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A fanfarronice irresponsável não ajuda os ucranianos

Além da corrida precipitada para a guerra, na esperança de que a sua explosão abafasse o ruído dos muitos escândalos que ele provocou, Boris Johnson e o seu executivo têm-se envolvido num jogo altamente perigoso. Artigo de Gilbert Achcar.
Boris Johnson com Zelensky em Kiev. Foto Number 10/Flickr

Os ucranianos estão a travar uma guerra justa contra uma invasão imperialista e merecem, portanto, ser apoiados. O seu direito à autodeterminação não é apenas relevante contra a Rússia. É também relevante para a sua decisão de lutar. Apenas eles devem decidir se devem continuar a lutar ou aceitar qualquer compromisso que seja colocado em cima da mesa. Mas não têm o direito de envolver outros directamente na sua defesa nacional: nem o de conseguir que as potências da NATO imponham uma zona de exclusão aérea sobre o seu país nem o de lhes enviar armas e equipamento que possam alargar o campo de ação da guerra. Merecem ser apoiados, mas trata-se apenas de uma obrigação moral.

Os países da NATO, por seu lado, não têm o direito de lhes ditar os termos de um acordo de paz com a Rússia e obrigá-los a renderem-se, ou, pelo contrário, a sabotar a perspetiva de um compromisso e pressioná-los a continuar a lutar até à exaustão, transformando-os assim num instrumento descartável da NATO. A declaração feita pelo Secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, na Polónia, a 25 de Abril, de que "queremos ver a Rússia enfraquecida ao ponto de não poder fazer o tipo de coisas que fez ao invadir a Ucrânia", suscitou naturalmente muita atenção.

Terá sido "cuidadosamente orquestrada ... para dar ao Presidente Volodymyr Zelensky o que um alto funcionário do Departamento de Estado chamou "a melhor mão possível" para o que esperam que seja algum tipo de negociações de cessar-fogo nos próximos meses", como David Sanger explicou no New York Times? Ou foi a expressão de uma mudança nos objetivos dos EUA no sentido de pressionar cinicamente os ucranianos a lutar até Washington considerar que a Rússia está suficientemente enfraquecida? Saberemos pela atitude de Washington nas próximas semanas se está a exercer a máxima pressão para que a guerra termine mais rapidamente, encurtando assim o sofrimento dos ucranianos e limitando os danos causados pela guerra aos EUA e à economia global, ou se está a continuar a brincar perigosamente com o fogo.

O assunto é menos discutível no caso do belicismo britânico. Além da corrida precipitada para a guerra, na esperança de que a sua explosão abafasse o ruído dos muitos escândalos por si provocados, Boris Johnson e o seu executivo têm-se envolvido num jogo altamente perigoso. Ao contrário de fornecedores discretos de armas à Ucrânia, como os governos francês ou alemão, têm-se gabado publicamente de cada item que entregaram e de cada forma de assistência militar que prestaram à nação em conflito. Boris Johnson chegou mesmo a ser alvo de uma reprimenda contundente de um antigo chefe do exército polaco que o acusou de ter feito declarações "tentadoras do mal" depois de se ter gabado de que "estamos neste momento a treinar ucranianos na Polónia na utilização da defesa antiaérea".

Ainda mais imprudentemente, as declarações de membros do governo britânico têm sido bastante mais provocatórias do que as feitas em Washington, para não falar das dos estados membros da UE. Em declarações na BBC Radio 4 a 25 de Abril, o ministro britânico das forças armadas, James Heappey, deu uma resposta chocante à questão de saber se é aceitável que as armas britânicas sejam utilizadas pelos ucranianos contra alvos militares dentro do território russo. O ministro afirmou que "é inteiramente legítimo atacar alvos militares no terreno dos seus adversários para perturbar as suas linhas logísticas e de abastecimento, tal como, para ser franco, desde que os russos não visem civis, o que infelizmente até agora não tomaram muito em consideração, é perfeitamente legítimo que ataquem alvos na Ucrânia Ocidental para perturbar as linhas de abastecimento ucranianas".

É claro que é "perfeitamente legítimo" para um país cujo território é invadido atacar alvos militares dentro do território do invasor, mas será sensato que o faça e, especialmente, será sensato que um ministro britânico o incentive a fazê-lo? Claro que não - até porque isso pode incitar o agressor russo a escalar o seu bombardeamento em todo o interior do território da Ucrânia. Provavelmente apercebendo-se de que tinha cometido um erro, o ministro tentou compensar a sua afirmação inicial concedendo ao invasor um direito igualmente "perfeitamente legítimo" de fazer precisamente o que os ucranianos devem temer se seguirem os seus conselhos!

Num discurso solene pomposamente intitulado "O Regresso da Geopolítica" proferido a 27 de Abril, a ministra britânica dos negócios estrangeiros Liz Truss, cujo modelo é Margaret Thatcher e que parece confundir a guerra da Ucrânia com a guerra das Malvinas, declarou: "A guerra na Ucrânia é a nossa guerra - é a guerra de todos porque a vitória da Ucrânia é um imperativo estratégico para todos nós. Armas pesadas, tanques, aviões - escavando a fundo nos nossos inventários, aumentando a produção. Precisamos de fazer tudo isto. ... Estamos a redobrar esforços. Vamos continuar a ir mais longe e mais depressa para empurrar a Rússia para fora de toda a Ucrânia".

A menos que o governo britânico tenha decidido reconhecer a anexação da Crimeia pela Rússia, a ministra compromete-se assim a participar no prolongamento da guerra, não só até que os ucranianos tenham repelido as forças da Rússia para além dos territórios em Donbass, onde estavam destacadas antes de 24 de Fevereiro, ou seja, para além do status quo ante, o que por si só já é suficientemente imprudente, mas mesmo até que tenham forçado a Rússia a sair da Crimeia, o que é absolutamente irresponsável tanto para a Ucrânia como para a própria Grã-Bretanha. O primeiro-ministro deve ter-se apercebido de quão perigosas foram as palavras da ministra dos Negócios Estrangeiros, pois teve especial cuidado no seu discurso de 3 de Maio ao Parlamento da Ucrânia para emendar a impressão que a sua declaração tinha criado, enfatizando que "nenhum forasteiro como eu pode falar levianamente sobre como o conflito poderia ser resolvido... ninguém pode ou deve impor nada aos ucranianos".

Obviamente, Boris Johnson gabou-se muito nesse discurso sobre a ajuda militar britânica à Ucrânia, mas não proferiu uma única palavra sobre ajuda humanitária, embora tenha mencionado que hoje "pelo menos um ucraniano em cada quatro foi expulso das suas casas, e é um facto horrível que dois terços de todas as crianças ucranianas são agora refugiados, seja dentro do país ou noutro lugar". Sobre esses refugiados, o primeiro-ministro não tinha nada para se vangloriar. Na véspera do seu discurso, o Guardian revelara que o seu ministro do Interior, Priti Patel, é "confrontado com ações judiciais em massa por atrasos que deixaram milhares de ucranianos em risco de trauma e bombas russas, ou num limbo na Europa Oriental".

Entretanto, o líder do Partido Trabalhista, "Sir" Keir Starmer, cuja principal obsessão é projetar-se a si próprio como o anti-Corbyn, renegando assim o juramento de continuidade programática que tinha feito para ser eleito chefe do partido, manteve-se em silêncio, aprovando a fanfarronice do executivo de Johnson. Desde que foi eleito, Starmer tem estado de facto sobretudo ocupado a ultrapassar os Conservadores em posições pró-NATO e pró-Israel. Um clima de unidade sagrada pró-NATO prevalece assim no parlamento britânico, permitindo que Johnson continue a superar todos os outros no que toca a perigosos belicismos.


Gilbert Achcar é professor de Estudos do Desenvolvimento e Relações Internacionais no SOAS da Universidade de Londres. É autor de vários livros sobre o Médio Oriente, incluindo The People Want: A Radical Exploration of the Arab Uprising e Morbid Symptoms: Relapse in the Arab Uprising. Artigo publicado em Anticapitalist Resistance a 7 de maio de 2022. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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