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Estudos apontam salários baixos e desigualdade entre os jovens em Portugal

Quase três em cada quatro jovens recebem menos de 950 euros por mês. E a desigualdade entre contextos socio-económicos é uma realidade persistente no acesso ao ensino superior e no abandono escolar nos cursos. mesmo depois de formados os estudantes mais pobres continuam a enfrentar mais risco de desemprego.
Jovem a ler. Foto de Katemangostar/Freepik.
Jovem a ler. Foto de Katemangostar/Freepik.

O acesso ao ensino superior tem-se alargado ao longo das últimas décadas mas mantêm-se, persistentemente, fortes desigualdades sociais. Esta é uma das conclusões principais do estudo Estudantes nacionais e internacionais no acesso ao ensino superior realizado pelo Edulog, uma iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo.

Os resultados deste estudo, apresentado esta segunda-feira, são avançados pelo Público. Através da análise de dados de 777 licenciaturas e mestrados, conclui-se que este acesso mais alargado “não tem sido sinónimo de eliminação de desigualdades, que são visíveis no momento do acesso, e se estendem às decisões de permanência e de abandono e continuam presentes no mercado de trabalho”.

Uma das constatações é que “os estudantes provenientes de contextos desfavorecidos estão em desvantagem no acesso ao ensino superior, sendo mais provável que frequentem um instituto politécnico do que uma universidade”. Há mais bolseiros nos politécnicos e menos alunos cujas mães tenham frequentado o ensino superior mostram os dados.

Esta divisão social é relacionada com o facto da “escolha” do curso estar condicionada pelas classificações obtidas em exames e pelo percurso escolar anterior e estas estarem, por sua vez, “fortemente correlacionadas” com o “contexto família”. E vai traduzir-se no acesso ao emprego. Uma vez que não demonstra ser correta a ideia de que “os diplomados de cursos vocacionais teriam uma transição mais fácil para o mercado de trabalho.” Em 2018, a propensão ao desemprego era de 4,5% para as licenciaturas nos politécnicos públicos e de 3,1% nas universidades.

Assim, os autores defendem que “o ensino superior pode nem sempre cumprir o seu papel de promotor da mobilidade social” mas esclarecem que “a maior propensão ao desemprego dos seus diplomados é um reflexo das desigualdades já existentes no momento do acesso, e não tanto uma falha do ensino politécnico no cumprimento da sua missão vocacional.”

Outra constatação do documento é que “quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico dos estudantes, maior é a taxa de abandono.” Os especialistas destacam que, para isso, contribui igualmente o facto das contribuições das famílias para o custo total dos estudos serem mais elevadas em Portugal, 32% do total, do que na média da União Europeia, 14%. num país em que as bolsas são “atribuídas apenas a estudantes cujo rendimento familiar per capita é próximo do salário mínimo, o que coloca numa situação de não elegibilidade para bolsa muitos estudantes de baixos rendimentos”.

O baixo número de bolsas faz com que fiquem “desprotegidos muitos estudantes que, tendo-se candidatado a bolsa, viram o seu pedido recusado”. Em 2020/2021, 71,1% dos pedidos de bolsa não foram aprovados.

Baixos salários e precariedade são a realidade laboral da maioria dos jovens

Nas últimas semanas foram publicados dois estudos sobre jovens e estudantes do ensino superior. Outro estudo conhecido esta segunda-feira intitula-se “Os jovens em Portugal, hoje”, foi organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e resulta de um inquérito a quase 5.000 pessoas dos 15 aos 34 anos. Uma das principais conclusões é a da persistência dos baixos salários e da precariedade entre a juventude portuguesa, com 72% dos inquiridos a declararem receber menos de 950 euros líquidos por mês.

Segundo este estudo coordenado por Laura Sagnier e Alex Morell, citado pelo Expresso, cerca de metade tem um contrato precário e já passou por quatro ou cinco empregos na mesma situa. Um quarto dos inquiridos diz mesmo pensar todos os dias em deixar o emprego e menos de um quinto diz viver confortavelmente com o que ganha. 14% das respostas declaram situação de desemprego, com um terço destes a responder que perdeu o emprego durante a pandemia. Com este cenário de falta de perspetivas de emprego estável e bem remunerado, não é supresa verificar que 30% manifestam vontade de emigrar.

No que respeita ao nível de escolaridade dos inquiridos que já não estudam, 35% acabaram o ensino superior e 46% terminaram o percurso escolar no secundário ou no ensino politécnico. Estes apontam a falta de dinheiro ou a necessidade de trabalhar para ajudar a família como as razões que os desviaram do prosseguimento dos estudos no ensino superior. Os primeiros dizem que as razões principais para irem para a universidade foi a expetativa de um emprego melhor e com salário mais alto. O estudo conclui que uma escolaridade mais elevada “continua a garantir aos jovens uma melhor posição de partida na grande maioria das áreas da vida”.

O bem-estar psicológico é outra das áreas a que este estudo dedica atenção, com quase um quarto dos inquiridos e na maioria mulheres a dizer que já esteve medicado com ansiolíticos ou antidepressivos, 12% admitem tomar medicação para dormir, 69% diz sentir bastante pressão social para ter sucesso nos estudos ou no trabalho e 40% dos jovens afirmam que a sua vida está muito aquém das expetativas, com um terço a considerar-se pouco feliz.

Os papéis de género a que assistiram no ambiente familiar onde cresceram tendem a reproduzir-se quando chega a altura de sair da casa dos pais, embora com alguma atenuação. O inquérito apurou que as mulheres jovens dedicam mais 40 minutos por dia às tarefas domésticas do que os homens. Apesar disso, 60% dos inquiridos defende que pai e mãe devem dividir ao meio o tempo da licença paga para cuidar dos filhos. Também a desigualdade no rendimento se mantém, com apenas 19% dos jovens casais a declararem que a mulher ganha o mesmo que o homem. No que respeita à atitude machista dos jovens portugueses, o estudo diz que ela está presente em quase metade dos homens inquiridos, sobretudo nos mais jovens e com menos escolaridade.

No capítulo da participação política, são os homens que se dizem mais interessados mas são as mulheres que votam mais e se dizem representadas em posições mais tolerantes em questões como a imigração ou orientação sexual. Em relação à eutanásia, 60% respondem que ela se justifica “sempre ou quase sempre” e 54% têm opinião semelhante quanto às chamadas “barrigas de aluguer”. Quanto à sexualidade, 8% assumem-se como bissexuais e 6% como homossexuais, embora mais de um terço dos não-heterossexuais ainda não o tenha revelado à sua família.

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