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Estudo mostra que hidrogénio azul não é energia limpa

O lóbi das indústrias fósseis gastou 58,6 milhões de dólares para convencer a União Europeia dos benefícios do hidrogénio azul. Tem conseguido resultados. Mas há cientistas a alertar que é uma manobra de diversão que atrasa a descarbonização da economia.
Hidrogénio Azul. Imagem de akitada31/Pixabay.
Hidrogénio Azul. Imagem de akitada31/Pixabay.

Robert Howarth e Mark Jacobson, das universidades de Cornell e de Stanford, publicaram a semana passada um artigo científico que coloca em causa a narrativa verde do hidrogénio azul. Nele mostram que aquilo que é apresentado pelos industriais do setor como uma “energia descarbonizada” lança afinal gases com efeito de estufa, nomeadamente metano. Segundo o IPCC, este é o gás responsável por um quarto do desregulamento climático, com efeito 86 vezes mais potente do que o CO2 num período de 20 anos.

Segundo as contas dos cientistas, as emissões de metano da produção de hidrogénio azul são apenas entre 9% a 12% menores do que as do hidrogénio cinzento e a sua pegada de carbono é superior a mais de 20% do que a combustão de carvão para aquecimento. A indústria dos combustíveis fósseis fica a ganhar “porque é preciso ainda mais gás natural para gerar a mesma quantidade de calor”.

A conclusão é por isso clara: “o hidrogénio azul gera importantes impactos climáticos. Não vemos como pode ser qualificado como energia limpa”, sendo um manobra de diversão “que pode atrasar a ação necessária para descarbonizar verdadeiramente a economia mundial.”

Um lóbi milionário para pintar o azul de verde

A narrativa do hidrogénio azul como energia verde baseia-se no facto deste, ao ser utilizado como carburante, não emitir CO2. O lóbi que a promove é poderoso e não lhe faltam meios. Segundo o Mediapart, o Hydrogen Council, que junta 123 industriais do setor fóssil, e o Hydrogen Europe, que representa 260 grandes empresas europeias, gastaram, em 2020, 58,6 milhões de euros para tentar convencer as instituições da União Europeia.

Com sucesso. Em julho do ano passado, a Comissão Europeia publicava uma “comunicação” de 24 páginas intitulada “Uma estratégia do hidrogénio para uma Europa climaticamente neutra” em que se defendia a produção “em grande escala” e em “todos os sectores difíceis de descarbonizar”. O comissário europeu para a Ação Climática e vice-presidente da instituição, o socialista Frans Timmermans, qualificava então o hidrogénio como “genial” e afirmava-se pessoalmente “determinado a fazer dele um sucesso”. Um ano depois, no chamado Pacto Verde Europeu, o hidrogénio continua a ocupar um “papel chave” nas infraestruturas industriais e de transportes.

Cinzento, verde, azul

O hidrogénio fóssil produzido atualmente é feito em 95% a partir de energias fósseis e já consome, segundo a Agência Internacional de Energia, 6% do gás natural no mundo. É o chamado hidrogénio cinzento, responsável atualmente por cerca de 830 milhões de toneladas de equivalentes a CO2 por ano.

Uma técnica alternativa, a decomposição de água por eletrolise, separa oxigénio e hidrogénio, produzindo o chamado hidrogénio verde. Só que é três vezes mais cara que o hidrogénio cinzento e, pior, necessita de quantidades enormes de energia. De acordo com o Reporterre, seria necessária a produção de 156 reatores nucleares para produzir energia suficiente só para os camiões que percorrem num ano a Europa.

Para obstar a estes problemas, o hidrogénio azul seria a solução de transição até se conseguir produzir o verde. Este é igualmente produzido a partir de gás, mas no processo capta-se o CO2 e armazena-se sob terra. Um processo que fica a metade do preço do hidrogénio verde. Só que, afinal, o que se apresentava como milagre ambiental está a ser desvelado como forma de manter as indústrias da energia fóssil a funcionar.

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