta a história de Simone, uma advogada negra de 28 anos que conseguiu pagar o curso fazendo sessões de sexo online. Ganha em seguida um concurso para a Defensoria Pública, onde procura defender mulheres vítimas de violência doméstica.

À RFI a realizadora confessava-se “nervosa” por apresentar “um filme bastante arriscado” do ponto de vista temático porque aborda a relação entre “a pressão social e o desejo feminino”, procurando “questionar esse olhar misógino sobre o corpo da mulher, especialmente da mulher negra” ao mesmo tempo “tentando não responder a um registo cliché do que seria este corpo da mulher”.

As ideias discriminatórias do passado” ainda “matam pessoas”

Outro filme em língua portuguesa foi premiado na 75ª edição deste festival. A película “Nação Valente”, a segunda longa-metragem do luso-angolano Carlos Conceição, venceu os prémios do Júri Jovem e Europa Cinemas Label.

Trata-se de uma reflexão sobre o colonialismo português e os traumas do pós-guerra que cruza a história dos grupos independentistas com a dos militares portugueses.

Em entrevista à RFI, o autor explica tratar-se de “uma parábola sobre o presente que usa o passado como instrumento para convidar o espectador a refletir sobre se as ideias de que gostamos de pensar que são ultrapassadas, estarão realmente ultrapassadas”. Para ele, “essas ideias antigas e discriminatórias da ditadura, do passado, do fascismo ainda matam pessoas hoje. Muitas vezes se diz que é preciso seguir em frente, virar a página, não falar do que está para trás, não perpetuar estas narrativas. Eu acho o oposto. Precisamos de perceber porquê que essas ideias ainda existem hoje e qual é o tempo de antena que elas têm, para prevalecer”.

Carlos Conceição acrescenta que “não houve uma descolonização completa da cabeça das pessoas”, havendo “pessoas que ainda preservam essas ideias e que defendam o tempo antigo, que defendam extremismos de nacionalismos, ideias de extrema-direita, que na maioria das vezes envolvem discriminação baseada em género, em cor da pele, em instrução, na orientação sexual, uma porção de coisas de que as gerações mais novas já estão fora”.

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