You are here

EUA: quais as grandes empresas que financiam os políticos anti-aborto

A possibilidade de revogação do Supremo Tribunal dos EUA da decisão que protege as mulheres que abortem necessita de respaldo ao nível estadual. Desde 2016, a acumulação de poder por parte de políticos “anti-aborto” tem sido apoiada financeiramente por algumas das maiores empresas do país. Por Judd Legum e Rebecca Crosby.

O rascunho de uma tomada de posição do Supremo Tribunal dos EUA, publicado pelo Politico a 2 de maio, acabaria com a decisão Roe v. Wade – eliminando as proteções constitucionais para o aborto que existem há 48 anos. “Roe estava flagrantemente errado desde o início”, escreve o juiz Samuel Alito. A sua posição tem, ao que se sabe, o apoio de quatro outros juízes conservadores. O grupo inclui três juízes recentemente nomeados pelo ex-presidente Trump: Neil Gorsuch, Brett Kavanaugh e Amy Coney Barrett. É ainda possível que um ou mais destes juízes mudem de opinião antes da decisão ser oficialmente divulgada. Mas parece provável que as proteções federais ao aborto se evaporem dentro de semanas.

18 estados já têm leis aprovadas que irão na prática banir todos os abortos quando a decisão Roe v. Wade for revogada. Alguns deles têm exceções para a violação, incesto ou em caso de perigo de vida para a mulher. Quatro outros irão banir o aborto depois das seis semanas – antes que muitos mulheres sequer saibam que estão grávidas.

Desde o momento desta decisão que as forças “anti-aborto” têm pressionado para que se chegasse a este resultado. Mas o esforço ganhou um impulso significativo desde 2016. Requeria acumulação e exercício de poder nos níveis federais e estaduais.

1- Controlo republicano dos Senado dos Estados Unidos

Depois do juiz Antonin Scalia ter morrido em fevereiro de 2016, o líder republicano da maioria, Mitch McConnell, recusou considerar o nomeado do presidente Obama, apesar deste ainda ter quase um ano de mandato por cumprir. Depois de Trump ser eleito, nesse ano, McConnell alterou as regras do filibuster para aprovar as nomeações de Gorsuch e Kavanaugh. Apesar da juiza Ruth Bader Ginsburg ter morrido semanas depois de Trump ter perdido a re-eleição, McConnell forçou a nomeação de Coney Barrett. Nenhuma destas nomeações teria sido possível sem o controlo republicano do Senado. O grupo mais importante que está envolvido na eleição de republicanos para o Senddo é o National Republican Senatorial Committee (NRSC).

2. Controlo republicano das legislaturas estaduais

Estimulados pela nomeação de juízes que eram abertamente hostis a Roe, as legislaturas estaduais controladas por políticos “anti-aborto” aprovaram proibições. O grupo mais importante envolvido na eleição de políticos “anti-aborto” para as legislaturas estaduais é Republican State Leadership Committee (RSLC).

3. Controlo republicano dos governadores

Não basta que as legislaturas estaduais aprovem proibições ao aborto. Precisam que um governador “anti-aborto” as promulgue. O grupo mais importante envolvido na eleição de governadores “anti-aborto” é o Republican Governors Association (RGA).

Acumular tanto poder não é fácil e é muito caro. Mas as forças “anti-aborto” têm um aliado fundamental: as grandes empresas norte-americanas.

Um análise do Popular Information dos donativos políticos descobriu que 13 grandes empresas deram 15,2 milhões de dólares ao NRSC, ao RSLC e ao RGA desde 2016.

Este número subestima significativamente o papel que a América empresarial desempenha no fim das proteções constitucionais para o direito ao aborto. Em primeiro lugar, apenas inclui 13 empresas e, mesmo no interior deste grupo, não inclui os contributos doados diretamente aos políticos “anti-aborto”. Não inclui o dinheiro doado ao NRSC, ao RSLC e ao RGA através das associações comerciais. Exclui ainda o apoio dado a associações “anti-aborto” sem fins lucrativos como a Heritage Foundation e a Federalist Society porque estes donativos não têm de ser públicos.

Mas o número deixa claro o papel central do dinheiro das grandes empresas na iminente revogação da decisão Roe – incluindo dinheiro de muitas empresas que alegam ser defensoras dos direitos das mulheres e da igualdade.

Amazon: 974.718 dólares para os comités políticos “anti-aborto”

O administrador da empresa, Andy Jassy, alega que esta promove “a igualdade de género e o empoderamento no local de trabalho, no mercado e nas comunidades”. A Amazon apresenta-se como defensora das mulheres na sua conta do Twitter.

No dia em que o rascunho do Supremo Tribunal foi conhecido, a Amazon anunciou que “pagaria até 4.000 dólares em despesas de viagem anualmente para tratamentos médicos que não ameacem a vida, incluindo abortos”. Este subsídio será aplicado “se o tratamento não estiver disponível dentro de 100 milhas da casa de um funcionário”.

Mas desde 2016, a Amazon doou 974.718 dólares aos comités anti-aborto, incluindo 75.000 ao NRSC, 789.718 ao RGA e 110.000 ao RSLC.

AT&T: 1.472.827 para os comités políticos “anti-aborto”

No relatório sobre Diversidade, Igualdade e Inclusão de 2020 da AT&T, o CEO John Stankey dizia que um dos “valores essenciais” da empresa era “a igualdade de género e o empoderamento das mulheres”.

A 26 de agosto, a empresa celebrou uma “Dia da Igualdade da Mulher”, dizendo que era “um dia para refletir nos muitos desafios que as mulheres ainda têm de enfrentar nas nossas sociedades para alcançar a igualdade”. Dizia acreditar que “as mulheres empoderadas são a chave do sucesso das suas comunidades”.

Mas, desde 2016, a AT&T doou 1.472.827 dólares aos comités políticos “anti-aborto”, incluindo 330.000 ao NRSC, 984.827 ao RGA e 158,000 ao RSLC. A AT&T também tem sido uma das principais contribuidoras para políticos individuais que trabalham no sentido de impor proibições ao aborto.

Citi: 685.000 para os comités políticos “anti-aborto”

O Citi diz que “está a implementar ações para avançar na igualdade de género dentro das nossas paredes e em comunidades em todo o mundo”. Num relatório de 2017 escreve que um dos obstáculos que as mulheres enfrentam do ponto de vista económico são as “restrições aos seus direitos reprodutivos”. A empresa quer criar um mundo em que os “direitos das mulheres são reconhecidos e as mulheres empoderadas para serem livres e participantes iguais numa economia global robusta, sustentável e inclusiva”.

Em março, anunciou que “cobriria os custos de deslocação do pessoal empregado nos EUA que tenham de viajar para fora do seu estado para fazer um aborto”.

Mas desde 2016, a empresa doou 685.000 aos comités políticos “anti-aborto”, incluindo 90.000 ao NRSC e 595.000 ao RSLC.

Coca-Cola: 2.624.000 para os comités políticos “anti-aborto”

A Coca-Cola diz que “há provas esmagadoras que alcançar a igualdade e o empoderamento das mulheres tem um enorme efeito de cascata que é bom para a sociedade.” Mas desde 2016, que doou 2.624.000 para os comités políticos “anti-aborto”, incluindo 105000 para o NRSC, 2.325.000 para o RGA e 194.000 para o RSLC.

CVS: 1.380.000 para o comités políticos “anti-aborto”

A CVS diz que está “dedicada a alcançar a igualdade de género tanto na força de trabalho como nas comunidades que servimos”.

Em 2021, tweetou: “Estamos a trabalhar em conjunto para apoiar as necessidades de saúde únicas das mulheres de todas as idades”, declarando que a “missão geral” da empresa “é tornar os cuidados mais acessíveis, menos dispendiosos, mais pessoais e mais locais”.

Mas, desde 2016, doou 1.380.000 aos comités políticos “anti-aborto”, incluindo 1.225.000 para o RGA, 105,000 para o NRSC e 50,000 para o RSLC.

Google: 525.702 para os comités políticos anti-aborto

O Google diz que está a “lutar por um futuro onde haja equidade em todo o mundo, igualdade de oportunidades para o sucesso em todos os campos e onde as mulheres estejam seguras online e no mundo físico”.

A 8 de Março, tweetou que está "a trabalhar para ajudar as mulheres a darem prioridade às suas necessidades, aplicando um prémio de segurança e saúde, criando oportunidades equitativas e celebrando os seus feitos”.

Mas, desde 2016, doou 525.702 aos comités políticos “anti-aborto”, incluindo 195.000 ao RSLC, 225.702 ao RGA e 105.000 ao NRSC.

Walmart: 1.140.000 para os comités políticos “anti-aborto”

A Walmart diz estar empenhada em “celebrar, desenvolver e elevar mulheres em todo o mundo – tanto no interior da empresa como nas comunidades que servimos”. Em 2019, a empresa tweetou que “empoderar as mulheres cria valor partilhado: é bom para a sociedade e é bom para o negócio”.

Mas, desde 2016, a empresa doou 1.140.000 aos comités políticos “anti-aborto”, incluindo 755.000 ao RGA, 195.000 ao NRSC e 190.000 ao RSLC.

Verizon: 901.150 para os comités políticos “anti-aborto”

A Verizon celebrou o Mês da História das Mulheres “celebrando as contribuições das mulheres em todo o lado, refletindo ao mesmo sobre como continuar a fazer progressos para as mulheres”. A empresa “foca-se em quebrar enviesamentos e estereótipos, continuando ao mesmo a progredir na igualdade das mulheres e na igualdade de género”. A 3 de março, tweetou, “a igualdade para as mulheres percorreu um longo caminho mas há muito trabalho para ser feito”.

Mas, desde 2016, doou 901.150 aos comités políticos “anti-aborto”, incluindo 641.150 ao RGA, 125.000 ao RSLC e 135.000 ao NRSC.

Outros grandes doadores

Ou empresas constam dos grandes doadores dos comités políticos “anti-aborto”, incluindo a General Motors (2.405.900), a Comcast (1.869.604), a Walgreens (496.700), a Wells Fargo (471.800) e a T-Mobile (343.400).


Judd Legum é o fundador do Popular Information, uma newsletter independente dedicada ao jornalismo.

Rebecca Crosby é investigadora no Popular Information.

 

Artigo publicado originalmente no Popular Information a 4 de maio. Republicado pelo Correo de Prensa. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

 

Termos relacionados Internacional
(...)