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A fábrica de contradições

No trânsito entre a ficção e o documentário, o cinema e a política, as contradições vão surgindo, entre virtudes e defeitos, entrelaçam-se e surgem nós: o risco de um presente enredado em si mesmo está sempre lá. Por Sofia Roque.
No final da premiada obra coletiva assinada por Pedro Pinho e produzida pela Terratreme, A Fábrica de Nada (2017), surge a dedicatória “a todos os trabalhadores da FATELEVA”, uma fábrica de elevadores, como a do filme, que entre 1975 e 2016 funcionou “numa experiência ímpar de autogestão”
No final da premiada obra coletiva assinada por Pedro Pinho e produzida pela Terratreme, A Fábrica de Nada (2017), surge a dedicatória “a todos os trabalhadores da FATELEVA”, uma fábrica de elevadores, como a do filme, que entre 1975 e 2016 funcionou “numa experiência ímpar de autogestão”

No final da premiada obra coletiva assinada por Pedro Pinho e produzida pela Terratreme, A Fábrica de Nada (2017), antes de todos os agradecimentos, surge a dedicatória “a todos os trabalhadores da FATELEVA”, uma fábrica de elevadores, como a do filme, que entre 1975 e 2016 funcionou “numa experiência ímpar de autogestão”. A homenagem a uma experiência inusitada e nascida naquele Abril – que soube durar no tempo, embora não absolutamente – acompanha em contraponto a melancolia doce e incisiva da música do Zeca que se vai ouvindo, no fecho do filme. Ouvimos cantar que “Já o tempo se habitua/ a estar alerta/ não há luz/ que não resista/ à noite cega”.

O possível que abre caminho pode perdurar no tempo, mas é como nós: nasce, cresce, continua e morre. Porém, nunca voltamos ao zero, as nossas vidas não são castelos na areia, “só começamos depois de continuar”1. A emancipação tem muito mais a ver com os pontos de partida do que com os pontos de chegada. A história já nos ensinou que precisamos dela, não em prol de um futuro já certo e eterno, mas antes em nosso nome e para poder disputar o presente. A emancipação é o contrário da experiência de um tempo transitivo e só poderá ser um meio se primeiro valer por si mesma, isto é, só poderá ser promessa se for já corpo e acontecimento. Está mergulhada na condição humana e é deste mundo. É por isso que o novo e a reinvenção estão inscritos num poder comum, o da nossa capacidade de (re)começar. Mas, então, o que fica do tempo que passa, neste caso, das quase três horas que o filme propõe? No trânsito entre a ficção e o documentário, o cinema e a política, as contradições vão surgindo, entre virtudes e defeitos, entrelaçam-se e surgem nós: o risco de um presente enredado em si mesmo está sempre lá.

Cinco notas para um comentário deliberadamente incompleto:

1. Do realismo. A fábrica, o território, aqueles rostos e aquelas histórias existem e são de agora. Entre atores e não-atores dificilmente se encontra a diferença, afinal, quem não faz de si próprio? As personagens d’A Fábrica de Nada preservam o nome de quem as representa, o espaço é o da fábrica de elevadores que fechou recentemente, o cenário é a Póvoa de Santa Iria, o Sr. Hermínio é mesmo um operário que foi despedido, as falas não estavam todas escritas: a ficção inscreve-se nas suas vidas concretas e somos marcados por uma impressão muito forte de que quem é só poderia ser como nos é mostrado. Esta coincidência que toma a realidade pela verdade do filme permite-lhe uma densidade com raízes fundas, talvez o seu próprio suporte, valioso. Há ainda um elemento estético que acentua essa impressão, sublinhando indiretamente o contexto industrial, bem como a condição social do subúrbio, do desemprego e do desalento, e ainda a própria experiência de crise e afunilamento do possível. Perante nós, surge uma tela no limite da subexposição e uma certa penumbra, que não escurece, mas filtra, resultando de um céu sempre nublado e que se sente até dentro da fábrica, conferindo assim uma marginalidade constitutiva a quem ali trabalha e se inventa. É como se, mesmo havendo sol, a luz tenha perdido o brilho. Pode até nem ser bem assim, mas este é o filme que a minha memória guardou, numa impressão difusa, contudo, carregada de sentido.

2. Da fantasia. O enredo da história é, então, pontuado com momentos aparentemente improváveis, que permitem ao espectador essa experiência elementar do distanciamento (para lembrar, à maneira de Brecht, que se trata, afinal, de uma obra de ficção). Como boas surpresas, aparecem fulgurantes as avestruzes e depois o momento musical com coreografia (expoente máximo do estranhamento, desvelando a encenação dentro da encenação). De modo menos explícito e sem dispositivo próprio, podemos também encontrar uma tentativa de questionamento sobre o que pode e o que não pode ser: a ocupação da fábrica, a corrida de empilhadoras, o jogo no lugar da exploração, o punk e o momento de redenção terrena em forma de poesia (o último diálogo entre o operário José Vargas e o “realizador de esquerda” Danièle Incalcaterra). Sim, sem imaginação não há emancipação e talvez haja alguma verdade no deslumbramento.

3. Da teoria. Se a ocupação da fábrica é ela mesma uma interrupção da normalidade, não se esquiva a ser também suspensa, para um momento de interpretação. O jantar dos intelectuais interrompe o curso da história para decifrar o presente. Porém, os anseios do agora são analisados numa contraposição arrogante que parece oscilar entre a ortodoxia de esquerda e um discurso de vanguarda plenamente consciente da dialética interna do capitalismo contemporâneo, cujo declínio pode já anunciar-se. Durante a conversa, ouvimos muitas vezes a palavra 'emancipação', por exemplo, mas sempre enclausurada na condição da classe e nas sagradas paredes da fábrica, asseverando-se que a igualdade de género é um programa neoliberal, ponto final, e voltamos ao passado. Há ainda quem fale de fome, mas nunca de liberdade. Um comentário breve só me permite enunciar aqui outra impressão: do que se ouve e do que fica para depois, segue-se que não há esperança no futuro, nem como construir, entre nós, um desejo do presente. Nesse vazio, a política como praxis emancipatória perde o chão.

A Fábrica de Nada (2017), filme de Pedro Pinho, produzido por Terratreme
A Fábrica de Nada (2017), filme de Pedro Pinho, produzido por Terratreme

No entanto, é através das palavras do filósofo que faz de si próprio, Anselm Jappe, que o escopo crítico da evocação de uma fábrica de nada parece adquirir significado: “O capitalismo existe para criar sobrevalor, lucro. O lucro não é senão uma parte do valor e o valor é apenas criado pelo trabalho vivo, humano. As máquinas não criam valor. Toda a evolução tecnológica tende a substituir o trabalho humano pelas máquinas. Desde o início que é essa a sua evolução, que tomou proporções gigantes nas últimas décadas. E essa é a contradição de base da qual não saímos. Nenhuma estratégia capitalista pode, verdadeiramente, resolver este problema”. Este é o subtexto que sustenta o argumento. A empresa estava em “reestruturação” e algumas máquinas foram levadas pelo dono da fábrica. Durante a ocupação, com instrumentos, matéria-prima também em falta, os humanos não tinham como trabalhar, nem como produzir sobrevalor. É aqui que a corrida de empilhadoras acontece. Depois, em assembleia, os operários chegam a ponderar pedir um empréstimo para pôr a fábrica a laborar: é também preciso capital. Se, no início, havia um potencial emancipatório subjacente à proposta da ocupação da fábrica, no final, essa mesma experiência é traída pela sua inscrição no sistema e a desilusão é, então, sublinhada pela repetição das mesmas palavras do filósofo. Beco sem saída.

4. Da prática. Contudo, a fábrica foi ocupada. Esta experiência desagua em dificuldades e desafios, colocando a contradição no seu lugar próprio, no centro da crise e não enquanto interruptor automático. Confrontados com propostas de rescisão de contrato e indemnizações, com a chantagem do desemprego e da acumulação de meses sem salário e o medo de tomar a decisão errada, os operários da fábrica de nada testam o poder do comum que os pode ligar e manter como coletivo. De repente, torna-se claro que é preciso mais do que a mera coincidência de partilharem o mesmo espaço de trabalho. No conflito entre as expectativas, os percursos e as necessidades de cada um, surgem diferentes dilemas e, na verdade, todas as hipóteses são legítimas: lutar pelo posto de trabalho ou aceitar a indemnização, ir fazer outra coisa e não querer ser operário para sempre; responder ao dever de solidariedade com os colegas ou ao dever de cuidar dos filhos e assegurar-lhes todas as oportunidades; responder à fome do agora ou construir o futuro; escolher a segurança de fazer como sempre ou arriscar a instabilidade de tentar o novo. De tudo isto o filme nos dá conta, o realismo torna-se social.

O que não se compreende é o carácter redutor que o filme impõe à sua própria fuga do realismo como doutrina do possível. Se, numa fábrica da Póvoa de Santa Iria, dezenas de anos depois do PREC, pode haver um operário a propor uma ocupação e esta ser aceite (ainda mais quando os responsáveis sindicais surgem caricaturados na sua forma mais obsoleta), porque é que não há uma única operária ou personagem-mulher emancipada, ou pelo menos não diminuída? Na verdade, todas as mulheres do filme são subalternizadas ou ridicularizadas: quando falam, dizem disparates ou coisas desinteressantes ou menos filosóficas; são fúteis; preocupam-se com os filhos e não com o coletivo; quando têm poder estão do lado dos maus e são hipócritas, como a patroa e a responsável pelos Recursos Humanos; e, mesmo no contexto da intimidade, o seu prazer é também passivo. Também isto o filme nos mostra, a imaginação tem limites.

5. Da parte e do todo. É difícil não enunciar outros dois elementos perturbadores e difíceis de decifrar: a cena em que se vê um coelho a ser esfolado pelo avô, enquanto o neto brinca com outro coelho morto; e a própria criança. A violência por si mesma é sempre destituída de sentido, porventura, irrepresentável. A arte tem procurado essa forma do sublime, muitas vezes em vão. Todavia, esse gesto estético é muito diferente da mera reprodução.

Certo é que, de símbolo em símbolo (recorde-se antes a belíssima cena com as avestruzes, quando vemos o pai, a desilusão da revolução perdida, e o filho, o desalento do beco sem saída do presente; os dois como quem tem a cabeça enterrada na areia), o filme procura culminar numa alegoria de si mesmo e desculpa-se quando o protagonista denuncia o personagem Danièle Incalcaterra, na sua presença ambígua. Pode tratar-se de um sociólogo, um ativista, um jornalista ou um realizador, sem dúvida, alguém “de fora”. Depois sabemos que veio observar/orientar os operários, procurando inscrever ali as recentes experiências de ocupação de fábricas na Argentina.

“Somos a cabeça do gigante que temos nas mãos”, cantam os operários. É um verso magnífico que condensa os muitos significados que o filme convoca. No entanto, o que fica da ideia de isolamento que aquela experiência de ocupação de fábrica transmite e da insistência nos lugares devidamente demarcados dos operários e dos intelectuais, da ação e do discurso, bem como dessa impressão forte de que “não há alternativa ao poder da besta”2? Alguma coisa tem de ficar. Do nada, nada pode porvir. Como nos diz Jacques Rancière, a melancolia de esquerda “alimenta-se da sua própria impotência”, “basta-lhe poder convertê-la em impotência generalizada e reservar para si própria a posição do espírito lúcido que lança um olhar desencantado sobre um mundo no qual a interpretação crítica do sistema se tornou um elemento do próprio sistema”3. Se resistirmos à sua melancolia, este filme pode deixar-nos algo mais do que apenas alguma coisa.

Artigo de Sofia Roque para esquerda.net


1 A frase inspiradora é de Maria Filomena Molder. Ver entrevista ao Expresso, 06.06.2016.

2 Jacques RANCIÈRE, O Espectador Emancipado, tradução de José Miranda Justo, Orfeu Negro, 2010, p. 61.

3 Idem, p. 57.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora e doutoranda em Filosofia Política (CFUL), ativista, feminista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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