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Estudos revelam impacto da crise na saúde mental em Portugal

Dois estudos da Universidade de Coimbra registam aumentos das consultas de psiquiatria e dos casos de utentes com ideias suicidas entre 2007 e 2012 e apontam os jovens qualificados desempregados como os que reportam pior saúde mental.
Foto Paulete Matos.

Segundo a agência Lusa, os dois estudos integrados no projeto Smaile (Saúde Mental - Avaliação do Impacte das condicionantes Locais e Económicas) analisaram as consultas e internamentos em psiquiatria nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto entre 2007 e 2012 e questionaram mais de 1000 pessoas na região de Lisboa entre 2014 e 2015.

A investigação sobre os internamentos em psiquiatria no período que tem início antes da crise financeira (2007) e termina em plena crise em Portugal (2012) aponta para um aumento de consultas que chega aos 63% no caso dos estudantes e dos desempregados. Estes viram também aumentar em 43% o número de internamentos.

No mesmo período, o número de utentes com ideias suicidas aumentou 67% e as consultas dadas a quem tentou pelo menos uma vez o suicídio nesse ano aumentou 52%. Nestes casos que resultaram em internamento, destaca-se o aumento entre as mulheres com idade entre 50 e 64 anos (mais 52%) e o dos homens entre os 30 e os 49 anos (mais 34%).

"Em Portugal, cortou-se a eito na saúde mental"

"Aspetos como redução de salários, despedimentos e dificuldades na gestão do orçamento familiar poderão ter tido um efeito particularmente intenso neste grupo", afirmou a psiquiatra e investigadora Graça Cardoso, que justifica o maior impacto nas mulheres por existir no nosso país "uma alta taxa de ocupação [profissional] das mulheres", em comparação com outros países.

Graça Cardoso destaca ainda a importância de garantir serviços e apoios para minimizar os efeitos da crise na saúde mental da população e afirma que em Portugal "cortou-se a eito, com pouco cuidado e deixando desprotegidas as pessoas que já estavam mais vulneráveis".

Graça Cardoso destaca ainda a importância de garantir serviços e apoios para minimizar os efeitos da crise na saúde mental da população e afirma que em Portugal "cortou-se a eito, com pouco cuidado e deixando desprotegidas as pessoas que já estavam mais vulneráveis".

Paula Santana, coordenadora deste projeto, conclui que estes estudos "sugerem o impacto da crise na saúde mental da população", registado "na utilização dos serviços de saúde, nas condições económico-financeiras reportadas pelos indivíduos com pior saúde mental e na associação entre os padrões geográficos de mortalidade por suicídio e de privação material".

No inquérito realizado mais recentemente no âmbito do projeto Smaile, são os jovens com menos de 35 anos e os desempregados que reportam pior saúde mental. Para o investigador Pedro Pita Barros, questionado pela Lusa, esse dado pode ser explicado pelas "expectativas criadas com o acesso à formação superior, que sendo mais elevadas constituem um choque maior quando se dá a situação de desemprego". Uma explicação que não é definitiva e merece trabalho futuro para aprofundar as conclusões deste estudo.

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