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Exposição procura desocultar História da população negra em Portugal

A exposição “Para uma história do movimento negro em Portugal, 1911-1933”, que estará patente até 25 de junho, na Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, foi inaugurada na passada quarta-feira com uma visita guiada e uma conversa com os autores José Pereira e Pedro Varela, com moderação de Beatriz Gomes Dias.
Foto Esquerda.net.

Esta exposição, da autoria de Cristina Roldão, José Pereira e Pedro Varela, é uma iniciativa do Roteiro para uma Educação Antirracista, da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal, em parceria com a vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, Beatriz Gomes Dias.

Durante a visita guiada, Beatriz Gomes Dias destacou a importância da iniciativa para “construirmos uma narrativa muito mais diversa que traduz, efetivamente, a realidade da cidade, e não uma construção fantasiosa do que é a cidade e do que é o país, de qual é o lugar que as pessoas negras ocupam na nossa vida coletiva”.

A dirigente bloquista assinalou ainda que “o antirracismo como discurso político e público foi colocado há muito tempo na nossa vida coletiva”.

População negra conta com “uma presença multissecular no nosso país”

O historiador e investigador José Pereira apontou, por sua vez, que a exposição “Para uma história do movimento negro em Portugal, 1911-1933” contribui para “a desocultação da História da população negra”, que conta com “uma presença multissecular no nosso país”.

De acordo com José Pereira, foi muito importante para este projeto o contacto com a obra literária e com os estudos de Mário Pinto de Andrade, bem como com “o seu exemplo de ativismo político”. “O trabalho de investigação que fizemos é herdeiro das investigações de Mário Pinto de Andrade”, frisou.

No início da visita guiada à exposição “Para uma história do movimento negro em Portugal, 1911-1933”, José Pereira realçou que “as origens do nacionalismo africano estão intimamente relacionadas com o ativismo negro que se desenvolveu em Portugal e que se tornou particularmente visível a partir das primeiras décadas do século XX”.

“Esta geração tornou-se visível num período histórico muito singular, que tem a ver com a eclosão da I República em Portugal. E essa eclosão resulta do processo revolucionário. Já nessa altura nota-se a presença de ativistas negros, nomeadamente no hospital que servia de retaguarda para os feridos republicados, como é o caso do médico José de Magalhães”, explicou.

Mas a presença de africanos “é muito anterior, é multissecular, com impactos muito importantes naquilo que é a cultura e a sociedade portuguesa”. Esses impactos “são visíveis nos modos de produção agrícola, como acontece com o cultivo do arroz, na literatura, no teatro e até nas próprias marcas linguísticas presentes hoje no modo como hegemonicamente nos expressamos, ainda que esses elementos tenham sido ocultados pela cultura hegemónica”.

José Pereira ressalvou “a circunstância de alguns trabalhos académicos que foram contra a corrente dessa ocultação, resgatando, precisamente, esses elementos oriundos das várias culturas africanas”. O historiador lembrou que se discute, inclusive, os elementos da cultura africana no próprio fado, “símbolo máximo da cultura portuguesa”.

Uma grande diversidade de organizações

De acordo com José Pereira, as organizações que eclodiram a partir da I República eram de âmbito variado e atuaram de várias formas: “Não foi só a atuação política que preocupou essas organizações, foi também a intervenção cultural, a intervenção artística, o acolhimento àqueles que vinham dos territórios ocupados por Portugal em África e que precisavam de ter em Lisboa as estruturas de acolhimento que permitissem aplacar, inclusive, os efeitos de uma cultura racista que, temos de admitir, atingia essas pessoas”, apontou.

A grande diversidade de organizações que existiram durante esse período aproveitaram “um período de maior abertura política e social para disputar o espaço político, e ombreavam com organizações sindicais, com organizações que lutavam por direitos das mulheres”, afirmou o historiador. José Pereira avançou ainda que “algo que é muito importante sublinhar são as profundas ligações que estes quadros e estes ativistas que exerceram a sua atividade em Portugal tinham com o chamado movimento pan-africanista que ganhava uma nova força no início do século XX”.

A esse respeito, José Pereira referiu que “muitos desses ativistas tiveram um papel fundamental nas discussões que se vão desenvolvendo no contexto internacional”.

A centralidade das publicações de imprensa

O antropólogo Pedro Varela assinalou que uma das formas principais de expressão eram as publicações de imprensa. Inclusive, a baliza cronológica que norteia a exposição corresponde ao início da primeira publicação e ao fim da última publicação que se conhece destes ativistas.

Segundo explicou Pedro Varela, estes jornais eram editados em Lisboa e a maioria representava organizações políticas, como a Junta de Defesa dos Direitos de África, depois o Partido Nacional Africano, a Liga Africana e, mais tarde, o Movimento Nacionalista Africano.

O primeiro jornal desta geração foi O Negro, que foi reeditado recentemente. Foi um jornal de estudantes que teve apenas três números. A publicação representa um marco para esta geração. “Era um jornal muito radicalizado politicamente e também muito influenciado, ao que parece, pela Revolução Republicana”, descreveu Pedro Varela. Ao longo do anos vão existir mais de quinze publicações desta geração. Algumas foram muito longas, duraram alguns anos, outras publicações, como O Negro, tiveram uma experiência muito efémera. Numa dos painéis da exposição encontram-se exemplos de algumas destas publicações: O Negro, que só teve três publicações num ano, a Voz D’África, do Partido Nacional Africano, África Magazine, de Mário Domingues e Viana Almeida, o Correio de África, provavelmente a publicação mais longa, da Liga Africana.

Uma das coisas mais interessantes para os autores foi “percorrer os percursos de vida destes ativistas”. Para efeitos de exemplificação, José Pereira, Pedro Varela e Cristina Roldão apresentam-nos quatro figuras do movimento: José de Magalhães e João de Castro, que representam perspetivas diferentes sobre o movimento negro, e uma geração posterior, já no fim dos anos 20, com Georgina Ribas e Mário Domingues.

José de Magalhães nasceu em Angola e estudou Medicina em Portugal. Era uma figura reconhecida do movimento republicano, esteve no Hospital da Marinha a 5 de Outubro, e foi eleito deputado da Assembleia da República nos anos 20. Este ativista “representava, de alguma forma, uma visão mais moderada no que respeita, por exemplo, ao colonialismo, e tinha ligações muito fortes com a elite da República”. José de Magalhães foi professor do Instituto de Medicina Tropical, do qual chegou a ser diretor.

João de Castro nasceu em São Tomé e pensa-se que tenha vindo em criança para Portugal. Era filho de um ativista político santomense e ele e vários irmãos, nomeadamente Artur de Castro, fundador do jornal O Negro, e Heliodoro de Castro, foram influentes neste movimento. João de Castro “representou a versão mais radicalizada do movimento”. Logo em 1912 rompeu, juntamente com Ayres de Menezes, também fundador de O Negro, com a Junta de Defesa dos Direitos de África, ou com a ala de José de Magalhães, e teve, ao longo de décadas, “uma versão mais radicalizada da crítica do trabalho forçado”. Também foi deputado do Parlamento português, em 1918. Foi o único representante nessa altura do Partido Socialista Português, “o partido mais à esquerda de então no Parlamento”.

Conforme explicou Pedro Varela, Georgina Ribas “é uma personagem que vai aparecer já nos anos 20, associada ao Partido Nacional Africano”. Já Mário Domingues também surge numa fase já mais tardia do movimento. Depois de o jornal A Batalha acabar, em 1926/27, começou a aparecer como redator dos jornais desta geração.

Este é “um movimento diverso, com várias organizações, por vezes, em oposição, com quezílias entre si”. E é “uma geração que vai ter a literatura como referência, nomeadamente Mário Domingues, escritor e jornalista, ou o poeta santomense Marcelo da Veiga”. Vemos também presente a referência ao movimento artístico negro, com, por exemplo, o charleston, dança ligada ao jazz. O desporto também “vai ser espaço de disputa”. Em 1913, um atleta negro ganhou a maratona, o que levantou alguma polémica sobre se os negros tinham capacidade para ser atletas.

Pedro Varela avançou que este é, principalmente, um movimento de homens. “As mulheres aparecem em alguns momentos, e, por vezes, mais referidas do que elas próprias tendo voz”, sublinhou.

O antropólogo referiu que, no entanto, é visível a sua importância. Na Liga das Mulheres Africanas, ligado ao Partido Nacional Africano, vão surgir nomes como Maria Nazaré Ascenso, Maria Dias d’Alva Teixeira ou Georgina Ribas. “Outra organização que teve um papel importante e que, essa sim, aparece várias vezes na imprensa é o Grémio ‘Ké-Aflikana’ dos Africanos, que foi um grémio cultural dirigido por mulheres”. Por outro lado, “é mais ou menos evidente que, quando a ala de João de Castro estava a dirigir a imprensa, surgem questões como o direito de voto das mulheres”.

Ligações com várias correntes do pan-africanismo eram muito fortes

José Pereira descreveu como “as ligações entre as e os ativistas negros da I República em Portugal com o movimento negro internacional e com as várias correntes do pan-africanismo eram muito fortes”. José de Magalhães e Nicolau dos Santos Pinto estiveram presentes na sessão do congresso pan-africano de 1921, e mantinham ligações privilegiadas com Du Bois.

“Há toda uma discussão sobre se a reunião de 1923 em Lisboa, na qual Du Bois esteve presente, teria sido uma sessão do congresso pan-africano que já tinha ocorrido anteriormente em Londres. É algo relativamente ao qual ainda há muita matéria para ser avaliada no sentido de perceber qual o lugar de Lisboa no contexto dessas reuniões. Agora, o simples facto de ter havido o propósito de organizar uma reunião em Lisboa na sequência das sessões dos congressos pan-africanos, e de uma das figuras mais importantes do pan-africanismo a nível internacional ter estado presente, é um sintoma muito evidente da importância internacional que estes ativistas e estas ativistas tiveram na luta que se desenrolava internacionalmente pela liberdade e pela dignidade dos povos negros em África e na diáspora”, afirmou o historiador.

José Pereira explicou que o Partido Nacional Africano terá tido ligações mais próximas com Marcus Garvey e com o "garveyismo", que é “outro polo muito importante do pan-africanismo a nível internacional e com posições muito distintas relativamente àquilo que Du Bois propunha”. Marcus Garvey “defendia o retorno a África das populações africanas que viviam na diáspora, e esse retorno a África, pela sua condução política, é uma parte instrumental muito importante da África gerida pelos africanos”.

O historiador referiu ainda que, “entre 1911 e 1933, mesmo internamente, há toda uma discussão dentro do movimento negro acerca de qual o papel que os ativistas negros deviam ter relativamente ao colonialismo”.

“Alguns destes ativistas tinham uma qualquer ilusão relativamente à possibilidade de reforma do colonialismo. É isso que pode levar a explicar que, em 1914, alguns deles, ligados à Junta de Defesa dos Direitos de África, tenham defendido a participação de Portugal na I Guerra Mundial ao lado dos aliados e a participação de soldados africanos na I Guerra Mundial na defesa das oposições ocupadas por portugueses em África”, apontou.

José Pereira esclareceu que “a questão colonial não ficou resolvida no âmbito da I República” e acrescentou que “é também de referir a posição de muitos dos ativistas em relação à questão do trabalho forçado”.

“Se alguns dos ativistas eram contrários aos termos em que a mão de obra africana era empregue nas roças em África, ou no sistema complexo de plantações, sobretudo em São Tomé e Príncipe, que, naquela altura, seria uma das colónias mais importantes do complexo montado por Portugal em África, outras figuras do movimento negro da altura defenderam Portugal quando este país foi acusado de empregar formas de trabalho em África análogas à escravatura”, avançou.

O historiador frisou que esta questão só seria resolvida posteriormente, depois da Segunda Guerra Mundial, com aquilo a que Mário Pinto de Andrade designou como a geração Cabral, “brilhantemente descrita na obra Origens do nacionalismo africano”.

Por outro lado, assinalou que esta geração anti-colonialista, onde esteve Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Alda do Espírito Santo e Noémia de Sousa, teve contactos com a geração de 1911 e 1933.

Se existiram momentos de enfrentamento entre as duas gerações, é certo que “também se pode dizer que há ligações, inclusive familiares, entre Mário Pinto de Andrade e ativistas negros entre 1911 e 1933.

José Pereira observou que, por exemplo, “os laços de convívio e a socialização política destes ativistas anticolonialistas não seriam os mesmos se não tivesse existido a tia Andresa, que acolheu muitos destes ativistas em sua casa, junto à Alameda”.

Existe, portanto, um “laço de continuidade, ainda que com elementos de confronto político e de superação de algumas contradições que o movimento negro entre 1911 e 1933 teve, nomeadamente em relação à questão colonial”.

Já olhando para o presente, o historiador referiu que “aquilo que temos hoje em dia, com as várias lutas que se têm desenvolvido pelo direito à habitação, pelas alterações à lei da nacionalidade, pelo direito à memória, pela recolha de dados étnico raciais, têm raízes pelo menos há 40 anos”.

“Há toda uma continuidade que se foi desenvolvendo ao longo dos tempos” e essa continuidade foi “ocorrendo multissecularmente”, rematou.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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