Eugénio Rosa desfaz o mito da gestão de Paulo Macedo na Caixa

01 de September 2022 - 16:33

O economista denuncia uma gestão com o objetivo de obter lucros à custa da destruição de mais de quatro mil empregos, do fecho de 290 agências, da perda de quota de mercado, da quebra do poder compra das remunerações dos trabalhadores, do pagamento de juros irrisórios e da multiplicação de comissões aos depositantes.

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Paulo Macedo. Foto de Manuel de Almeida/Lusa.
Paulo Macedo. Foto de Manuel de Almeida/Lusa.

Num estudo divulgado esta semana na sua página, Eugénio Rosa procura mostrar “o mito e a realidade da gestão de Paulo Macedo” à frente da Caixa Geral de Depósitos. O economista sintetiza que o objetivo desta gestão “tem sido fundamentalmente obter lucros elevados à custa da destruição de 4.081 empregos, do fecho de 290 agências, da perda de quota de mercado, da quebra do poder compra das remunerações dos trabalhadores (em 2022, -6,5%), do pagamento de juros irrisórios e da multiplicação de comissões aos depositantes, da reversão de imparidades, e não cumprindo a missão da CGD”.

Enquadra também a narrativa sobre a “excelência” deste gestor noutras que ao longo do tempo têm proliferado, os “mitos de grandes gestores que depois perante conhecimento dos seus atos esses mitos se esfumam”, exemplificando com Zeinal Bava “que contribuiu para destruição da Portugal Telecom” e com Horta Osório “que foi obrigado a demitir-se do “Crédit Suisse” e que agora anda a “saltitar” de empresa para empresa”.

No caso de Paulo Macedo, gaba-se-lhe “a recuperação brilhante da CGD”, uma “imagem veiculada pelos media sem investigação e sem contraditório promovida por ele próprio e pelo departamento de marketing da CGD”.

O economista recorre a dados da própria empresa para mostrar como este “tem encantado e hipnotizado o governo com os dividendos que entrega”. Entre dezembro de 2016 e junho de 2022, a administração de Paulo Macedo fechou 290 agências, (178 da CGD em Portugal), e destruiu 4.081 empregos (2.078 na CGD em Portugal). A 26 de agosto encerrou ainda mais 23 agências, seis na região do Porto, uma na de Coimbra e 16 na de Lisboa. Uma política que faz com que em muitos concelhos do país já não exista uma agência da CGD, “o que contraria a sua missão e está
a provocar protestos da população”. Alerta-se que o Governo “mantém-se passivo e mesmo conivente com esta gestão contrária à missão da CGD, de ser o maior banco no país no crédito concedido e nos recursos captados, assistindo passivo à redução da importância da CGD no setor bancário português”.

Conclui-se também que, no mesmo período, se dá uma “redução da Margem financeira” de 139 milhões de euros, “o que confirma a quebra no crédito concedido pela CGD”. Os juros recebidos de operações ativas, entre as quais a concessão de crédito, diminuíram de 2.628 milhões para 1.459 milhões (-44,5%) e os juros pagos por operações passivas, principalmente juros aos depositantes, reduziram-se de 1.483 milhões para 453 milhões (-69,5%). Tendo isto ocorrido num quadro em que os depósitos aumentaram de 7.3459 milhões para 7.9756 milhões, a reduzida Margem financeira “só foi conseguida “espremendo” os depositantes (reduzindo drasticamente as taxas de juro pagas)”.
Já as Comissões líquidas (rendimentos) aumentaram de 464 milhões para 565 milhões (+21,8%). Dado que o crédito concedido diminuiu, “previsivelmente a maior parte deste aumento das Comissões líquidas terá resultado da multiplicação de comissões que os depositantes foram obrigados a pagar”. Diminuiu-se a taxa de juro paga pelos seus depósitos e aumentou-se as comissões cobradas, esclarece-se.

No campo dos custos de estrutura houve uma diminuição “significativa” de 464 milhões (-37,4%) que teve como origem “a redução dos Custos de pessoal em 274 milhões” e o “fecho de centenas de agências e da destruição de milhares de empregos que deixou a CGD fragilizada face à concorrência da banca privada controlada por capital estrangeiro”.

Acrescenta-se que os lucros “não resultam de um aumento significativo do “core business” da CGD (aumento de credito e de margem financeira + comissões líquidas) mas também de resultados de operações financeiras (716M€ de ROF), uma atividade essencialmente especulativa” e da reversão de imparidades e provisões constituídas a mais previsivelmente com a recapitalização excessiva da CGD em 2017 com dinheiro dos contribuintes, assim como de créditos abatidos ao Ativo (write-offs) que se consideram perdidos mas que depois foram recuperados”.