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Filme: Gramsci na colónia penal de Ustica

Gramsci 44, um docudrama realizado em 2017 por Emiliano Barbucci, está agora disponível online gratuitamente. Aborda o período de detenção do dirigente do PCI em Ustica e a criação pelos detidos de uma escola.

Não se pode dizer que traga informação nova sobre uma vida já muito escrutinada. E a disparidade da mistura entre dramatização e testemunhos talvez não beneficie o resultado final. Mas não deixa de ser um pedaço interessante da vida de Antonio Gramsci que merece ser lembrado.

Este filme é a história da breve estadia, 44 dias entre 1926 e 1927, do dirigente comunista italiano Antonio Gramsci na colónia penal de Ustica, uma ilha isolada na costa da Sicília.

Momento inicial da sua passagem pelo sistema prisional italiano, falado na primeira pessoa através da leitura das cartas à sua cunhada Tatiana, este é um tempo marcado pelo optimismo e pela saúde relativa. E é a história da experiência de uma escola que os prisioneiros políticos aí fundam. Um espaço precário de liberdade no exílio, aberto a todas as idades e formações, uma comuna de aprendizagens.

Para além disso, há as memórias transmitidas pelas testemunhas da época. Lembra-se a fome e a miséria dos tempos do fascismo. E lembra-se a curtíssima passagem do revolucionário sardo pela ilha. Ainda hoje, o mito da estatura moral e carisma de Gramsci persiste por aquelas paragens.

Ustica: uma escola para fazer da prisão liberdade

Dezembro de 1926. Depois de várias tentativas frustradas devido à agitação do mar, um grupo de prisioneiros políticos agrilhoados consegue chegar de barco à ilha de Ustica. Ao desembarcar vão entrar num regime de semi-liberdade na Colónia Penal, em contacto com os presos de delito comum e com a população local.

Não se pode dizer que sejam mal recebidos pelo ilhéus que viam com distância a ideia de crime político à moda de Mussolini. Privilégio de classe de alguns deles também, os novos presos estão melhor vestidos, são bem educados, trazem algum dinheiro à economia local, com eles acabará até por chegar a electricidade.

Os recém-chegados rapidamente se organizam. Partilham alojamentos, Gramsci fica com o seu rival Bordiga e mais quatro companheiros, e tarefas igualitariamente. Criam uma cantina comum.

Antonio Gramsci descreve os seus planos para lidar com a situação: antes de tudo “estar bem” (e as condições da ilha, diz, afectam positivamente a sua saúde), depois estudar: línguas, economia… Ainda estamos longe dos cadernos de 1929 que lhe asseguraram um lugar de destaque no pensamento marxista do século XX. Mas Antonio Gramsci já pensa em aproveitar o tempo para fazer “ginástica racional”. Daí também o seu contentamento por Piero Sraffa lhe ter facultado uma conta sem limites numa livraria em Milão que lhe permitirá, assim passem o crivo dos censores, ter acesso a revistas e livros.

Dada a importância que Gramsci atribuía à educação e às condições de detenção, é fácil de compreender que tenha rapidamente surgido a ideia de fazer uma escola. Os prisioneiros políticos, de vários estratos sociais, formações e correntes políticas, alternam no papel de alunos e professores. Pretende-se dissolver barreiras entre dirigentes e dirigidos, aproveitar a diferença para permitir a todos o “desenvolvimento intelectual e moral integral” de que falará Gramsci.

A escola torna-se um sucesso que levanta suspeitas nos fascistas locais. Pede-se inclusive que se enviem para a ilha soldados inteligentes porque não conseguem acompanhar o que dizem nos cursos e desconfiam do carácter subversivo do projecto. E o sucesso é uma memória que o documentário aproveita para esboçar uma linha narrativa paralela sobre as condições educativas na Ustica contemporânea que parecia ser interessante mas acaba por morrer na praia...

Sobre Gramsci, recordam-se ainda outras coisas: a abertura para com a população e a vontade de contactar presos comuns. E a prisão do porco. É uma história que já se conhecia das suas cartas e que Gramsci contou como uma anedota: os fascistas encontram um porco à solta na vila e prendem-no como se fora uma pessoa por estar a infringir a lei. Essa história ganha aqui uma nova luz: afinal não é só o porco foragido que é preso, também a dona dele o foi, deixando para trás uma criança aflita. O testemunho é dado aqui na primeira pessoa dessa criança agora envelhecida. Comovido, recorda que foi Gramsci quem o consolou num abraço que dura até hoje. A desumanidade dos fascistas que prendem porcos e a humanidade de Gramsci. Podia ser uma metáfora mas não é.

Gramsci 44 foi uma breve lufada de ar fresco numa ilha pobre e que deixou uma memória já quase centenária. Seguir-se-lhe-à o arrastar de um Gramsci 7047, o número de preso de Turi, aquele que é mais conhecido e que encheu uns cadernos preciosos com a sua resistência ao cárcere, ao fascismo, ao capitalismo. Para quem conheça apenas o Gramsci 7047, talvez valha a pena espreitar o Gramsci 44, nem que seja como aperitivo para outras pesquisas, apesar de apenas estar disponível em italiano com legendas em inglês.

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Professor.
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